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Por: Olavo Romano

(Para Luís Márcio Ribeiro Vianna, que já ouviu esta história mais de mil vezes)

 

Quando eu era pequeno, um anão morou lá em casa. Mas isso já é quase o meio da história. Seu Aparício – o nome completo era Aparício Félix, que a gente logo traduziu para Aparecido Feliz – chegou sem mais nem menos, na jardineira do Sebastião Caetano. O povo assustou com aquele homenzinho de cara e mãos de adulto, cabelo preto glostorado, botinas de amarrar, cheia de ganchinhos de metal amarelo, bengala, terno, gravata e colete, mesmo em dia de semana, longe da festa do padroeiro. O traje, acho, espantava mais do que os 70 centímetros de altura.

A jardineira descarregou cargas e passageiros, incluindo a preciosa mala do Correio, todo mundo foi embora, ele ficou por ali, sem tratar carregador ou pedir cavalo pra algum destino distante. Pegou a mala de papelão, pequena como convinha, caminhou até a pensão do Vitório. “Deve ter parente longe, banda do Ouro Fino ou Tombador, amanhã com certeza madruga e toma rumo”, imaginaram. Mas no outro dia, e nos muitos seguintes, ele ficou reparando no jeito cuidadoso do Vitório tratar dos passarinhos, interessado no trabalho de Dona Iraci no Grupo Escolar. Nada fazia, nem mesmo planos; pouco falava de si – só que era do interior de São Paulo – Ribeirão Preto ou Sorocaba, parece .

– “Com certeza está espairecendo de algum desgosto amoroso”, disse alguém mais romântico.

– “Será possível?” – duvidaram, como se anões fossem imunes aos azares do coração.

No fim, todo mundo descobriu: ele não tinha um meio de vida, a bem dizer vivia de ser anão; não havia qualquer idéia do que fazer e, mais grave, o dinheiro estava nas últimas.

Ah, uma coisa importante: além de ser anão (o que não era pouco num lugar onde quase nada acontecia), possuía uma gaitinha de boca, onde matava todas as saudades conhecidas – do Matão a Ouro Preto, passando, acho, pela de Petrópolis. Então, D. Iraci, compadecida da situação de seu quase falido hóspede, organizou no Grupo um “auditório”, com números variados, ingressos vendidos ao público, renda meada entre a Caixa Escolar e Seu Aparício, que se apresentaria como atração principal. Tínhamos uma foto do evento, infelizmente destruída no incêndio que consumiu nossa casa, com tudo o que existia dentro, exceto pouquíssimos objetos e o relógio de parede, que se negou a parar, mesmo tendo a caixa de madeira em chamas.

Já familiarizado com o lugar, ele costumava ir lá em casa, bater um papo, beber um café acompanhado ou, em momentos de mais coragem, filar bóia. Quando o dinheiro do “auditório” foi minguando, chegou de mala e cuia, bateu barraca pra valer.

A gente morava do lado da matriz, do alpendre dava pra ver o padre chegando ao altar pra começar a missa. Só então o pessoal interrompia a prosa, a catira ou a fofoca, tudo retomado durante o sermão, chamado “prática”. Meu pai, que era dentista, fundia ouro na chama azul do maçarico, trabalhava com mercúrio, também chamado azougue, coisas que lhe davam um ar alquímico, quase mágico; que se dizia ateu e comunista, chegando ao cúmulo de se declarar contra a ditadura do Getúlio em plena dita cuja; que, certa madrugada, nos tempos de solteiro, botou o povo de cabelo em pé com o som de tambores e clarins, supostamente anunciando a passagem da Coluna Prestes; que lia jornais do Rio, comprava sapato e loteria pelo reembolso postal, criava uma jaguatirica na horta, tinha levado manga ubá pra região e cultivava, às vezes com sucesso, cajá manga, ameixa do Japão e até cacau… exibia agora em casa o falado e ainda misterioso Seu Aparício.

Pra gente, menino pequeno, era uma festa. De noite, nós o acompanhávamos em volta da mesa da sala de jantar, marchando ao toque da sua gaita e seguindo as batidas da bengala no soalho. Um dia, antes de acender o cigarro, pediu-me: – “Você que é grande, pegue o café para mim”. Eu era muito pequeno, sonhava alcançar meu irmão mais velho, mas, naquela manhã, me senti enorme pela primeira vez na vida. Peguei o bule na panela onde o feijão cozinhava e servi Seu Aparício, que se tornou, assim e para sempre, o meu anão inesquecível.

Mas o tempo foi passando, a novidade perdeu a graça, meus pais fizeram uma viagem demorada, doze horas até São João d’El Rei, Seu Aparício buscou novos pousos, cada qual mais curto. Às vezes a gente escutava a gaitinha meio ao longe e previa o que logo ia acontecer. Não demorou muito, a indiferença desembocou em franca má-vontade.

Sá Isolina era uma mulata espigadinha, casada com João Turco, um libanês que de tanto levar passageiros ao porto no seu tílburi, resolveu também embarcar. Dizem que um dia ele perdeu a paciência e andou levantando a mão pra ela, que começou a gritar, pedindo socorro. Para espanto do bom samaritano que acudiu, ela teria dito: – “Quem dá o pão, dá o ensino.” E, virando-se pro companheiro, liberou: -”Bate, Sô João!”

Quando viu as coisas mal paradas para os lados de Seu Aparício, ela disse a meu pai: – “Eu tô botando sentido, vejo o povo desfeiteando esse homezinho aí. Por mim, se ele bater na minha porta, eu abro; se pedir de beber, eu dou; de comer, da mesma forma; carecendo de pousada, minha casa é pobre mas tá aberta pra qualquer cristão.” Fez uma cara séria e concluiu, misteriosa: “Nosso Senhor Zucristo, quando andava pro mundo, era também um perengrino que nem ele. Nós não soubemos…”

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