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Para o analista conservador – sempre desinformado – a crise da dívida soberana da Europa, que arrasta a economia global para a recessão, tem sua origem na irresponsabilidade fiscal dos “porcos”, ou seja, dos países agrupados sarcasticamente no bloco dos PIIGS, que engloba Portugal, Itália, Islândia, Grécia e Espanha (Spain, em inglês). Segundo essa visão, os governos desses países esbanjaram em políticas populistas no passado e agora se vêm em palpos de aranha para saldar suas dívidas, necessitando do socorro dos demais países da União Europeia. Como o rombo, contudo, é de dimensões ciclópicas e o sistema financeiro dos países desenvolvidos está precarizado e nervoso, em razão dos efeitos da crise do subprime, o resultado é a nova crise internacional. Todos, portanto, pagam pela irresponsabilidade de meia dúzia.

A verdade, contudo, é bem diferente, até porque a turbulência atual é, em grande medida, uma extensão da crise de
2008-2009, cuja resolução ficou a meio do caminho devido aos obstáculos originados pela dominação do capital financeiro, que, mesmo diante da possibilidade do colapso sistêmico, tem subordinado a economia e a sociedade a seus
interesses mesquinhos.

Para começar, conforme registra a Figura 1, efetivamente assistiu-se a uma forte deterioração do balanço financeiro da Grécia e de Portugal a partir de meados da década de 2000, mensurado pela relação resultado nominal/PIB (em %), mas essa deterioração acelerou-se fortemente a partir de 2007, quando a economia internacional começou a sentir os efeitos da crise do subprime. Aliás, até 2006 a situação fiscal do Japão e dos Estados Unidos não era melhor do que a grega e portuguesa. Por outro lado, o setor público da Espanha e da Itália eram superavitários, tendo o espanhol mantido essa situação mesmo após a eclosão da crise, enquanto o italiano tornava-se fortemente deficitário. Quando, contudo, se considera que a inflação média da Grécia foi de 3,2% ao ano durante a mesma década, e a de Portugal atingiu 2,9%, para 0,9%, verifica-se que os níveis do déficit público real desses
países no período 2002-2006 caem para 2,6% e 1,0%, respectivamente, para um déficit de 2,4% no caso da Alemanha.

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Parece, portanto, extremamente problemático culpar políticas populistas dos PIIGs pela crise, que, aliás, engolfou não somente a Grécia e Portugal, mas também a Islândia, a Espanha e a Itália, países que apresentaram superávit nominal no mesmo período.

Na verdade, a razão primeira da crise da dívida soberana foi a forte recessão que se seguiu ao pânico causado pela quebra do banco de investimento norte-americano, Lehmam Brothers, em 15 de setembro de 2008, ao causar a dramática queda da arrecadação tributária, num contexto em que os governos, reféns dos banqueiros, não apenas implementaram medidas de incentivo à economia, mas alocaram somas fabulosas no sistema financeiro, para salvar as instituições supostamente too big to fail. Uma vez mais, conforme demonstra a Figura 2, o comportamento dos PIGS não foi muito diverso dos demais países da Eurozona, inclusive da Alemanha, que cresceu muito menos do que os demais países do bloco do euro até a crise de 2008.

É claro que, conforme registra a Figura 3, o nível de endividamento dos PIIGS, era maior, de modo que os mesmos
foram tolhidos pela crise numa situação de maior fragilidade, reforçada, no caso da Grécia, por níveis de risco País maiores e, portanto, de taxas de juros também mais elevadas. O endividamento do setor público do bloco, contudo, era candente, e teria continuado a sê-lo não fosse pela “trombada” causada pela crise internacional. Aliás, não faltou no agravamento da situação o próprio tratamento dado pelos bancos de investimento, que criaram a acunha PIIGS, oposta a BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China), que, em inglês, lembra brick (tijolo),
dando a ideia de solidez.

O pior é que, pela lógica perversa do mercado, tão logo os investidores identificaram a difícil situação financeira da Islândia, cujo balanço fiscal passou de um superávit nominal de 5,4% do PIB em 2006, para um déficit de 10% em 2009, e, em seguida, da Grécia, gerou-se forte movimento contra os títulos desses países. Os investidores começaram a se desfazer de suas posições nesses papéis, cujos preços caíram dramaticamente, resultando no seu rebaixamento pelas agências classificadoras de risco e, assim, em quedas ainda maiores das suas cotações, com a conseqüente elevação das taxas de juros. Como sempre acontece, o resultado foi o agravamento ainda maior da situação financeira desses países, reforçando o aumento do déficit fiscal causado pela queda da arrecadação tributária.

Também como pode ocorrer em contextos como esse, o mercado se encarregou de observar países que, por razões
reais ou imaginárias, estariam numa situação similar. Pela irresponsabilidade dos bancos de investimentos internacionais, surgiu a alcunha PIIGS, e os investidores passaram a se fugir dos títulos de dívida pública dos demais membros do “clube” como o diabo foge da cruz. Diante, então, do agravamento da crise pelo contágio desses países, o Banco Central Europeu, numa atitude inédita, resolveu comprar títulos da Espanha e da Itália, enquanto tentava, juntamente com os governos dos países desenvolvidos da Eurolândia e com o FMI, socorrer a Grécia e Portugal. A crise, contudo, promete se agravar ainda mais, até porque, para começar, a recessão nos países “socorridos” promete ser profunda e dolorosa, afetando o conjunto da comunidade econômica europeia.

De mais a mais, todos os países envolvidos, para não falar nos não envolvidos, estão implementando programas de
ajuste fiscal, que, na verdade, desajustam tudo, inclusive a economia e as finanças de todo o mundo. Finalmente, novo pânico já se instalou no cenário internacional, a requerer mais trilhões de dólares de governos que já estão excessivamente endividados e de bancos centrais que já estão imprimindo moeda além de todos os limites.

Que não se espere, pois, nada menos do que nova e dolorosa onda recessiva, que, inclusive, afetará (como já está
afetando) o Brasil, que certamente sofrerá bastante, embora menos do que em fins de 2008 e inícios de 2009. Aproveitando o ensejo, é de parabenizar a presidente Dilma Rousseff, por ter enquadrado o Banco Central em sua política anticíclica, e por ter imposto barreiras tarifárias à importação de automóveis, medida imprescindível para enfrentar a crise, reduzir o déficit em transações correntes e defender a indústria, a renda e o emprego.

Cláudio Gontijo

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