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Por: Olavo Romano
Encontro Sabará na fila do Banco. Cara boa, barbeado, roupa limpa e bem passada, nem de longe lembra os tempos em que, cheirando a álcool, abatido e afobado, recolhia apostas de jogo de bicho. Vivia meio clandestino, olhando de lado, a meia verde fosforescendo a cada passo, miúdo e apressado..
Bancário aposentado, largou o bico das apostas quando um delegado, amigo da família, avisou da entrada de um pessoal de fora que jogava pesado e a polícia ia apertar..
Família bem encaminhada, vive sozinho e feliz. Casamento, bastou um, pra nunca mais. Nada toda manhã, bem cedo, frequenta uma biblioteca até a hora do almoço, leva uma vida tranqüila..
Outro dia, passou no bar onde os antigos companheiros costumam se encontrar. Lá estava a turma de sempre, com as baixas naturais. Pediu água mineral sem gás, conversou um pouco e recusou-se a beber – poucos ofereceram bebida, quase ninguém insiste mais. Um amigo, ironia calibrada no álcool, alfinetou: “Sabará, você é o único da turma que não estudou, que não progrediu na vida”..
Ele disse que tinha criado os filhos, todos bem encaminhados, e vivia com modesta pensão. Mas tinha apartamento próprio, nada devia a ninguém; ao contrário da maioria, que fazia farol mas pagava juros de cartão de crédito, colecionava uma penca de empréstimos..
Ele tinha até dinheiro emprestado..
Para provar, mostrou uma caderneta com nomes, datas e valores recebidos mensalmente..
Então, de repente, me perguntou: – Lembra o dia que você me matou? Assustado e surpreso, disse que não me lembrava..
Ele, então, contou que eu sempre passava pela lojinha onde ele levava as apostas, a gente parava, conversava, eu pedia notícia de seu irmão, meu amigo e contemporâneo de faculdade, de sua cunhada, amiga de minha esposa, uma conversa espichada na pachorra da época. Uma ocasião, tendo passado várias vezes sem vê-lo, pedi notícia, o funcionário respondeu, pesaroso: “O senhor não soube? Ele suicidou”..
Sabará disse, embora eu não me recorde, que no quadro “Prosa Arrumada”, do programa Arrumação, eu falei da morte dele, lamentei o ocorrido, mandei um abraço para a família. Na verdade, quem tinha morrido era o dono do ponto de jogo do bicho, pessoa que eu nem conhecia. Como nunca mais vi Sabará, seu irmão morreu logo depois, perdi o contato com sua família, o assunto ficou por isso mesmo..
Outro dia, na fila do Banco, ele conta que, logo depois de sua suposta morte, sentou-se no ônibus ao lado de um antigo conhecido. Cumprimentou- o, ele mal respondeu..
Puxou conversa, o assunto não rendeu..
O sujeito mal respondia suas perguntas, olhava Sabará de soslaio, evitando encará-lo..
Quando o ônibus foi chegando ao ponto onde ia descer, o homem se levantou, olhou Sabará bem nos olhos, e perguntou, cheio de certeza: – Mas você morreu mesmo, não foi? 

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