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O Alazão do Doutor

A primeira mensagem no celular é do Edgardzi-nho, o fraterno amigo Edgard Penna Amorim, desem-bargador presidente do Tribunal Regional Eleitoral, de cujo pai e xará herdou a cordial integridade e o inarre-dável compromisso ético. Às duas e meia da madru-gada, comunicava o falecimento do Prof. José Carlos Monteiro de Moura, de Direito Penal da UFMG, “pai da servidora aposentada do TJMG e ex-assessora jurídica da Presidência, Heloisa Monteiro de Moura Esteves, e sogro do procurador da ALEMG, Júlio César dos San-tos Esteves”, noticiando ainda o horário do velório e do sepultamento, no Parque da Colina. 

Manoel Hygino, estimado confrade na Academia Mineira de Letras, foge o mais que pode de velório e cemitério, dizendo: “Quem não é visto, não é lembra-do”. Mas como não me despedir de um amigo querido, colega de trabalho na antiga Procuradoria Geral do Es-tado, com que partilhei tanta prosa, tanta lereia da velha Minas interiorana em que nascemos? 

Heloisa e Júlio César conversavam com Maria Coeli Simões Pires e seu marido. Recordamos das reu-niões do Conselho de Administração da Imprensa Of-cial, que Júlio presidia representando Coeli, então Se-cretária de Governo Lembramos do Dr. Jorge Lasmar, longa vida dedicada ao magistério, ao direito, á literatu-ra, à história e à cultura. Aristoteles Atheniense, gentil e cumpridor, já passara por lá, Marcelo Leonardo chegou, lembrando passagens da carreira do falecido amigo.

Informado, há tempos, de que ele estava recluso e deprimido, evitei procurá-lo.  Mas soube, no velório, que ele continuava gostando de uma boa convivência e costumava referir-se às nossas frequentes conversas. Grande prejuízo, agora irreparável. Além de continuar escrevendo sobre temas espirituais, objeto de obras paralelas à valiosa produção jurídica, recorria à heran-ça paterna armando ferroramas e construindo cenários inspirados na arquitetura de nossas estações de trem.

A prosa amena, o jeito despojado de chegar às pessoas, carisma embalando sólidos conhecimentos jurídicos, garantiam o sucesso nos muitos júris em que atuou por todo o estado. Certa vez, reconheceu na plateia um homem que já vira em outras ocasiões. Vencen-do a timidez, o fã disse que o acompanhava para apre-ciar sua oratória, lamentava não ter estudado Direito e confessou, entusiasmado: “O júri é uma das três coi-sas que eu mais gosto na vida”. Instigado, José Carlos perguntou pelas outras duas. “Procissão do Encontro e festa em casa de puta”, disse o sujeito, com naturalida-de e entusiasmo. 

Convidado por José Carlos, José Dalai Rocha foi passar um domingo no sítio perto de Caeté. Dalai tinha sido jornalista, era nosso colega na PGE, aposentando–se mais tarde como Juiz em Belo Horizonte. A moça que atendia no sítio ia e ia e vinha servindo comes e bebes, sempre de olho nas pessoas, ouvido atento às conversas. Ao trazer um tira gosto ou renovar a cer-veja, dava uma parada, remanchava, reparava bem no convidado. Uma hora em que ele não estava por per-to, aproximou-se do patrão e disse, admirada: “Nossa, doutor, esse amigo do senhor tem um cangote danado de bonito, hein?”

Logo que adquiriu o sítio, resolveu comprar um cavalo. Num fimde semana, quase boca da noite, apa-receu Lazico, um vizinho, montado em bonito alazão. Soubera que o doutor precisava de um animal de sela, quem sabe o dele servia. Mostrou o cavalo, sugeriu um repasso, jeito de sentir o cômodo, a andadura macia, a boca obediente ao menor toque da rédea. Dispensada esta parte, o próprio dono andou pra lá e pra cá, de-monstrou as qualidades, exibiu o porte da mercadoria. 

– É manso, né?

– Mansinho de tudo, doutor. De carregar mulher grávida, criança passar por baixo. Mas, também, esperto e vivo.

– É mais andadura do que marcha, não é?

– De rédea solta, é andadura; firmandoa rédea, pega uma marchinha boa.

– Tá pedindo quanto nele?

– Dois conto de réis, dois mil, como usa falar agora.

– Dois mil, Deus me livre! Tá salgado demais.

– Mas é de porteira fechada, como lá diz: cabresto, freio, rédea, enxergão, manta, arreio e coxinilho,peitoral, rabicho e capoteira. Fora uma rédea nova, legítima, de Dores de Campos, que nunca foi usada. Se quiser, trago depois.

O comprador desconfioude tanto agrado, mas tinha agradado do alazão. Pechincharam, negacearam, ladearam, escorregaram, mudaram de assunto até não poder mais. De vez em quando, beliscavam a catira, pra não perder o rumo do negócio. No fim,restou uma dife-rencinha, coisa pouca, só pra render conversa, esticar assunto. Zé Carlos propôs partir o queijo, rachar a dife-rença. Aí Lazico tomou um ar sério, esticou o braço em direção ao comprador que, meio distraído, estendeu-lhe a mão. “Lá se avenha”, sacramentou  o vendedor, cheio de solenidade. 

No outro dia, antes do almoço, Zé Carlos bateu pra casa do vizinho. 

– Madrugou, doutor.

– disse o homem, ressabiado.

–  Você me passou a perna– disse José Carlos, direto, cara amarrada.

– Pelo amor de Deus, doutor! O que foi que aconteceu, gente?

– Tá cansado de saber: me empurrou um cavalo defeituoso.- Ele empaca?

– Não sei, não deu tempo de ver. – Boleia?

– Acho que não.

– Refuga?

– Parece que não, pelo menos até agora.

– Deu coice em alguém?

– Coice, não deu. O defeito tá na cara. Mas eu me distraí conversando, logo escureceu, não reparei direito. O cavalo é cego dum olho.

– Ah, então é isso?

– É. O homem botou as mãos na cabeça, fez uma cara contrariada e respondeu: “Que injustiça, doutor. Cegueira não é defeito. Cegueira é infelicidade, uai”.

Olavo Romano

olavoromano@task.com.br

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