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Olavo Romano

Na maioria das fazendas, antigamente, rezar o terço antes de dormir era sagrado.
Antes, porém, era preciso lavar os pés e tomar um café reforçado.
Na lavação dos pés, a precedência era da visita, seguida dos mais velhos, jovens e crianças na rabeira. A dona da casa, ou uma empregada, pegava um pouco de água quente do tacho que ficava no fogão a lenha, juntava com a água da pia da
cozinha, misturava com a mão para sentir a temperatura, e ia passando a bacia a cada um, que usava sabão preto e bucha, de um coité, e enxugava com toalha de pano alvejado. Visita de cerimônia tinha direito a sabonete, na saboneteira,
e toalha felpuda.

Então, vinha o café, reforçado com biscoito de todo tipo, pão de queijo, broa de fubá, queijo e leite. O dia começava cedo, a janta era com o sol ainda alto. No serão era preciso forrar bem o estômago antes de ir para a cama, para evitar barriga
roncando altas horas da noite, espantando o sono.

Teresa, criada em família muito católica, arranjou um marido acostumado em outro sistema. Um dia, tomou coragem e disse que sentia falta da reza em família, e perguntou se ele não queria acompanhá-la no terço. Tonico, para agradar à mulher, aceitou a proposta, mas disse que precisava aprender como era. Ela explicou que o terço tinha cinco mistérios, cada mistério com um “Pai Nosso” e dez “Ave Marias”, tudo começando com o “Credo”, que o povo chamava de “Crem-Deus-Padre”, e terminando com a “Salve Rainha”.

Professora a vida inteira, Teresa era boa para ensinar.
Aos poucos, Tonico foi apanhando jeito, logo rezava aos arrancos, num trote seco, meio azougado, que nem cavalo
ainda chucro. Então ela falou dos mistérios, que podiam ser gozosos, dolorosos e gloriosos, conforme o dia da semana.

Só mais tarde, com João Paulo II, viriam os luminosos, acompanhados de incompreensões e mal-entendidos,
jornalistas e repórteres de televisão entendendo que o terço tinha sido espichado, ganhando mais um “Pai Nosso”
e dez “Ave Marias”, encheram a cabeça de fabricantes e comerciantes de artigos religiosos, além de confundir o
público com seus equívocos. Na verdade, o terço continuava do mesmo tamanho, acrescentando-se um quarto mistério,
para reflexão e contemplação.

Numa segunda feira, Teresa resolveu ensinar a contemplação dos mistérios, começando pelos Gozosos, que eram,
respectivamente: a Anunciação do Anjo a Nossa Senhora, a Visita de Nossa Senhora à sua prima Isabel, o Nascimento de Jesus, a Apresentação do Menino Jesus no Templo e a Perda e o Encontro de Jesus no Templo. Ele nunca tinha ouvido
aquilo e acompanhou, entre atento e curioso, aquela espécie de declamação que Teresa fazia depois de dizer o título do
primeiro mistério. O segundo era assim: “Visita de Nossa Senhora à sua prima Isabel. Estando Maria grávida, foi visitar
sua prima Isabel, permanecendo com ela por três meses”.

Tomado pelo espanto, Tonico exclamou: “Três meses? Eta visita!” – frase que até hoje, tantos anos depois, é lembrada
pelos parentes e amigos.

Na fazenda de meu avô, a gente se reunia no quarto do casal, onde ficava o oratório. Cada um se ajeitava perto da cama, junto à arca, escorado numa cadeira ou em qualquer móvel que pudesse oferecer apoio ao corpo, cansado da lida diária.

Um puxava o terço, os demais iam acompanhando. No começo, as vozes saíam fortes, entoadas, parecendo cheias
de fé. Depois, o sono ia chegando sorrateiramente, o coro ficava monótono, arrastado. Ligeiros cochilos entre a “Ave
Maria” e a “Santa Maria”, uma voz faltava ou ficava para trás.

Então, quase todos se distraíam, alguns começavam a rir baixinho, o terço desandava.
Aí o puxador intercalava uma repreensão: “Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco… Para de rir, Maria. Acorda,
Papai. Já está no quarto mistério, agora mesmo acaba…
Bendita sois vós entre as mulheres…”.

No final, tendo já rezado pelas almas do purgatório, especialmente as dos parentes e amigos recém-falecidos,
encerravam com a “Salve Rainha”. Então, cada pessoa pegava sua lamparina, despedia-se, e ia dormir.

Tio Joaquim e Tia Clarinha viviam nos Morais. Terminada a obrigação, já na boca da noite, Tio Joaquim viu apontando
a lua cheia no céu limpo de janeiro. Era sábado, eles não tinham filhos, nada os prendia em casa. Foi lá dentro e propôs
a Tia Clarinha, que recolhia umas roupas no varal: “Clarinha, a gente podia aproveitar e fazer uma surpresa pro Assis
mais a Vica. Pegando os cavalos agora, arrumando rápido, com menos de duas horas a gente chega lá. Dá tempo de
ainda pegar o serão”.

Meia hora depois, o mundo alumiado pela lua, os dois cavaleiros estavam na estrada. Passava pouco de oito e meia
quando entraram no curral da fazenda.

O fila araçá latiu grosso ao pressentir os tardios visitantes. Casa fechada, ninguém veio abrir. O cachorro latia, a porta
da frente continuava fechada.
– Ô Assim! Ô Vica! – gritaram.
Tornaram a gritar. Nada. Gritaram de novo. Esperaram mais um pouco.
Barulho de gente tirando a tranca da porta. Vicente Baiano aparece com a lamparina na mão.
– Já tavam dormindo? – indaga Tio Joaquim.
– Não, Sô Joaquim. Nóis tava no meio do Crem-Deus-Padre.

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