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Por: Olavo Romano

 

Em agosto de 1987, com artistas de vários naipes, professores e bibliotecárias, passei quinze dias a bordo do “Benjamim Guimarães”, entre Pirapora e Manga, trabalhando com estudantes, educadores e comunidade. Recebidos festivamente em cada cidade, assistíamos a apresentações de dança, música, apreciávamos a culinária local, todos se esmerando para oferecer o que havia de melhor.

O dia era longo, intenso e animado. Gravador na mão, eu começava cedo, terminava altas horas. Espichadas conversas, casos de caboclo d’água, caçada, piracema, renderam extensa matéria para a revista “Globo Rural”, com fotos de Oswaldo Maricato, escalado por meu amigo Humberto Pereira.

Em São Francisco, por exemplo, chegamos à noite, recebidos por um cortejo de barcos iluminados por tochas. No posto telefônico, a moça me contou que Seu Francisco, pai dela, voltaria no dia seguinte.

Sem internet nem celular, soube da morte de Drummond por telefone e espantei-me com minha tristeza. Lembrei-me de generosa carta do Poeta elogiando Casos de Minas. E do telefonema que lhe dei, pedindo autorização para publicar a carta em outro livro, coisa que não cheguei a fazer.

Seu Francisco apareceu de manhã, mostrando foto dele com um surubi de setenta quilos. “Um bicho desses, na água, pode mais do que a gente, não é? Como o senhor explica isso?”. A resposta é serena e firme: “É o poder de Deus. Um homem não derruba um boi, que é muito mais pesado do que ele?” Imaginando que a foto pudesse ser isca para prosa mais comprida, pedi que me levasse de barco ao lugar onde ele costumava pescar. Longe do burburinho, ele falou de linhas, anzóis, a paciência que a pescaria pede, a vida no rio, pra baixo, pra cima, seca e água. Numa certa altura, eu disse:

– O povo fala que já viu cavalo caboclo d’água, cavalo d’água, porco d’água, o senhor acredita nisso?

– Eu acho que tudo tem na terra, Deus botou debaixo d’água. Mas não é bicho que come gente, garanto. Desde menino rodo esse rio pra todo lado, dormindo nas croas, e bicho nenhum nunca me comeu!

De repente, o vapor apitou, era hora de partir. Motor ligado, rumamos para o porto. Na hora de despedir, ele disse: “Foi muito bom conhecer o senhor. Se algum dia voltar por aqui, aparece lá em casa”. Depois de uma pausa, completou: “Se eu não estiver mais aqui, a gente encontra na Glória”.

Policial militar reformado, Arquimedes virou caçador. Critica barranqueiros que oferecem fumo e cachaça para o caboclo d’água não espantar os peixes nem provocar tempestades ou virar o barco. Para ele, o bicho mais arisco é a paca, que “foge até de vaga-lume”. E explica como caçá-la, cevando-a com milho, às vezes cercando o lugar. Aprendeu com um chefe xacriabá da região. Pergunto se ele cobra para ensinar, ele responde que deu um pedaço de fumo e uma garrafa de cachaça. “É a mesma coisa que o barranqueiro faz com o caboclo d’água”, digo. Bravo, ele fala que é completamente diferente, que o chefe xacriabá está lá na venda, qualquer um pode ver, conversar com ele; o caboclo d’água não existe, é uma invenção do barranqueiro ignorante.

Estabelecida a camaradagem, ele me convida, com meu amigo Herculano e o comandante Aniceto para conhecer sua cabana de caça, lugar aonde raramente vai algum estranho. Guiados por Adson, o piloto que nos trouxe de barco à outra margem, esperamos na venda enquanto Arquimedes procura condução numa fazenda vizinha. Em vez do esperado carro – cujo proprietário estava de pileque – veio um caminhão conduzido por um rapaz gordo, de sandálias de dedo, andar desengonçado. Assustado com tanto rastro de bicho no trilheiro, ele acabou nos acompanhando. No trajeto, Arquimedes ia mostrando: “isso aqui é de onça, este é de veada – a fêmea assenta o pé todo no chão –, este é de macho: olha como é que só tem a ponta do casco; aqui o mão-pelada…”

No lugar da ceva, o comandante trepa no jirau entre os galhos de duas árvores à espera da caça e nós seguimos para a cabana, logo adiante, numa clareira recente.

Arquimedes vai lá dentro,pega a maria-chiquinha (um tripé feito com varinhas, de onde sai um gancho, no qual se pendura uma lata para ferver a água), e começa a fazer o café na fogueira que tinha acabado de acender.

O motorista, gordo e medroso, se espanta de a cabana sem porta. Pergunta se não tem onça. “Tem, mas ela não é doida: sabe que aqui dentro mora uma onça também”, bravateia o dono da casa, uma cabana de pau-a-pique, coberta de plástico preto, um só cômodo, que serve de quarto e cozinha. Zabelê pia longe. “Despedindo da tarde”, diz Arquimedes. Piou fêmea. O fogo arde.

Tomamos café. Na tampa de uma garrafa térmica, num copinho de plástico e numa lata de creme de leite. Arquimedes entra na cabana, volta com o pio. Pia fêmea de nhambu. Depois pia macho. Responde fêmea, depois macho. Orgulhoso, ele se gaba: “Faço o que quero com eles, domino a natureza”.

Guarda o pio. Outros cantam, mas ele mas ele tinha emprestado a espingarda ao motorista. O nhambu, pelo canto, está perto, mas Arquimedes já deu seu show, deixa a ave em paz – pelo menos por enquanto. O motorista, meio trapalhão, fala alto, atrapalhando a caçada do comandante, lá no jirau.

Fica tarde e não ouvimos tiro algum. Resolvemos regressar. O comandante diz que o veado chegou pertinho, mas fugiu com o barulho na cabana. Mas ele está gostou de ver os bichos de perto, ficar um bom tempo apreciando a natureza.

De caminhão, seguimos até o porto. De lá, atendendo ao combinado sinal de lanterna, Adson vem nos buscar de barco. Enquanto ele não chega, apreciamos, já meio despedindo, a beleza do “Benjamim Guimarães”, todo iluminado na outra margem do rio.

Herculano lembra do céu estrelado acima das árvores, um Natal brasileiro.

Outra manhã chegando, Vênus ainda no céu. Vendo o rio luminoso ao sol quase nascente, anoto: “O rio de luz fez de mim um novo homem”.

Às seis, zarpamos, o “Benjamim” arrastando uma barca ancorada até romper as amarras.

Na hora do café, o comandante aparece, sempre cordial, mas agora mais informal.

– Então, compadre, como passou? Eu estava te procurando…

– Uai, comandante, eu estava tomando banho – respondi, tratando-o com o cerimonioso respeito de sempre.

Ele, enérgico:

– Que comandante, que nada! Nós não caçamos ontem juntos? Então, agora a gente é compadre!

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