“Deus poupou-me o sentimento do medo…Eu tive sempre um lema: não tenho compromisso com o erro. Se errei, tenho que voltar atrás”
 
A vocação do Brasil é ser uma grande nação. Ao iniciar-se um novo ciclo da vida nacional é mais que oportuno buscar inspiração em quem soube sonhar grande e realizar. Em quem soube construir pontes entre “extremos”: superar com sabedoria as divergências naturais da democracia e criar convergências em torno de propósitos maiores, em benefício do desenvolvimento do país e satisfação do povo. Quem?
 
Juscelino Kubitscheck de Oliveira (1902-1976), médico mineiro e 21º presidente do Brasil. Ele foi a liderança mais notável destacada na obra “Para Entender o Brasil” (Alegro, 2000): 
um painel eclético que reuniu 38 personalidades tais como o poeta Affonso Romano de Santana, o médico Helion Póvoa, o psicanalista Joel Birman e o empresário José Mindlin.
 
JK representa “o período mais importante da história política e econômica do Brasil”. Foi o maior presidente de todos os tempos” afirma Salim Mattar, presidente do Conselho de Administração da Localiza, na apresentação de “JK -50 Anos de Progresso em 5 Anos de Governo”(1), um trabalho monumental de dois volumes, lançado em 2014, com 58 depoimentos. Um deles foi o do administrador de empresas, presidente do Grupo Fiat, Cledorvino Belini:
 
“JK foi um estadista na melhor dimensão do termo, ao conceber um projeto de longo prazo para o país e ao ser capaz de mobilizar sua geração para implementá-lo. Ele vislumbrava um país moderno, industrializado, culturalmente relevante … A socióloga e cientista política Lourdes Sola, em seu livro “Idéias Econômicas, Decisões Políticas”, diz que a estratégia de gestão política de JK é um nítido exemplo do seu estilo conciliador e solucionador de problemas. O Estado, sob seu comando, assumiu um papel de articulador de incentivos e não de monopolizador de decisões … Acrescente-se a coragem. Em momento crucial de sua vida política, em que era preciso ser firme diante do embate que se aproximava, ele disse: ‘Deus poupou-me o sentimento do medo’.A frase mobilizou aliados e bastaria para assegurar-lhe um lugar na história ”.
 
O espírito empreendedor de JK era temperado com uma postura humana singular. Uma espiritualidade genuína, que se harmoniza com os valores cristãos de tolerância apreciados pela tradição brasileira. Ele dizia: “Um governo forte se faz perdoando.
 
O líder inspirador constrói sua grandeza quando é sábio ao se fazer “pequeno”. Uma pesquisa que durou cinco anos e 15.000 horas de trabalho, conduzida por um professor de Stanford, identificou a virtude-chave dos líderes das “empresas feitas para vencer (2)”: “modestos e determinados, humildes e destemidos”. Essa dualidade é poderosa. Ser humilde não é uma fraqueza: é uma força. Sobre isso, “JK – O Artista do Impossível”, obra do jornalista Claudio Bojunga, é reveladora:
 
Era quatro da tarde, de 31 de março de 1964. O presidente João Goulart pediu que Juscelino Kubitschek comparecesse ao seu gabinete. Juscelino abriu o jogo, aconselhando-o a agir com moderação e fazer dois manifestos à nação.
 
Jango relutou: “Eu não posso fazer isso. Se fizer isso dou uma demonstração de medo. E um homem que tem medo não pode governar o país.” JK cortou: “Não é mostrar medo. Eu tive sempre um lema: não tenho compromisso com o erro. Se errei tenho que voltar atrás. Porque se você erra, todo o rebanho vai para o caminho errado.” (pg. 807)
 
O dicionarista Antonio Houaiss, que foi assessor de documentação de JK, descreve seu jeito de atuar :
 
… JK era uma homem aberto, auditivo, receptivo, fino sistematizador. Recebia informações novas e as incorporava de forma permanente, redisciplinando seu espírito. Não tinha preconceitos ideológicos: ouvia adversários e opiniões discordantes, e não se importava com a orientação filosófica ou doutrinária do interlocutor. Aceitava a palavra dos estigmatizados de esquerda ou direita.
 
Ele era infenso a preconceitos, manobras invejosas, baixezas, delações e policialismos. Nunca externou o elitismo dos que se arrogam o direito de pensar melhor só porque estão no poder. O diálogo deveria ser elemento de progresso, não instrumento de afirmação. Tratava com os assessores diretos um diálogo democrático e solto: ficava ouvindo em silêncio posições divergentes dos auxiliares, confiando mais nas objeções do que no louvor direto. (pg. 359):
 
JK não era perfeito, como não foram perfeitos nenhum dos grandes líderes da história. Mas foi um líder inspirador. Legou-nos lições perenes e práticas. Úteis não só para o futuro Presidente do Brasil. São úteis para quaisquer líderes da esfera pública ou privada.
 
Vivemos um momento delicado no País: mescla entusiasmo e esperança com desconfiança e pessimismo. Isto é compreensível. E desafiador. Diante desse quadro, JK é bem atual. Além das lições de coragem e humildade, ele legou-nos um jeito singular de liderar, bem brasileiro e informal: era o presidente bossa-nova. O brilhante dramaturgo Nelson Rodrigues decifrou-o:
 
“Os outros presidentes tem sempre a rigidez de quem ouve o Hino Nacional. Não Juscelino. Ele trouxe a gargalhada para a presidência.” Com seu bom humor, ajudou-nos também a vencer o complexo de vira-lata. Os brasileiros, onde estiverem, na escola, na sociedade, nas organizações, precisam ter autoconfiança e autoestima. Sem isso, não se ergue uma grande nação. Para isso, precisamos de muitos líderes que os inspirem. E JK é um exemplo de líder que inspira líderes.
 
* Por Antonio Carlos A. Telles
 
 
 
 
 
 
 

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