Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Donec nec mauris interdum, suscipit turpis eget, porta velit. Praesent dignissim sollicitudin mauris a accumsan. Integer laoreet metus

Após assistir as apresentações de candidatos no horário eleitoral das últimas eleições brasileiras, respirei fundo, tomei coragem, custei mas, finalmente, decidi. Meu escolhido foi o Guilherme, candidato de primeira linha, mas que nem apareceu na TV, nas redes sociais, rádios ou inundou as ruas com cartazes e santinhos nada bentos. O motivo da minha escolha foi muito simples: com o Guilherme não tem essa história de misturar suco de milho na cerveja e ainda chama-la de “pilsen”. É tudo como deve ser feito, com o uso de bons ingredientes e boas técnicas de produção, garantindo felicidade para a população que gosta de cerveja de qualidade. Infelizmente, estou falando de alguém que nem candidato foi (e nem vivo é). O Guilherme, no caso, é uma livre inspiração em Wilhelm IV, duque da Baviera, Alemanha, aquele que, no longínquo ano de 1516, decretou a Reinheitsgebot, ou, em bom português, a Lei da Pureza da Cerveja. Por essa lei, a cerveja só poderia ter como ingredientes água, malte de cevada e lúpulo (as leveduras ainda não eram conhecidas na época). Mesmo informalmente, essa parte da lei continua a balizar a produção de “brejas” inspiradas nas rigorosas receitas alemãs. As versões da história da Reinheitsgebot são muito interessantes. Uma delas registra que o documento foi promulgado em razão de disputas entre a Igreja Católica e o nascente protestantismo da época, ao qual aderiu o duque. Como a primeira é que autorizava a produção de outras ervas que temperavam as cervejas, Wilhelm IV usou a exigência do uso do lúpulo como pressão econômica e política para acabar com o poder dos católicos. Além servir como base para a futura Escola Alemã de cerveja, o resultado disso foi que houve uma migração de monges bávaros para outras regiões da Europa, principalmente a Bélgica, país em que foram implantados diversos mosteiros dedicados não só à difusão da fé que apregoavam como à produção de cervejas. Fincaram, assim, as bases da atual Escola Belga, considerada, até hoje, a mais diversificada e criativa das escolas cervejeiras mundiais. Bem, e por que associei cerveja com eleições? É que os cervejeiros artesanais brasileiros estão, há anos, numa renhida luta em defesa da sobrevivência do setor. Se elas fecharem, quem gosta de uma boa cerveja poderá ser condenado ao consumo das bebidas comuns à base de milho e arroz fabricadas pela indústria mainstream, ou às importadas, que também ficarão cada vez mais caras, além de não gerarem nenhum benefício social e econômico para o nosso país. A legislação tributária aprovada no Congresso Nacional é trágica para cervejarias como a Bamberg, Colorado, Dado Bier, Falke, Küd, Wäls e outras boas marcas, algumas das responsáveis pela revolução que colocou nosso país em destaque no mapa mundial da qualidade cervejeira. São cerca de 200 pequenos fabricantes, que respondem por pouco mais de 1% do mercado nacional e já ganharam inúmeras medalhas em respeitados concursos cervejeiros ao redor do mundo. Mesmo sofrendo com o poder econômico desproporcional e a concorrência predatória no setor, os pequenos cervejeiros não abrem mão de utilizar insumos de qualidade nos seus produtos, o que aumenta muito o custo de fabricação. No ponto de venda, o preço da cerveja artesanal é, em média, de cinco a dez vezes mais alto que as industriais, sendo que, em outros países, essa diferença é em torno de 40%. A isso se somam alíquotas de impostos de mais de 60%, enquanto gigantes industriais como Ambev, Brasil Kirin (ex- Schin), Heineken e Petrópolis pagam a metade disso. Marcelo Carneiro, dono da Colorado e presidente da Associação Brasileira das Cervejarias Artesanais, que lidera a luta dos pequenos produtores junto ao Congresso Nacional e ao Executivo, explica que “o setor não quer privilégios, mas justiça tributária e as condições necessárias para que os pequenos fabricantes não desapareçam”. Para ele, basta que os cervejeiros artesanais possam ser enquadrados no regime tributário simplificado (Simples) e que as alíquotas de imposto sejam definidas progressivamente, em função do volume produzido, como acontece nos Estados Unidos. Um dos temores dos congressistas é que o incentivo a esse tipo de indústria provoque aumento do consumo de bebidas alcoólicas em nosso país. No entanto, a experiência de países como Inglaterra e Bélgica, mostra que a cerveja foi usada ao longo da história como forma de diminuir o consumo excessivo de álcool. O que vai de encontro ao lema dos cervejeiros artesanais brasileiros, o “beba menos, beba melhor”. Por outro lado, um bom exemplo recente do reconhecimento da importância da cerveja de qualidade vem da Bélgica, que solicitou a inclusão das suas bebidas produzidas na lista do Patrimônio Imaterial da Unesco. A iniciativa partiu da Federação de Produtores daquele país, que pleiteia o reconhecimento da arte da produção da cerveja como parte da cultura local. Por enquanto, esse ainda não é o caso do nosso setor cervejeiro artesanal, que luta, antes de mais nada, pela própria sobrevivência. E os políticos que comprarem essa briga, certamente, terão os votos dos milhões de consumidores de cervejas de qualidade espalhados pelo Brasil.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *