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Olavo Romano

olavoromano@task.com.br

 

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O velho jipe largou o asfalto e pegou a estrada de terra. Tudo correndo normal, com hora e meia entra-vam em Santa Maria. Os dois casais eram estrangei-ros e iam apreciando a paisagem: região montanhosa, terra fraca, campo ralo e cerrado. De vez em quando uma fazenda com capineiras perto da sede, curral novo, barracão quase afogado no capim verde. Aí o gado era melhor, holandês preto e branco ou branco e vermelho. Mas, no geral, eram vacas magras e compridas, orelhas grandes lembrando a origem zebuada já meio perdida.

Passaram por três mulheres de cadeiras balan-çantes, cada qual equilibrando na cabeça um feixe de lenha, apoiado em grossa rodilha. Um bando de anu preto cruzou barulhento na frente do jipe. Um gavião carrapateiro voou para seu ninho. Estava quase anoi-tecendo. 

Avistada de longe, Serra do Cristal parecia um presépio. Lá teriam de abastecer. Daí a pouco estavam subindo a rua comprida que conduzia à Praça da Matriz. Deram várias voltas sem encontrar uma bomba de ga-solina. O menino sentado no passeio informou a casa, na esquina de baixo, onde podiam quebrar o galho. 

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Um meninote magricelo os atendeu, fascinado com o sotaque dos desconhecidos. Foi lá dentro, voltou logo, meio torto de carregar um galão pesado. Enquan-to enchia o tanque, os estrangeiros quiseram saber so-bre o fubá e as coisas que podiam ser preparadas com ele. O rapazinho pediu ajuda ao patrão. Muito calmo, com voz pausada, o homem explicou como é que se fazia angu, farinha, broa comum e de fubá de canjica, sopa, mingau, pamonha…A dona da casa apareceu, convidou as mulheres para sentar, descansar um pou-co, tomar um cafezinho.

– Aqui não tem indústria

– disse uma delas.

– Tem não senhora.

– Comércio também não parece muito forte.

– Comerciozinho de lugar pequeno, pouco movimento. A conta de ir vivendo, apertado.

– No caminho, não vimos nenhuma fazenda grande, e a terra não parece muito boa. 

– É. Terra fraca, nenhum fazendeiro forte.

– Em compensação, não tem mendigo na rua.

-Tem mesmo não. A Conferência quase que só ajuda é o compadre Nicodemos, mesmo assim por questão de doença e bebedeira. No mais, todo mundo é mais ou menos remediado, nem muito rico nem muito pobre.

– A gente viu gente na porta das casas, crian-ças brincando na rua. Todo mundo bem vestido. Rou-pa simples, mas limpa e de bom gosto. Pareciam bem alimentados, saudáveis. Mais importante: tinham um jeito feliz. 

– No comum, tirando alguma doença ou morte na família, que isso não tem jeito de não ter, o povo é feliz. Ou conformado. 

– Mas, afinal, de que é que vocês vivemApanhada de surpresa, ela pensou um minuto antes de responder.

– Ah, dona, acho que a gente vive é da miseri-córdia de Deus.  

(Do livro Casos de Minas, ed. Record, 9ª ed., 2017)

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