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Por: Olavo Romano

 

A novidade chegou com o resultado do laboratório: “schistosoma mansoni (ovo viáveis)”. O médico cumprimentou-me pela sorte de descobrir o verme antes dos estragos no fígado e no baço – cirrose hepática e barriga d’água – e falou que o processo normal de coleta é desconfortável e doloroso. Anotou minha altura e peso e receitou quatro comprimidos de Cistercid. “Tome de uma só vez, numa sexta-feira, porque dá vertigem e náusea ”.

Saí todo feliz, de receita na mão, mas quebrei a cara na primeira farmácia: para minha surpresa, não havia o remédio. A jovem atendente folheou o catálogo e não encontrou nem no estoque, coisa que ela própria estranhou. Passei no concorrente, necas. Pelo telefone, um farmacêutico sentenciou: “Por dinheiro nenhum do mundo o senhor consegue comprar esse medicamento. Só em posto de saúde.” Na farmácia vizinha, o gerente deu um telefonema, disse que arranjava uma caixa com cinquenta comprimidos por quinhentos reais. Agradeci e guardei a opção no bolso do colete.

No feriado de Corpus Christi, lá fui eu para o posto de saúde, com identidade e receita, livro na mão para a espera. Mas não houve espera. A moça do guichê foi logo dizendo que não tinha aquele produto, nem qualquer outro para xistose. Ia pedir na farmácia, não sabia quanto tempo levava nem garantia conseguir. Dei o nome do segundo remédio e a dose, ela falou que não adiantava. “Vou ver na farmácia, quando o senhor voltar fica sabendo”. E aconselhou, na maior naturalidade: “É bom trazer um xerox da receita, aqui some muito papel”.

Sugeri que ela ligasse para a farmácia ou anotasse o pedido, era só pegar quando eu voltasse. “Hoje é feriado, o expediente é curto”. Lembrei que ainda eram onze horas,mas ela foi taxativa: “Aqui não funciona desse jeito, não. Tem de vir mesmo, fazer como eu falei”.

Na segunda-feira, a moça do guichê, que era outra, disse: “Aqui a gente não tem esses produtos, não”. Eu contei minha ida no feriado, resumi as cenas do capítulo anterior, falei que nenhuma farmácia vendia os remédios, que só existiam no SUS. Então, outra funcionária, mais graduada, pegou a receita, disse que ia pedir o remédio. “Mas é Praziquantel de 600, Mansil e Cistercid a gente não tem. Ah, precisa receita e notificação”.

Liguei para a secretária do médico e passei na farmácia vizinha. O gerente falou novamente para o amigo dele e conseguiu uma pechincha: cinquenta comprimidos de Cistercid com cinco por cento de desconto. Achei caro, só precisava de cinco. “Dá pro posto de saúde”, sugeriu.

Saí da farmácia, a secretária do médico ligou: a nova receita estava pronta, mas o doutor não sabia fazer a notificação, precisava ver no posto. Achei ruim, estranhei um médico não conhecer o formulário de notificação de uma doença transmissível, mas não adiantou.

Uma amiga me havia falado do posto atrás da Copasa, muito bem organizado, com ótimo atendimento. Telefonei, a funcionária, solícita e competente, me informou que nenhum médico particular tem acesso ao formulário de notificação. Só no SUS, depois da consulta, marcada no posto da jurisdição, que, no meu caso era o Nossa Senhora Aparecida, no Novo São Lucas. Mas em qualquer posto, ela explicou, precisa fazer o cadastro para ter direito aos medicamentos.

No dia seguinte, depois da ginástica, lá fui eu, meio pelo rumo, pergunta aqui, pergunta ali. De repente, a rua Mica vai ficando íngreme, gente se desviando dos carros, sem lugar seguro para andar.

Situado num prédio amplo na entrada da favela, o posto tem seu acesso por um pequeno portão. Depois de um lance de escada, pessoas subindo e descendo, cheguei a uma salinha onde havia uma funcionária sentada ao computador, três mulheres em um banco encostado à parede, parecendo comadres ou vizinhas em animada prosa. Mas, quando a do computador começou a me cadastrar, a mais próxima de mim pegou os papéis e os passou à outra. Eram colegas de trabalho jogando conversa fora, amontoadas num cubículo destinado a atendimento público.

O formulário era minucioso, cobrindo itens como número de pessoas residentes no endereço, número de cômodos do imóvel, equipamentos de comunicação, além de todos os dados pessoais do cadastrado.

Portador de um novo número para transitar no mundo da burocracia, dirigi-me ao guichê com a identidade, a receita e o número do cadastro que ia inaugurar. A atendente, espevitada e autoritária, foi logo dizendo que aquela receita não valia porque sem peso e altura não havia como calcular a dose do medicamento. Lembrei-lhe que, ao prescrever a dose, o médico já havia levado em conta minha altura e peso. “Ah, mas a gente tem um protocolo, não posso fazer nada”.

Procurei a sala da gerente, de porta democraticamente aberta, junto à qual esperei terminar o atendimento em curso. Então, ela me mandou entrar, ouviu o relato de minha via sacra, naquela altura virando catilinária, disse que eu estava nervoso, falei que estava era cansado daquele labirinto sem fim, cada hora apontando para um lado.

Medido e pesado, passei à moça da notificação, aquele processo que só se realizar no SUS. Não soube dizer o nome do rio onde peguei xistose, estranhei quando ela me perguntou raça e cor. “Somos orientados a registrar o que diz o informante”, esclareceu ela.

Dois dias depois, avisado por telefone que o medicamento estava à minha disposição, esbarrei com a embirrada moça do guichê: “Não tem nenhum remédio em seu nome aqui não. E a farmacêutica ainda não chegou”.

Fui lá dentro e recebi da moça bonita e simpática que havia me pesado dois dias antes o envelope com seis comprimidosde Praziquantel enviados pela Farmácia Distrital Centro-Sul “A/C da Farmacêutica Cecília”.

Sexta-feira eu vou tomar os remédios, torcendo para que os efeitos colaterais sejam suportáveis.

O consolo é que antigamente, lá na roça, era pior: as pessoas tomavam querosene. Fora o trabalhão pra colher o material. Um cliente, indagado pelo médico se havia desistido do tratamento, disse que a questão era outra: “a dificuldade pra acertar a latinha”.

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