Um país que um dia teve um futuro
Um país que um dia teve um futuro
Um país que um dia teve um futuro
Mercado Comum Jornal on line BH Cultura Economia Política e Variedades

Roberto Brant*

Tive a sorte de pertencer a uma geração de brasileiros que tinha muitos motivos para se sentir feliz com o seu país, mas contemplo hoje uma nova geração que tem muitas razões para o desânimo e o cinismo. Para quem nasceu e vive na periferia do mundo desenvolvido a única maneira de estar contente com a vida é a esperança de progresso e de um futuro melhor. Foi esta a experiência vivida pelos que, como eu, cresceram nos anos 50 do século passado. Nós tínhamos um futuro.

Durante os anos 40 e 50 do século XX o Brasil crescia rapidamente, mais do que o resto do mundo, e ao mesmo tempo se urbanizava e se industrializava, dando a todos a impressão de que não haveria limite para o desenvolvimento. Vivíamos cada dia com a convicção, quase a certeza, de que os amanhãs seriam cada dia melhores. Na política quem encarnou este estado de espírito e esta confiança foi Juscelino, desde seus tempos de prefeito revolucionário de Belo Horizonte até a Presidência da República. Os anos JK não são um mito nem uma simplificação histórica, eles existiram de fato mesmo admitindo-se que processos históricos são experiências complexas.

Refletindo sobre Juscelino penso que dois traços de sua personalidade foram decisivos para o papel que ele desempenhou. Um traço era sua fixação no futuro, um olhar sempre fixado no mais longe horizonte, que lhe permitia transpor as armadilhas do presente e o peso do passado, sem vacilações ou dúvidas. O outro, igualmente poderoso e transformador, era a disposição fraterna e pacífica do seu espírito, que não alimentava ódios ou ressentimentos e esfriava a oposição num ambiente da mais ampla liberdade. Na política absorvia todos os golpes, até os mais extremos, e estava sempre pronto para o perdão. Não há exemplo similar em nossa história republicana, em que a regra é o conflito e a retaliação.

Apesar desta lembrança do passado, sei muito bem que a nostalgia não resolve problemas nem muda as coisas na vida real. A história é para a frente que anda, mesmo quando parece retroceder. A principal herança dos anos JK não é certamente o apelo à saudade, mas a insistência em olhar sempre para a frente e para o futuro. Pensando exatamente no futuro, o que se pode dizer da política brasileira neste momento?

Raras vezes o Brasil terá vivido um tempo tão difícil e amargo como o que estamos vivendo hoje. Parecemos condenados à pobreza, mesmo cercados de todas as riquezas. Dados oficiais nos dão conta que cresceu o número de brasileiros vivendo na pobreza absoluta. Quase 30 milhões de pessoas vivem com fome, enquanto somos a terceira potência agrícola do mundo. O centro das grandes cidades, mesmo das mais ricas, está tomado por milhares de pessoas sem teto, vivendo em barracas e da caridade alheia. Mais de 90% dos brasileiros vive em situação econômica precária e sem muitas expectativas para si e para os seus filhos. Tudo isto poderia ser visto com algum conformismo se fôssemos um país pobre, privado de tudo. No entanto, somos um país rico e cheio de todos os recursos.

A política, com seu gosto pela manipulação da realidade, procura confundir a natureza da nossa crise. Ela não é obra do governo de hoje, mas dele e de governos anteriores e, até mais do que deles, das nossas instituições políticas que não funcionam mais em benefício da população e que tornaram o Estado a propriedade privada de grupos políticos e de interesses privados a eles associados. A agenda da política não trata do futuro dos brasileiros.

A democracia brasileira sobrevive hoje, à semelhança do que observou a filósofa Hannah Arendt num outro contexto, graças à silenciosa tolerância e aprovação dos setores indiferentes e desarticulados do povo, tanto quanto das instituições articuladas e visíveis do país. Quando este silêncio se romper veremos que a maioria absoluta da população não se sente representada pelos partidos políticos nem pelo Parlamento. Neste momento nada mais estará em segurança.

Nossos líderes mais influentes e mais populares parecem passageiros indiferentes nesta marcha da insensatez.

*Advogado, ex-deputado federal e ex-ministro da Previdência

Mercado Comum Jornal on line BH Cultura Economia Política e Variedades