Ucrânia é apenas uma peça de peão na disputa pela hegemonia do mundo
Ucrânia é apenas uma peça de peão na disputa pela hegemonia do mundo
Ucrânia é apenas uma peça de peão na disputa pela hegemonia do mundo
Mercado Comum Jornal on line BH Cultura Economia Política e Variedades

Francisco Câmpera*

Putin não é herói nem monstro, e o Ocidente não é o mocinho da história. Os dois lados da guerra

Este não é um conflito local, mas global que pode se descambar a qualquer momento para uma Terceira Guerra Mundial. O que está em jogo é o domínio internacional político, econômico e militar. Apesar de ser incomparavelmente mais poderosa, a Rússia vem perdendo neste primeiro momento a batalha da narrativa, pelo menos no Ocidente.

A arma que ambos usam é poderosa: as Fake News. Há um ditado que a verdade é a primeira vítima de uma guerra, porque a mentira sempre foi instrumento estratégico. A grande novidade atualmente é o celular, permitindo imagens instantâneas e impactantes. Com a tecnologia, a manipulação de imagens e vídeos ficou mais fácil enganar, ainda mais ao misturar realidade com ficção. Exemplos não faltam. A União Europeia não brinca em serviço, proibiu a veiculação nos países do bloco dos meios de comunicação estatais russos “Russia Today” e “Sputnik”, para garantir a divulgação só do lado dela, tirando assim a liberdade das pessoas raciocinarem por conta própria. Estas publicações estão em vários idiomas, inclusive o português.

A rede social “YouTube”, do Google, também vetou esses canais. O pior foi a Meta, empresa que administra o Facebook e Instagram, que liberou discurso de ódio contra militares russos e de seu país aliado, Belarus. Estas empresas americanas, que se apresentam como globais e liberais, provaram que não são confiáveis ao cometerem este crime, criticado até pela ONU – Organização das Nações Unidas. Esta medida revela que estas empresas de tecnologia, corajosas ao defender a liberdade em qualquer parte no mundo, são subservientes aos interesses do governo americano, em prejuízo aos bilhões de usuários da plataforma. Elas se tornaram as armas mais poderosas que os Estados Unidos dispõem atualmente. 

Rússia cancelada

A insensatez não parou por aí! Apesar de as “regras” atuais em relação à guerra, a perseguição aos cidadãos russos, que não têm nada a ver com as decisões do Putin, revelam a ignorância e crueldade do Ocidente ao estimular a russofobia. Os atletas do país foram excluídos de competições de todo tipo, até da Copa de 2022. Apresentações de artistas e do Bolshoi, o melhor grupo de balé do mundo, foram cancelados mundo afora. Até um curso sobre um dos maiores escritores de todos os tempos, Fiódor Dostoiévstky, foi excluído por uma universidade italiana. Num evento sobre o espaço nos Estados Unidos o nome do primeiro homem a ir ao espaço, Yuri Gagarin, foi retirado, ou como se fala hoje em dia: “cancelado”. É absolutamente ridículo e insano. Russos ou descendentes estão sendo xingados nas redes sociais com palavras de mais baixo calão, uma violência e covardia sem precedentes. O Facebook, YouTube e Instagram, que por muito menos bloqueiam contas, apoiam estes ataques porque não estão tomando nenhuma providência. Até a Coca-Cola e MacDonald´s, que entraram no país ainda na era soviética, anunciaram a retirada do país. Neste caso, pelo menos os russos vão se tornar bem mais saudáveis.

Fake News
Fake News

Fake News

Diariamente há notícias sobre a destruição de hospitais e demais áreas civis pelo exército russo, e sempre prevalece a versão da Ucrânia, raramente há o outro lado. O Ministério de Defesa da Rússia afirma que na maioria das vezes são nacionalistas ucranianos que estão atacando alvos civis e sabotando a fuga de da população para acusá-los de crime de guerra. A Rússia divulgou que foram achadas provas sobre um programa de desenvolvimento de armas biológicas proibidas na Ucrânia com o apoio dos Estados Unidos. O Ministério de Defesa russo ainda afirmou que estas provas revelam que a Fundação George Soros e o filho do Presidente dos Estados Unidos, Hunt Biden, também financiavam estas pesquisas. É uma acusação muito grave para ser ignorada pela mídia Ocidental. Numa guerra não se pode acreditar em nenhum dos lados, temos que desconfiar de qualquer notícia que é divulgada e checar a sua veracidade. O que estamos vendo é uma insanidade, qualquer informação divulgada pelo governo ucraniano não é questionada e apresentada como uma verdade absoluta.

Invasões americanas

Antes da explosão da internet, era mais fácil manipular a opinião pública. Quando os Estados Unidos invadiram o Iraque, em 2003, contra o antigo aliado, Saddam Hussein, a guerra foi lastreada numa Fake News de que o ditador teria armas químicas de destruição de massa, mentira que foi descoberta anos depois. Também vieram à tona imagens de torturas praticadas contra iraquianos, com requintes sexuais bizarros e criminosos. A invasão no país ocorreu mesmo com a posição contrária do Conselho de Segurança da ONU. Apesar de tudo isso, não aconteceram protestos como vemos agora.

Assim como no Iraque, mais recentemente os EUA com o apoio dos europeus invadiram a Líbia, Síria, Afeganistão. Destruíram esses países que até hoje não se recuperaram. Pior, viraram uma indústria de atos extremistas e causaram uma das maiores crises de imigração na Europa. Lembram daquela criança síria boiando no Mediterrâneo de uma família refugiada? Também não aconteceram protestos pelo mundo afora diante de tamanha calamidade.

O mais desastroso de todos foi o Afeganistão, depois dos americanos derrubarem o Talebã, o atual presidente dos EUA, Joe Biden, abandonou o país de forma desastrada, deixando-o justamente para o mesmo grupo extremista, que mata e estupra mulheres e meninas, e mantém a população refém da violência. Apesar das atrocidades, a opinião pública ocidental não reagiu como no caso da Ucrânia.

Em março deste ano, 81 pessoas foram executadas no Iêmen acusadas de terrorismo. O governo é apoiado pela Arábia Saudita, EUA e Emirados Árabes Unidos. O conflito já dura sete anos e 380 mil pessoas foram mortas, sendo 10 mil crianças. A ONU considera a crise a mais grave do mundo, com 80% da população passando fome, apesar do país ser produtor de petróleo. Mesmo assim, não é destaque na mídia e não há protestos pelo mundo.

Portanto, bastam estes últimos (péssimos) exemplos para constatar que a chamada “`Pax Americana”, criada após 2ª Guerra Mundial, produziu mais conflitos do que propriamente a paz, que não costumam ser questionados pela opinião pública global.

OTAN x Pacto de Varsóvia
OTAN x Pacto de Varsóvia

OTAN x Pacto de Varsóvia

Quando a Guerra Fria terminou, com o fim da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), em 1991, o Ocidente teve a oportunidade de firmar aliança com a Rússia, mas isto nunca aconteceu. Eles continuaram a ser tratados como inimigos, apesar de a Rússia ter acabado com o Pacto de Varsóvia, formada como resposta à criação da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte).

Os EUA e a Europa criaram a OTAN em 1949 e depois da queda da União Soviética, eles não só a mantiveram, como a expandiram para 14 países vizinhos da Rússia, principalmente aos integrantes da ex-URSS. Não satisfeitos, estimularam grupos separatistas para formarem novas repúblicas dentro do próprio território russo. Imagina a Rússia fazer isto com o Texas, que pertencia ao México?

Há anos, Putin vem reclamando desta expansão e tentando negociar. Ele até mesmo reconheceu as fronteiras da Ucrânia num tratado em 2004. Mas o Ocidente o ignorou completamente e apoiou um golpe contra um governo pró-Rússia em 2014, passando a armar a Ucrânia e perseguir a população de origem russa. Esta postura do Ocidente favorece a política de Putin de rearmar a Rússia e investir em seu arsenal nuclear.

 

Kissinger e Chomsky

Considerado um dos maiores diplomatas americanos, Henry Kissinger, responsável pela aproximação dos EUA com a China nos anos 70 e arquiteto do fim da URSS, vem alertando desde o fim do regime comunista, há 30 anos, que o Ocidente está cometendo um erro grave ao expandir a OTAN às portas da Rússia. Que deveria tratar o país como um novo aliado, não como inimigo como na Guerra Fria. Kissinger deixou claro que a Ucrânia não deveria entrar na OTAN, mas poderia ter a liberdade de ter relações econômicas com quem quiser. “Quando os Estados Unidos comandaram cinco ondas de expansão da OTAN para o leste, até a porta da Rússia, e instalaram armas de ataque estratégicas rompendo uma promessa feita à Rússia, eles pensaram nas consequências de empurrar um grande país contra a parede?”, declarou Kissinger numa recente entrevista, aos 98 anos de idade.

A posição em relação ao papel da OTAN também é duramente criticada pelo filósofo e maior linguista dos Estados Unidos, Noam Chomsky, que diz que a entidade continuou a existir para controlar a energia do mundo. Pela posição independente de Chomsky em relação ao establishment dos EUA, ele é considerado por muitos de ter uma posição política de Esquerda. Porém, não se pode dizer o mesmo de Kissinger, que é uma das referências da Direita conservadora americana. Junto com Kissinger e Chomsky, estão vários pensadores, políticos americanos e europeus, e até mesmo militares.

É o caso do coronel Douglas Mcgregor, da reserva das Forças Armadas americanas, que afirmou em entrevista à Fox News que a Rússia está sendo mais cautelosa do que os EUA foram no Iraque com a população civil. Que o governo da Ucrânia está usando as pessoas escudo humano nas grandes cidades. Que a guerra poderia ser evitada caso Zelensky declarasse neutralidade, o que seria bom para ambos os lados. Que o presidente ucraniano está “adiando o inevitável” por orientação externa. Por fim, Mcgregor afirmou que Zelensky é um fantoche e colocou a população em risco, e que por isso não o considera um herói.

2ª Guerra Mundial
2ª Guerra Mundial

2ª Guerra Mundial

O establishment europeu se envolve há séculos em guerras e disputas para manter o domínio mundial, basta lembrar do período colonial em outros continentes. Hoje eles têm como sócio e líder os EUA, que seguem a mesma linha. Os aliados ocidentais não querem uma Rússia grande e poderosa novamente. O país sempre foi cobiçado pelo seu tamanho, riquezas e posição estratégica. Basta lembrar a invasão de Napoleão Bonaparte contra eles, depois, de Adolf Hitler na Segunda Guerra Mundial. Ambos saíram derrotados. O extenso território ucraniano, aliás, foi vital para a vitória russa sobre ambos.

 

A antiga URSS venceu os nazistas ao custo da morte de cerca de 25 milhões de soviéticos (não há um número preciso). Ironicamente, a Europa hoje é livre e democrática graças ao regime comunista. Hoje se sabe que grandes empresas europeias e americanas financiavam Hitler, com a intenção de destruir a URSS. Quando os aliados entraram na Normandia em 6 de junho 1944, na França, Stálin já tinha praticamente aniquilado as tropas nazistas. A vitória final se tornou menos dura para os aliados na Europa graças ao sacrifício dos soviéticos.

 

Acordos

O fim da União Soviética, em 1991, resultou na separação das 15 repúblicas, algumas delas com poderio nuclear. É o caso da Ucrânia, que fabricava material bélico de ponta, com tecnologia nuclear. É onde está localizada a famosa Usina Chernobyl, que causou a maior explosão nuclear da história. Desde então, a Rússia, Europa e EUA, fizeram acordos de desarmamento, que envolvia a promessa da OTAN não se expandir para os antigos países da URSS. Em 1994, outro acordo estabeleceu que todas as armas nucleares dos antigos países soviéticos ficariam com a Rússia, que em troca assumiria as dívidas deles.

 

Desde então, a Ucrânia passou a se afastar da influência russa e se aproximar da Europa. O problema começa justamente com o “namoro” entre do país com a OTAN. Putin já dissera diversas vezes que o Ocidente enganou a Rússia, porque a organização não parou de associar e armar os vizinhos em suas fronteiras.

Voldimir Zelensky
Voldimir Zelensky

Nazismo

A situação piorou quando Voldimir Zelensky foi eleito presidente da Ucrânia, e irresponsavelmente começou a defender que o seu país tenha as suas próprias armas nucleares. Ele também se juntou a nacionalistas radicais e passou a combater e matar milhares de russos nas regiões onde eles são maioria, como Donbass. Alguns grupos ligados ao governo são declaradamente neonazistas e supremacistas brancos, como o Batalhão Azov. Claro que o governo da Ucrânia não é nazista, até mesmo porque Zelensky é de família judaica. A contradição está justamente aí, um vale tudo onde não importa os princípios, desde que os objetivos sejam atingidos.

O apoio de Zelensky a este batalhão deveria ser motivo de preocupação e condenação. É a primeira vez após o final da Segunda Guerra que um governo na Europa incorpora oficialmente um grupo nazista em suas fileiras sem nenhum questionamento. Assim como Estados Unidos apoiaram a criação do Estado Islâmico (segundo documentos oficiais apresentados por entidades civis americanas), para atacar o governo da Síria e atuar no Iraque, a Ucrânia faz o mesmo para atingir a Rússia. E assim como os americanos perderam o controle do grupo terrorista, o mesmo deve acontecer com o governo ucraniano em relação ao Azov. O pior que esta semente podre do renascimento do nazismo está se espalhando, porque o batalhão está recrutando jovens militantes em todo o mundo.

Esta situação é de uma contradição e de um perigo enorme, tanto quanto a guerra que se trava. Ao fechar os olhos para um batalhão neonazista, a Europa corre o risco desta doença maligna chamada nazismo se espalhar pelo continente novamente. Este caso mostra como a OTAN está disposta a tudo para emparedar Putin.

A OTAN não tem capacidade ou coragem de enfrentar Putin, por isso usa o presidente Zelensky para atender os seus interesses e promover a guerra. Enquanto a Comunidade Europeia poupa a vida de seus associados, a população ucraniana é quem está pagando o preço com a vida. Os homens foram proibidos de sair do país e, mesmo sem experiência nenhuma, são obrigados a servir as forças armadas. A condescendência do Ocidente é tanta que nenhuma palavra foi dita contra o racismo do governo de Zelensky, que proibiu os negros (a maioria estudantes) que moram na Ucrânia, de embarcarem nos trens para deixar o país. Só depois que as imagens circularam pelo mundo que o governo liberou a viagem. Também não foi questionada a decretação por Zelensky da Lei Marcial, exclusão de 11 partidos de oposição (sob alegação que tinham algum contato com o governo russo) e o controle dos meios de comunicação ucranianos, enquanto qualquer ato nesta linha na Rússia é condenado imediatamente.

 

Paz
Paz

Paz

Se Europa de fato quisesse a paz, bastaria conter o expansionismo da OTAN. Se o Presidente dos EUA, Joe Biden, e seus aliados quisessem a paz, não estimularia a guerra, não enviariam armas à Ucrânia. Aliás, isso já vem ocorrendo há muito tempo. Se Zelensky quisesse a paz, bastaria declarar neutralidade militar. Não seria tão difícil e o país estaria salvo de uma invasão. O próprio Putin afirmou que um modelo como a Suíça ou a Suécia de pertencer à Comunidade Europeia sem entrar na OTAN seria aceitável. Portanto, Zelensky poderia evitar esta guerra e salvar a população do seu país. Mas ao contrário, ele estimula o confronto ao desafiar cada vez mais Vladimir Putin e os militares russos. Assim, não restou muitas opções à Rússia, como afirmou o líder da China, Xi Jiping. Os EUA e a OTAN empurraram a Rússia para a guerra. Os chineses, aliás, que vem também sendo emparedados pelos EUA e seus aliados em outras questões que envolvem a Ásia, muito semelhantes a situação dos russos agora.

Aliança perigosa

Diante desse quadro, China e Rússia, se aproximaram e, recentemente, no início de 2022, promoveram exercícios militares em conjunto. Ou seja, o recado foi claro para o Ocidente. Já estava tudo combinado e a China está ao lado da Rússia. Os geniais estrategistas ocidentais conseguiram unir duas potências nucleares e militares. O circo está armado para a terceira guerra mundial e o “palhaço” do circo de horrores é o Zelenky. Como se pode constatar, definitivamente a responsabilidade não é só de Putin, mas de todos os personagens envolvidos.

Crise dos Mísseis

Imagina se a Rússia armasse o Canadá e México e formasse com eles uma aliança militar, certamente os americanos iriam reagir. Aliás, foi o que aconteceu há quase 60 anos, quando a URSS instalou, na Cuba de Fidel Castro, mísseis nucleares apontados para Washington, em represália aos mísseis também apontados para Moscou pela Turquia, separada da Rússia apenas pelo Mar Negro.

A sincronia do destino cruzou com a Ucrânia neste caso também. O líder soviético na época era Nikita Krushchov. Antes de substituir Josef Stálin no cargo máximo da URSS, em 1954, ele foi o carrasco dele na Ucrânia. Krushchov era o chefe do Partido Comunista no país e governava com mão de ferro, levando milhões ucranianos à morte pela fome.

Nesta famosa Crise dos Mísseis em 1962, os EUA tinham um dos maiores estadistas de sua história, John F. Kennedy. Ele e Krushchov tiveram a lucidez ao fazer um acordo para retirar os misseis em Cuba e na Turquia, evitando um conflito nuclear. Coincidência ou não, um ano depois Kennedy foi assassinado, e o líder soviético foi destituído do cargo vitalício, em 1964. Muitos historiadores afirmam que o destino deles foi selado porque escolheram uma solução pacífica. O establishment de ambos os lados desejava a guerra.

Nova Rússia

Putin incomoda o Ocidente porque tirou a Rússia do limbo que se encontrava e a transformou de novo numa potência militar e vinha em plena recuperação econômica, especialmente com a construção de dutos de gás para a Europa, que estava ficando cada vez mais dependente. Portanto, emparedar a Rússia significa também impor preços de gás e petróleo, os quais é respectivamente a maior e a segunda maior produtora do mundo.

Antes de Putin, nos anos 90, a máfia dominava o país no governo de Boris Yeltsin, o primeiro presidente russo pós-URSS. Havia tiroteio entre as gangues em plena luz do dia nas ruas de Moscou. O país estava se esfacelando entre mafiosos russos, ações de extremistas dos ex-países soviéticos, separatistas, e venda clandestina de armas nucleares. A riqueza do país fugia das mãos dos russos. Putin acabou com a festa com mão de ferro, inclusive dos bandidos que pensam duas vezes antes de cometer um crime hediondo.

Xadrez x Pôquer

Ousados, os aliados do Ocidente apostaram alto ao emparedar Putin com o seu novo peão, Zelensky. O presidente ucraniano colocou a vida da população em perigo para atender os interesses dos seus aliados. A Rússia já praticamente aniquilou a infraestrutura militar da Ucrânia. No oitavo dia no que eles chamam de Operação de Desmilitarização, já haviam destruído mais de dois alvos militares e dominaram o espaço aéreo. Centenas de vidas de civis foram perdidas e sabe-se lá quantas mais serão mortas neste jogo imoral e injustificável.

Não precisa ser especialista em estratégia militar para saber que não se coloca na parede uma potência nuclear. A Europa pressionou ao máximo e a resposta de Putin foi imediata ao colocar as forças nucleares em alerta. A pressão que ele recebe da OTAN não é menor do que do seu establishment militar e político. Neste embate, parece que os Estados Unidos estão apostando tudo no blefe de Putin. Mas ao que tudo indica foi um erro de cálculo de Biden. Ele deveria saber que o jogo nacional da Rússia não é Pôquer, mas o Xadrez, onde o jogador não aposta, mas planeja todas as jogadas possíveis. Pelo histórico de Putin, não é difícil concluir que ele não blefa.

De Gaulle

O questionamento das ações da OTAN vem de longe. O líder da França contra Hitler, General Charles de Gaulle, tentou resistir à adesão de seu país à organização. Ele já dizia na década dos anos 1940 que a Europa iria se tornar uma marionete da então nova potência, os EUA, mas acabou cedendo sob o argumento de que era uma forma de conter a URSS e um possível reerguimento militar da Alemanha. Hoje a OTAN administra o seu expansionismo conforme quem ocupa a presidência dos EUA. Na era de Donald Trump, a organização se conteve devido às severas críticas que ela fazia à entidade.

O general De Gaulle estava certo. Antes da decisão pela Guerra, o presidente da França, Emmanuel Macron, e o primeiro-ministro da Alemanha, Olaf Scholz estiveram pessoalmente com Putin e Zelenky, quando negociaram a possibilidade do presidente da Ucrânia desistir de entrar na OTAN. Putin declarou publicamente que a conversa foi positiva, tanto que no dia seguinte as bolsas subiram no mundo inteiro. O problema foi Biden, presidente dos EUA, que simplesmente não aceitou esta negociação, que evitaria a guerra e tantas vidas perdidas.

Hegemonia

Não se trata de demonizar os Estados Unidos, que sem dúvida ainda é o pilar das democracias no mundo, embora vêm se perdendo ao apoiar golpes, ditaduras e se envolver em guerras injustas pela de hegemonia mundial e por outros inconfessáveis interesses. Os bloqueios e sansões que os EUA promovem se comparam a guerras, pois geram também sofrimentos e mortes. É lamentável que a coragem que Biden está demostrando agora é bem diferente da vexaminosa fuga do Afeganistão.

O fato é que está mais do que óbvio que o Estados Unidos está jogando todas as suas cartas para não perder a hegemonia mundial para a China. Para eles, emparedar a Rússia agora significa atingir e diminuir a força chinesa.

A Europa, outrora toda-poderosa, parece estar de joelhos aos pés dos americanos. Além de serem incapazes de promover a paz e a prosperidade entre as nações, os aliados europeus e americanos se mostram inaptos a fazer frente ao desenvolvimento econômico, tecnológico e até social da China, haja visto nunca tantas pessoas deixaram de viver na pobreza. Enquanto Trump tentou atacar a China com acusações de todos os tipos, Biden usa a combalida OTAN para intimidá-la ao tentar enfraquecer o seu poderoso aliado russo. Como se vê, para o establishment americano, não importa se o presidente é democrata ou republicano, não importa nem a defesa da democracia, o jogo é praticamente o mesmo para manter a qualquer preço a hegemonia mundial. Apesar disso, há muitas mentes brilhantes e lúcidas como a Kissinger que nos dá a esperança de os americanos corrijam a sua trajetória.

A Rússia também não fica para trás dos arroubos imperialistas dos Estados Unidos. O país foi a última monarquia absolutista da Europa, onde os privilegiados viviam de forma nababesca, e o povo na miséria e sem liberdade. Depois não mudou muito com o engano do sistema socialista ditatorial implantado por Lênin e Stálin, onde os líderes tinham tudo à disposição e a população quase nada. No sistema autocrata de Putin, apesar dele ter salvado o país da ruína e da ganância do Ocidente, está longe de ser uma referência democrática.

Talvez o Ocidente tenha um passado muito mais devastador do que o da Rússia. Estes conseguiram reunir, embora a um custo de muitas guerras e mortes, mais de 100 etnias ao longo dos séculos, inclusive os povos e a região da Ucrânia. Já Estados Unidos e Europa praticamente dizimaram os povos indígenas da América e escravizaram os negros africanos de uma forma cruel como nunca se viu na história. Agora seria a oportunidade de ambos corrigirem o passado obscuro, promovendo a paz, solidariedade e prosperidade, mas ao contrário, continuam estimulando guerras em busca de domínio, riqueza e poder. A diferença agora é a existência da raça humana está sob ameaça.

Brasil x Nova Ordem Mundial
Brasil x Nova Ordem Mundial

Brasil x Nova Ordem Mundial

Se o mundo não explodir numa guerra nuclear, uma Nova Ordem Mundial será estabelecida. Não tem mais volta ao que era antes, o que restava de confiança entre as nações acabou. China, Rússia, Índia, e demais países emergentes deverão buscar alternativas ao Ocidente para não se tornarem reféns de seus interesses. As sanções extremas contra a Rússia podem comprometer de vez o dólar norte-americano como referência internacional. As empresas de tecnologia americanas nunca mais vão desfrutar da confiança que tinham anteriormente.

O Brasil precisa se resguardar desta disputa suja e insensata para se defender. Os nossos políticos deveriam separar a briga partidária nacional e se entenderem pelo menos no âmbito internacional para não nos tornarmos marionetes das grandes potências, que não têm interesse em nosso crescimento. É uma oportunidade para reafirmarmos a nossa posição histórica pela busca da paz e finalmente partimos para a prosperidade econômica e social.

Eleições ocidentais

Esta guerra se tornou uma oportunidade de ouro para a continuidade no poder dos presidentes Biden, Macron, e do primeiro-ministro inglês, Boris Johnson, que sofrem com a baixa popularidade e temem as próximas eleições. Por isso assistimos um espetáculo diário de declarações com objetivos eleitoreiros. Apesar de serem também responsáveis por esta guerra, o que eles vão fazer daqui adiante vai definir o tamanho de cada um na história. Ainda há tempo! Quem sabe encontremos entre eles estadistas à altura de Kennedy, do inglês Winston Churchill, ou até recentemente da alemã Ângela Merkel.

O que se constata é que o Biden está longe de ser um Kennedy. Ao invés de buscar diálogo, ele viajou à Europa para uma reunião na OTAN num ato de deliberada provocação, propiciando a escalada da violência. Também frequentemente faz discursos cheios de insultos contra Putin, numa linguagem completamente inadequada ao cargo de ocupa. São atitudes quem mostram claramente de que o presidente americano não quer uma solução, mas sim prolongar a guerra.

É uma vergonha para os dirigentes das nações mais ricas e poderosas que, em menos de 80 anos que acabou a Segunda Guerra Mundial (1945), onde morreram dezenas de milhões de pessoas, que permitam um novo conflito que pode selar o fim da raça humana. Será que não aprendemos nada com as atrocidades da última guerra? Com a detonação desnecessária duas bombas nucleares no Japão pelos Estados Unidos, quando a guerra estava no final e praticamente ganha? Não bastou todo este sofrimento e sacrifício que marcaram a geração de nossos bisavôs, avôs e pais? Os EUA e países europeus nunca tiveram tanto bem-estar social e, ao invés de estimular a guerra, deveriam promover a prosperidade no mundo, a vida, e não a morte, a dor e o sofrimento. É surreal que em pleno 2022 estamos discutindo possibilidade de uma guerra nuclear que pode acabar com o mundo.

Cobiça

Nesta altura dos acontecimentos, não interessa quem está certo ou errado, é perda de tempo discutir as razões de cada um. Ambos têm as suas verdades! A guerra, aliás, sempre é a própria anti-razão. Sempre há uma explicação plausível, mas nunca uma justificativa para tantos sofrimentos e mortes. É uma derrota de toda a humanidade.

Não importa quem está certo e ponto final, esta guerra deveria parar imediatamente. Bastaria os envolvidos chegar num acordo como aconteceu com Kennedy e Krushchov. Importante destacar que o atual embate é diferente, não é uma disputa como a anterior entre capitalismo x comunismo. A última coisa que os russos querem é a volta do velho sistema, onde milhões de pessoas foram perseguidas e assassinadas cruelmente.

Mas infelizmente o que impede uma solução pacífica é o mesmo motivo mesquinho de sempre, a velha ganância do ser humano de domínio sobre o próximo. Da cobiça do poder e riqueza. Da vaidade e orgulho de ser melhor do que os outros.

 

Soluções
Soluções

Soluções

Agora é hora de objetivamente buscar soluções pacíficas a todo custo. As potências já deveriam efetivamente estar negociando, é um mínimo que se espera dos líderes. Por enquanto, estamos assistindo uma encenação diária, onde não sabemos quem fala a verdade. O mundo que está em perigo por causa da inabilidade política dos envolvidos. A Terceira Guerra mundial e nuclear bate à nossa porta e poderá ser o fim da humanidade. Será que é tão difícil deles entenderem isso? Será que nós como comunidade internacional temos a noção exata que poderá ser o nosso fim? Melhor seria uma hipotética ameaça extraterrestre, assim quem sabe todos tomariam juízo e se uniriam ao invés de se matarem.

Curioso que, de repente, apareceram centenas de milhões de dólares disponíveis para ajudar a Ucrânia, mas nunca havia dinheiro suficiente para salvar imigrantes que vêm morrendo há anos na travessia do Mar Mediterrâneo, para acabar com a fome de milhares de africanos, ou ajudar as populações devastadas dos países árabes invadidos pelos Estados Unidos e aliados.

Ninguém em sã consciência pode ser a favor de uma guerra. A paz depende de todos, cada um tem que ceder um pouco para chegar numa solução razoável. Goste-se ou não de Putin, ele definitivamente não é o único responsável por esta guerra, que pode desencadear para um desfecho nunca visto antes, como ele próprio diz.

Famílias e amizades entre russos e ucranianos já estão sendo desfeitas. E o mundo está voltando a se dividir como na guerra fria e se polarizando de forma ainda mais violenta do que vem acontecendo nos últimos anos. A maioria perde com guerra, com as exceções de sempre. Há até teorias que grandes corporações e nações estão se aproveitando para formar um novo sistema financeiro mundial, o que não é ilógico. Muitas vezes são interesses inimagináveis que até é difícil de acreditar ou jamais vamos saber.

Negócios da família Biden
Negócios da família Biden

Negócios da família Biden

Um desses interesses é o caso do envolvimento da família do Presidente Joe Biden com negócios na Ucrânia. O New York Times admitiu em março de 2021 que os e-mails apresentados na campanha presidencial americana, há um ano e 5 meses, eram autênticos. Na época, outro jornal, o New York Post, mostrou que Hunter, o filho de Biden, trabalhava como lobista para uma empresa de gás ucraniana. O Post foi acusado pela mídia em geral de fazer campanha para Donald Trump e divulgar “desinformação russa”. A notícia sobre o caso, que poderia ter mudado o resultado das eleições, chegou a ser excluída do Facebook e Twitter. Depois o próprio Trump foi banido das plataformas. Espera-se que agora a mídia e o Congresso dos EUA exijam explicações do presidente Biden. Afinal, trata-se de nação democrática que apoia uma guerra onde milhares de pessoas inocentes estão morrendo injustamente.

Como se observa, o contexto que envolve o conflito é amplo e obscuro. O fato é que a guerra é o pior caminho, que traz sofrimentos horríveis e perdas irreparáveis, tragédia que deve ser evitada ao máximo. A população inocente é quem paga o preço com a vida pelas decisões equivocadas dos poderosos. Os líderes mundiais sempre decidem o nosso destino à nossa revelia, sempre fomos meras peças neste milenar tabuleiro pela disputa pelo poder.

Esperança

Nós temos que ter a consciência que agora temos uma arma poderosa ao nosso alcance e devemos usá-la de forma inteligente e eficaz. Temos pelo menos uma chance de influenciar o rumo dos acontecimentos, ao nos manifestar pela internet e pressionar as autoridades incansavelmente. Não podemos perder a esperança e cruzar os braços, deixar que os poderosos nos manipulem com tantas mentiras e que destruam o planeta. Não precisamos escolher um lado, mas nunca desistir da paz, do entendimento entre as pessoas e as nações.

Temos a opção de utilizar as redes sociais positivamente, ao não divulgar Fake News, não estimular a discórdia, a divisão, e não julgar e fazer acusações a esmo. Vamos propagar a solidariedade e a mais poderosa de todas as armas, que é o amor. Não é um discurso religioso nem proselitismo. Com amor não há espaço para o ódio e a violência, que são as molas mestras das guerras e dos males da nossa sociedade. Assim, conseguiremos fazer a diferença e ter a esperança de transformar o mundo num lugar melhor para se viver, e deixar um legado para as futuras gerações que não seja destruição e morte.

Artigo publicado originalmente no site Poder 360 em 7 de março de 2022 e atualizado no dia 24 de março para a revista MercadoComum

*Jornalista com especialidade em Relações Internacionais pela UnB – Universidade de Brasília e extensão em Política e Economia Internacional pela SNU, Coreia do Sul. Morou em Moscou nos anos 1990 e atualmente é diretor-presidente da TV Escola.

Mercado Comum Jornal on line BH Cultura Economia Política e Variedades