Quando não pode haver dois lados
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Roberto Brant*

Na luta para alcançar o poder os políticos costumam deixar de fora as questões morais e os princípios que dão o fundamento da civilização humana. A competição política entre indivíduos ou nações está sempre expondo os piores instintos dos homens. É um espetáculo apenas para quem perdeu toda a sensibilidade. Tudo isto acontece de forma ampliada quando a política se transforma em guerra, que é a sua forma extrema e sem disfarces.

Até quando a Rússia iniciou a invasão da Ucrânia, minhas preocupações estavam voltadas inteiramente para a futilidade e o vazio do debate público no Brasil, além da pobreza das opções eleitorais que se anunciam. O Brasil parece perseverar no triste destino de ser no mundo o único país que é pobre apesar de rico, ou mais claramente, um país que tem tudo, mas sua população não tem nada. Vivendo no Brasil e tendo um mínimo de compaixão e de sentimento é impossível não sentir tristeza e indignação.

Após a agressão, injusta e desigual, de um dos três maiores exércitos do mundo a um país muito menor, praticamente desarmado e ainda procurando se construir, num tipo de guerra de conquista territorial que todos pensavam havia sido sepultado junto com os restos de Hitler e de Stalin, não há como não multiplicar a nossa dor e mudar o nosso olhar. O cenário de destruição de casas, ruas, estradas, o incêndio das cidades, a fuga de dois milhões de mulheres, crianças e idosos, deixando para trás toda a sua vida e mais a morte de civis inocentes, tudo isto pela vontade de um tirano, é demais para caber no coração de uma pessoa, mesmo longe do palco das atrocidades.

Ninguém pode estar alheio ao que se passa na Ucrânia, principalmente nenhum ser humano digno desta condição pode deixar de estar ao lado dos ucranianos que estão sendo mortos, feridos ou desterrados. Não há ideologia, conveniência material ou razão política que possa justificar qualquer outra posição, seja de apoio ou de neutralidade. Temos o dever de ser tolerantes com quem afirma ideias políticas diferentes, mas como seres dotados de consciência não podemos tolerar a condescendência com a morte e o sofrimento humanos.

Populações de todo o mundo levantaram-se em solidariedade aos ucranianos, pressionando seus Estados a reagir de forma inédita à agressão militar. As sanções já impostas têm o poder de aniquilar a economia russa e o modo de vida da sua população. São uma reação proporcional e mais prudente do que o enfrentamento militar, diante da incerteza sobre as condições mentais do líder russo e do alcance de suas fantasias. O esfacelamento da economia pode levar a Rússia a promover mudanças políticas que tornem o país menos perigoso para a humanidade.

O que acrescenta mais amargura ao nosso espírito é o papel do Brasil nisto tudo. Estamos vivendo como se nada estivesse acontecendo. Uma pesquisa indica que mais da metade dos brasileiros prefere que o país se mantenha neutro, numa demonstração de que estamos perdendo a distinção entre o bem e o mal e a empatia com o sofrimento dos outros.

A política oficial do Governo é de condescendência e tolerância. Apesar de votar pela condenação na ONU, criticou os termos da deliberação e tem afirmado que as sanções deveriam ser previamente aprovadas pela ONU, como se o direito de veto da Rússia o permitisse. Condena o apoio militar à resistência da Ucrânia, o que é pedir que o país se renda sem condições. Por fim, mostra preocupação com a possível desestabilização do governo russo em razão das sanções econômicas, como se esta não fosse a única solução possível para o conflito.

Na outra trincheira, as esquerdas históricas e seu candidato vitalício preferem condenar os Estados Unidos e a Europa pela origem do conflito, por supostamente ameaçarem a segurança da Rússia, a grande Rússia de Putin, democrática e socialista, modelo para a prosperidade e a justiça para os povos da terra. Até para os termos da política é cinismo demais.

Se, além de pobres, estivermos também perdendo o senso moral, estamos chegando perto do fim de nossa História.

*Advogado, ex-deputado federal. Ex-Ministro da Previdência

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