Por parte de pai
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Olavo Romano* – (olavoromano@task.com.br)

No Tombadouro, Chico Theobaldo vivia numa simplicidade rústica. Viúvo, casou-se com a cunhada, que ajudou na criação dos filhos, quatro meninos, quatro meninas, todos com nomes começados por A. Quando ficaram moças, ele prometeu ao cunhado Mariano, chamado Maia, dar-lhe uma delas como esposa.

Solteirão, passado dos cinquenta, Maia era feio, mal cuidado, caladão e sistemático. Morava sozinho, não usava tomar banho. Fedia. Mesmo de corpo lavado para a ocasião, não fez grande vantagem: em vez do costumeiro bodum, exalava cheiro de sabão preto feito em casa.

Postas lado a lado, as três primeiras refugaram. Ambrosina, Nhazinha, a caçula de 12 anos, imolou-se para fazer gosto ao pai, cumprir sua palavra. Mas foi logo avisando: “Vou zelar do senhor, respeitar como tio”. Quanto ao enxoval, foi clara: “Quero tudo preto”.

Numa época em que as moças ficavam analfabetas para não escapar ao controle dos pais, ela aprendera a ler escondido, filando as aulas do mestre-escola para os irmãos. Escrevia com espinho de laranjeira em folha de bananeira, picava e jogava fora para não deixar sinal. Mesmo com grafia tosca, letras faltando, era uma luz no atraso do lugar.

No batizado de uma sobrinha, estremeceu só de ver o belo padre italiano recém-chegado ao arraial. Era janeiro de 1900, ela estava com 18 anos, Aniello, com 32. Paixão fulminante, o amor venceu, Ambrosina praticamente analfabeta, ele não entendendo ainda o português. Altas horas, um portador com cavalo arreado levou a moça para o padre. Ficaram quinze dias trancados, esperando a reação dos Theobaldos, com fama de brabeza e ignorância.

O povo do lugar acolheu com naturalidade a mulher do padre, 14 anos mais nova. Até arrumaram casa para eles. Tiveram quatro filhos: Carmélia, Aída, Umberto, falecido em tenra idade, e Demosthenes, meu pai. Ambrosina assistia à missa com as duas meninas, em espaço atapetado, com genuflexório de veludo vermelho.

Mas, como diz o povo, o que é bom, dura pouco. Em outubro de 1906, Aniello voltou ao solar da família em Catona di Ascea, província de Salerno, 500 anos abrigando gerações de Romanos. Demosthenes tinha menos de um ano. O sacerdote teria contrariado interesses de poderosos locais e, acusado de roubar um cálice da igreja, teria sido obrigado a deixar a paróquia, o pequeno arraial e a família, que prometera levar para a Itália. Há quem diga que, embora se amassem apaixonadamente, acabaram se perdendo nos labirintos do ciúme e da desconfiança. De volta à aldeia natal, Aniello retomou o sacerdócio. Teve vida despojada e discreta. Taciturno, nada dizia de sua experiência no Brasil. Demonstrava tristeza e morreu aos 51 anos, celebrando missa na mesma igrejinha onde fora ordenado.

Mariano, simulando uma dívida, entregou a um vizinho a melhor parte da herança de Nhazinha: uma área de cultura, mata com madeira de lei, perto da Lagoa Grande. Sem que ninguém saiba o motivo, o lugar ainda é conhecido como “o pasto do Mariano”. Ela descobriu a trapaça, o advogado tentou anular o casamento, argumentando sua menoridade. Nhazinha madrugou, bateu léguas a pé, para descobrir que haviam antecipado o julgamento, perdendo ela sua gleba mais valiosa. Revoltada, desacatou o juiz, quase foi parar no xilindró.

Banqueteira de mão cheia, criou os filhos organizando festas e casamentos nas grandes fazendas da região. Com trabalho e tino, juntou dinheiro, vendeu as poucas joias de família e pagou adiantado o curso normal de Carmélia, a primogênita, a quem incumbiu de encaminhar os irmãos. Morreu com 54 anos, vítima de colapso cardíaco, resultante de convulsões epiléticas. Tida como doida, falava o que lhe vinha à boca. Ao avistar o fazendeiro que ajudara Mariano a surripiar-lhe as terras gritava a toda altura : “Lá vem o barão de terra, que há de morrer comido pelos bichos do campo”. Atacado por um enxame de abelhas que lhe invadiu a casa, morreu sem tempo de ser socorrido.

Professora formada, Carmélia se casou com Benevides. Dentista, viúvo, pai de um menino ainda pequeno, era uma das poucas pessoas a quem meu pai tratava com senhoria. Praticando com o cunhado, Demosthenes começou a trabalhar aos 17 anos, formando-se em Ubá anos depois. Apesar da diferença de idade, tornou-se amigo de Olímpio Machado da Silveira, um dos homens mais ricos da região. Mas, quando resolveu casar-se com a neta dele, Waldete, 12 anos mais nova, os pais foram contra. “Diziam que ele não tinha tronco”, justificou meu avô.

“Somos uma família nova, temos que dar exemplo”, dizia e repetia meu pai. O mantra carregava segredos de uma história proibida. E utopias que Waldete se incumbiria de sustentar com trabalho, bravura e fé. Quando ela se referiu aos quinze filhos formados, Cláudio, que recusara uma mula de primeiro repasso, arreata nova, para fazer ao menos o ginásio agrícola, perguntou se Mamãe tinha virado mentirosa depois de velha. “Ah, você é formado na Escola da Vida, a melhor de todas”.

*Escritor, membro da Academia Mineira de Letras

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