Por parte da mãe
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Olavo Romano* – (olavoromano@task.com.br)

Zulmira, minha avó materna, Dinha para nós, se orgulhava das cinco tábuas aplicadas. Meu avô, o mais recente recusado, entrou na repescagem para evitar que Avelina se casasse antes, fazendo pinguela sobre a irmã mais velha.

Dinha vivia ocupada. Café com quitanda para os retireiros, dia amanhecendo; apalpação de galinhas, soltando logo as que não iam botar. Fazer queijo respeitava apenas a Sexta-Feira da Paixão. Num tempo em que só se comprava sal e querosene, o algodão, descaroçado, virava carda, fio, meada, pano. Dava gosto ver minha avó fiandeira. Pai Límpio, meu bisavô, só usava roupa “feita cá”. Quando via a filha indo com a família para a festa no arraial, fazia velada censura, puxando o “erre”: “Cês tão numa rrriqueza danada!”. Interrompido o tum tum do monjolo, o arroz era peneirado, casca voando no terreiro colorido de passarinho. Aguar a horta de couve, plantar mudas, arrancar mato era diversão quase diária, enquanto apreciava as contínuas novidades da natureza. Cuidar do jardim, tirar formiga, ver o brotar das flores era singelo e bom contentamento, mesmo de semblante sempre sério. Matar porco, fazer biscoito, quebrava a rotina, aumentava o movimento. Cozinha cheia, cada um se servia nas panelas no rabo do fogão, e sentava para comer, prato na mão. Comida de sal era farta e franca; sobremesa, regrada. Ela dava as muitas opções, a pessoa escolhia uma: leite com angu ou mandioca, banana com queijo, rapadura, doce de leite, goiabada etc. Um novato, sem saber dos costumes, respondeu: “Vou experimentar essa goiabada com queijo primeiro”. Com boiadeiro vindo de longe, o serão rendia esticadas novidades. Gato, cachorro e passarinho pediam cuidados constantes. E o dia terminava com o terço puxado por tia Zoé, Vovô cochilando apoiado no baú.

Uma vez, tomei coragem e entreguei a minha avó um embrulho com duas bananas emendadas: “Paga meu filipe!”. Ela cumpriu a regra e me deu uma moeda tirada do dinheirinho dos ovos.

Mais tarde, ao visitá-la, eu levava um pacote de balas, um de cigarros e uma lata de biscoito, que durava uma eternidade.

Meu tio trouxe de São Paulo uma planta e uma história: era Ave do Paraíso, de flor branca e cheirosa, garantira o cego que vendia mudas na rua. Ela olhou, deu de ombros e falou com pouco caso: “Ah, é imbiri, tem demais nesses brejos por aí.”. Tio Zinho reclamava a falta de um beijo, um abraço ao menos. Imaginei a infância severa dela, a carência de afagos em sua própria vida, lembrei-me da dedicação às plantas, flores e animais. Relembrei a implacável caça às formigas, revi o paciente cuidado para oferecer a mais gostosa marmelada de nossas vidas. Quis agradecer, dizer que lhe devíamos um troco. Mas ela já se fora.

Zé Nemésio, meu avô, era José Viana Barros. Nemésio era o pai dele, viúvo com filhas mais velhas do que Sebastiana, a esposa-menina de 14 anos. Conheci-a morando com Tia Maria, em Oliveira, onde parte da família se reunia no domingo após a missa das oito. Vovó Sebastiana, com suave presença, abençoava a todos. Cheirosa após o banho, eu costumava cortar-lhe as unhas do pé. Depois do enterro de Tio Américo, primogênito da geração, Vovô sentenciou: “O cacho de banana começou despencar”.

Experiente na execução de variadas tarefas, ele se dizia um homem prático e se gabava da habilidade no trabalho com madeira.

Um dia, querendo puxar assunto, perguntei se era verdadeiro o ditado “neblina na serra, chuva na terra; neblina baixa, sol que racha”. A resposta foi seca: “Tempo de chuva, todo sinal é de chuva”.

Não acreditava no amor entre marido e mulher. “Casa, depois acostuma”. Dava para notar.

Li para ele trechos de Mário Palmério. Ouviu com atenção e atestou: “Este entende do assunto”.

Respeitado como homem sério e isento, exemplar na lida e na vida, participou de muita partilha de terra como louvado. Ele voltava para casa cheio de histórias, feliz com o merecido reconhecimento.

A inimizade dele com meu pai não impediu que a Serra fosse o paraíso de nossa infância. Grávida 20 vezes em 28 anos, praticamente uma vez por ano Mamãe cumpria o ritual de apresentar aos pais o neném mais novo. Ia a cavalo, a criança mais nova no travesseiro amarrado à cabeça do arreio, um maiorzinho na garupa, de companhia. Vovô, pouco ligado aos netos menores, foi seduzido pela pequena Rogéria, um ano e meio, no curto período passado na fazenda enquanto Mamãe cuidava da caçula, acometida de grave infecção renal. Mas foi Rogéria quem faleceu pouco depois, vítima de violenta desidratação.

Com um tinir de esporas no soalho, Vovô brota aos gritos diante do caixãozinho branco. “Ah, meu Deus do céu, o que essa menina foi fazer lá em casa? Eu nem conhecia ela, não sabia nada dela. E me pega pela mão, me acompanha pro chiqueiro pra tratar dos porcos. Pergunta tudo, especula sem parar, vovô isso, vovô aquilo. Por que uma coisa dessas foi acontecer?”. E chorou, chorou muito, sem nenhum acanhamento. Depois se enfurnou casa adentro, um ambiente que nem conhecia. Encontrou a filha chorando, o genro, sempre tão impetuoso, acabado em dor e lágrimas. Sentou na cama, choraram juntos. Poucos dias depois, Dinha, que também não ia lá em casa, apareceu para uma visita.

*Escritor, membro da Academia Mineira de Letras

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