O que temos a aprender com o país mais inovador do mundo?
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Ricardo Amorim*

Imagine um país com uma área de 1/6 a do estado de São Paulo e uma população menor do que a da cidade de São Paulo. O Fórum Econômico Mundial apontou este país como o mais inovador do mundo… pela 11ª vez. Some a isso, 28 ganhadores do Prêmio Nobel, mais do que qualquer outro país do mundo proporcionalmente ao tamanho da população. Estou falando da Suíça.

Recentemente, pude visitá-la, a convite do Turismo na Suíça. Lá, interagi com seu ecossistema de inovação com uma pergunta na cabeça: o que torna a Suíça o país mais inovador do mundo? A resposta curta é que a Suíça tem condições únicas para atrair e desenvolver os melhores cérebros do mundo, mas como ela consegue fazer isso?

Para começo de conversa, ela é a porta de entrada perfeita para testar e desenvolver produtos para o maior mercado de consumo global: a Europa. Com quatro idiomas e culturas distintas em seu pequeno território, ela é um campo de provas perfeito para produtos e serviços. Quem têm sucesso lá está pronto para ter sucesso em toda a Europa e no resto do mundo.

Além disso, a Suíça tem previsibilidade jurídica, estabilidade econômica e reguladores com a missão de fomentar negócios e o desenvolvimento, não de fiscalizar empresas para puni-las.

Como a Suíça criou este ambiente econômico? Uma confluência de fatores. Sua neutralidade ajudou a elevá-la a um dos principais centros financeiros globais. Valorização de pluralidade de pensamento ajudou a construir instituições de ensino e pesquisa de primeira, atraindo líderes científicos do calibre de Albert Einstein. No campo das ciências humanas, vieram de lá a psicologia analítica de Carl Gustav Jung, a Reforma Protestante de Calvino e Lutero e a filosofia iluminista de Jean-Jacques Rousseau, por exemplo. Com tudo isso, a Suíça também dá a luz a inovações mais corriqueiras, como os melhores relógios e chocolates do mundo.

Apesar da importância inegável dos fatores anteriores, se eu tivesse que escolher um único pilar fundamental para explicar o sucesso da inovação na Suíça, eu ficaria com o sistema de voto participativo. Indiretamente, ele criou as condições para a população suíça entender o valor de uma cultura de inovação forte no país. Os suíços sabem que só inovações garantem a melhoria da qualidade de vida e a elevação da riqueza das pessoas de forma sustentada. Não há desenvolvimento que se sustente sem um sistema que estimule continuamente a inovação.

Na Suíça, questões fundamentais são votadas diretamente pelos eleitores, não por seus representantes. Com esta responsabilidade, os suíços desenvolveram uma compreensão de como a economia realmente funciona e uma qualidade de tomada de decisões que não existe em nenhum outro país. Toda proposta de um novo gasto público vem acompanhada de uma especificação de onde virá o aumento de impostos para bancá-la. Na Suíça, as pessoas sabem que dinheiro público não brota em árvores. Recentemente, os suíços rejeitaram um projeto que aumentaria suas férias em uma semana e outro que reduziria a sua carga horária diária de trabalho em duas horas. Por que? Porque sabem que uma redução da carga de trabalho aumentaria os custos de produção no país, reduzindo sua competitividade, o que acabaria diminuindo o número de empregos e os salários. Com este grau de maturidade, decisões que criaram um ecossistema de inovação que é líder global tornaram-se consequências naturais. E o sucesso do país em inovar explica porque ele tem uma renda per capita oito vezes maior do que a brasileira, a maior do mundo com exceção de Luxemburgo, que tem menos de 600 mil habitantes.

Tive a oportunidade de ver, na prática e in loco, os resultados de tudo isso a convite do Switzerland Global Enterprise. Visitei, por exemplo, o centro de pesquisa do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETH), onde Einstein deu aulas e desenvolveu suas mais importantes pesquisas. Lá, encontrei gente de todo o mundo desenvolvendo, apoiando e financiando projetos que vão da regeneração do sistema nervoso central ferido a robôs voadores avançados e a replicação da percepção visual de seres humanos em robôs. Vi ainda projetos de robótica autônoma para substituir pessoas em trabalhos perigosos ou repetitivos em funções de segurança e monitoramento, como os da Ascento Robotics, desenvolvido no próprio ETH e os da ANYbotics, que já tem até clientes de peso no Brasil. Provei também um “peito de frango” produzido apenas com ingredientes vegetais pela Planted. Pelo gosto e consistência, ninguém diria que não é frango.

Voltei ao Brasil com três convicções fortes:

– As mudanças na nossa forma de viver, trabalhar e consumir serão muito maiores e vão acontecer muito rapidamente do que a maioria imagina. Se você acha que a vida mudou muito durante a pandemia, espere para ver as mudanças dos próximos anos;

–  No Brasil, cada um de nós, cada empresa e o país como um todo precisam estar prontos para estas transformações o mais rapidamente possível. As consequências de ficar de fora delas serão dramáticas e as oportunidades que elas trarão para quem participar delas serão fantásticas;

– Uma maior conexão com o ecossistema suíço de inovação pode ser um ótimo caminho para acelerar a inovação para nós brasileiros, nossas empresas e nosso país.

*Autor do bestseller Depois da Tempestade, o economista mais influente do Brasil segundo a revista Forbes, o brasileiro mais influente no LinkedIn, único brasileiro entre os melhores palestrantes mundiais do Speakers Corner, ganhador do prêmio Os + Admirados da Imprensa de Economia, Negócios e Finanças, presidente da Ricam Consultoria e cofundador da Smartrips.co e da AAA Plataforma de Inovação.

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