O Brasil está dando certo?
O Brasil está dando certo?
O Brasil está dando certo?
Mercado Comum Publicação Nacional de Economia, Finanças e Negócios
Mercado Comum Publicação Nacional de Economia, Finanças e Negócios
Claudio de Moura Castro

Claudio de Moura Castro

A resposta a esta pergunta vem ao gosto do freguês. Escolhendo os dados (mesmo verdadeiros), chega-se a qualquer conclusão. E muito depende de com quem nos comparamos e do intervalo de tempo considerado.

Ancoradas nos desastres da última década, estamos soterrados por críticas pessimistas e verazes. Mas contrastemos os resmungos com o que fizemos ao longo de um século e tanto. Na verdade, esse é um melhor intervalo de tempo para avaliar um país.

Dada a sua proximidade cultural e histórica, faz sentido nos compararmos com a América Latina. E lá pelo fim do século XIX éramos um dos países mais atrasados do continente. Poucos eram mais pobres. Horrorizávamos os visitantes ilustres, a começar com os comentários cáusticos de Darwin, ao passar por aqui.

Estamos hoje dentre os três ou quatro mais bem-sucedidos. No mundo, apenas o Chile e os países ricos têm menor proporção de gente abaixo da linha da pobreza. E ademais, nenhuma nação que era mais pobre do que o Brasil passou à nossa frente (China não conta, pois, ao fim do século XIX, vivia a sua mais grave crise e desintegração). Segundo os números, entre 1880 e 1980, nem um só país cresceu mais do que o Brasil.

Para acender o primeiro alto forno, nas Minas Gerais, foi preciso trazer carvoeiros da Toscana, pois nem a feitura desse produto banal dominávamos. Apenas por volta de 1900 conseguimos fazer cerveja – criada na Europa, há cinco milênios. Matarazzo ficou rico, pois não sabíamos fazer banha de porco. Nas ricas fazendas do vale do Paraíba, a manteiga consumida vinha da Dinamarca.

Tivemos uma vigorosa Revolução Industrial. E na contramão das afirmativas peremptórias de que “nossa indústria acabou”, continuamos a ser um país altamente industrializado, com uma produção diversificada e, em alguns casos, competitiva mundialmente.

Na década de setenta, importávamos um terço dos alimentos consumidos. Hoje somos o segundo maior exportador.

Os indicadores sociais eram catastróficos. Na entrada do século XX, a esperança de vida no Rio de Janeiro era inferior a trinta anos. Hoje caminhamos para os oitenta.

Nossa educação sempre foi fraquinha e assim continua. Éramos uma colônia portuguesa, um dos países europeus mais atrasados em educação. No século XVIII, Comenius escreveu o livro que mais iluminou a arte de ensinar. Foi traduzido para todas as línguas e dialetos da Europa, além do árabe, russo e mongol. Não se registrou, na época, uma tradução para o português.

Por volta de 1900, tínhamos da ordem de 90% de analfabetos, enquanto Argentina e Uruguai exibiam programas de alfabetização enérgicos e ambiciosos.

Depois da Segunda Guerra, as realizações no ensino foram expressivas. Praticamente, universalizamos a frequência à escola. E surpresa! No Pisa, o Brasil já empatou com a Argentina, que havia sido um dos países mais ricos do mundo.

Hoje, dentre as nossas instituições de ensino superior, muitas têm mais alunos do que tinha o total do Brasil, na metade do século XX.

O avanço da pesquisa e da pós-graduação foi nada menos do que espetacular. Por volta de 1950, não tínhamos publicações internacionais em periódicos prestigiosos. E até bem mais tarde, nada de pós-graduação.

Temos hoje milhares de programas de mestrado e doutorado – de respeitável qualidade. E não há mais do que 12 países com produção científica (em periódicos sérios) superior à nossa.

Na tecnologia, há alguns êxitos incontrovertidos. Ao visitar o país, perguntaram a Borlaug o que havia acontecido com a Revolução Verde (que lhe valeu um prêmio Nobel). Sua resposta: mudou-se para o Brasil. E essa transformação tem a pegada da Embrapa. Atingimos também padrão mundial em aeroespacial, exploração de petróleo em águas profundas, medicina tropical e outros campos. 

Dependendo dos humores do momento, do colorido político e do nível de conhecimento, como diria A. F. Schmidt, olhamos a linha do horizonte, ou o beco. Diante do pessimismo presente, tento mostrar que a trajetória de longo prazo nos é muito lisonjeira.

Naturalmente, esse bom desempenho não justifica qualquer complacência. É preciso lutar diuturnamente para melhorar e para consertar os erros. Porém, raiva incontida e visões equivocadas não levam à sociedade que desejamos.

No século XVII, guerras religiosas dilaceraram a Europa. Os Estados Unidos tiveram a guerra civil mais sangrenta da história da humanidade. Trinta milhões morreram de fome na China de Mao. Outros tantos russos na Segunda Guerra. A Polônia não sabe qual vizinho vai invadi-la. A Venezuela derreteu. A Argentina patina, há meio século. Diante destas crises muito mais avassaladoras, por todos os lados, o que são os dez ou quinze anos mal vividos pelo Brasil?

Os tropeços são inevitáveis. Mas pouco adianta choramingar oportunidades perdidas. Nossos ânimos e disposições andam mais chamuscados do que o próprio país. Lembremo-nos, o Brasil ainda é um país em construção. Elas por elas, avançamos muito e há poucas nações com cenários de longo prazo mais favoráveis.

*Economista, autor de quase 40 livros e monografias e cerca de 300 artigos científicos, é articulista da revista Veja. Texto publicado na edição 289 de maio de MercadoComum – Publicação Nacional de Economia, Finanças e Negócios.

Mercado Comum Publicação Nacional de Economia, Finanças e Negócios
Mercado Comum Publicação Nacional de Economia, Finanças e Negócios