Minas e o Brasil perdem João Camilo Penna
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Faleceu, no dia 23 de abril último, o ex-ministro e engenheiro João Camilo Penna, aos 95 anos de idade.

Nascido em 1926 em Corinto, MG, João Camilo Penna era filho de Protasio Penna e Regina Alvim Penna. Casou-se com Vera Prates Penna, sendo pai de Lucia Inez Penna Trivelatto e Lucia Regina Prates Penna.

Formado em Engenharia civil pela UFMG, ocupou vários cargos de destaque, entre eles: Diretor técnico da Cemig (1961 a 1967); Presidente da Cemig (1967 a 1975); Secretário da Fazenda de Minas Gerais (1975 a 1979); Ministro da Indústria e Comércio (1979 a 1984); e Presidente de Furnas (1985 a 1989).

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Nos períodos acima, foi membro do Conselho Monetário Nacional por três anos; membro do Conselho de Administração da Eletrobrás por 3 anos; vice-presidente da Ass. Brasileira de Normas Técnicas e do Núcleo Brasileiro da Conferência Mundial de Energia.

De 1990 em diante, foi consultor ou membro de Conselhos em empresas públicas e privadas, entre elas: Cia Siderúrgica Manessman, Fundação Dom Cabral, Copersucar, Cia. Siderúrgica do Pará, Cia. Força e Luz Cataguazes-Leopoldina, Biobrás, Copasa, FIEMG, Conselho de Administração da Itaipu bi-Nacional e Atech-Sivam, onde participou da elaboração de estudos de desenvolvimento e proteção da Amazônia. Foi, ainda, presidente do conselho do Instituto Horizontes e do Comitê de supervisão do “Estudo de competitividade da indústria brasileira”, preparado para o governo federal pela consultoria de Luciano Coutinho. Atuou, também, como consultor do BDMG, no preparo do estudo “Minas Gerais no século XXI”; e, em 2001, das ações para coordenação e mitigação do racionamento de energia junto ao governo federal. De setembro de 2000 a março de 2005, foi membro da Comissão de Ética da Presidência da República.  Em 2002, recebeu do Presidente FHC a Grã Cruz da Ordem Nacional do Mérito. Em 2009, passou a ser membro do Conselho de Administração da Cemig e do Conselho Consultivo da Eletrobrás.

João Camilo Penna escreveu artigos na mídia, pronunciou palestras e escreveu capítulos em livros especializados. Em resumo, dedicou sua vida profissional a projetos de energia renovável e para maior produtividade e competitividade da indústria brasileira, sempre com atenção ao meio ambiente. Destaca entre seus trabalhos específicos: a grande expansão da Cemig, incluindo a irreversibilidade da construção da usina de S.Simão, uma das maiores usinas no Brasil e de menor custo unitário; o re-equilibrio das contas públicas da Secretaria da Fazenda de Minas; no Ministério da Indústria e do Comércio, a consolidação da Usiminas e da CSN; a construção de Tubarão e a construção da Açominas; a condução, com José Israel Vargas, Marcos José Marques, Getulio Lamartine, Roberto Nogueira e Deusdedith Aquino, da tensa fase decisiva do Pro-álcool, no Mic; o crescimento da exportação da indústria brasileira, através do Befiex, com Ronaldo Costa Couto; os trabalhos com José Vargas para avanço da tecnologia industrial; e a construção, em Furnas, do sistema de transmissão de Itaipu.

Ministro João Camilo Penna, Carlos Alberto Teixeira de Oliveira e Renato Travassos
Ministro João Camilo Penna, Carlos Alberto Teixeira de Oliveira e Renato Travassos

Sempre gostava de frisar que sempre havia sido um homem que trabalhou em equipe, o que aprendeu cedo com seus pais, e que teve a sorte de ter tido bons chefes e bons companheiros de trabalho e de que Deus o tenha ajudado.

Camilo Penna recebeu, em 2013, a Medalha Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira – Artífice do Desenvolvimento Brasileiro – do Prêmio Minas Gerais de Desenvolvimento Econômico, concedida por MercadoComum e ASSEMG – Associação dos Economistas de Minas Gerais, considerada a mais elevada da premiação.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) lamentou o falecimento do ex-ministro de Indústria e Comércio, João Camilo Pena e divulgou a seguinte nota oficial:

“Minas Gerais e o Brasil perdem um dos seus mais brilhantes e ilustres homens públicos, que prestou relevantes serviços para o desenvolvimento da indústria e do país”, afirma o presidente da CNI, Robson Braga de Andrade. “Presto sinceras e justas homenagens a ele, em meu nome e dos demais integrantes do Sistema Indústria”.

Segundo a nota da CNI, “Camilo Penna era graduado em engenharia pelo Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Camilo Pena nasceu em Corinto-MG. Após a formatura, trabalhou na Companhia Vale do Rio Doce e, posteriormente, ingressou na então CEMIG (então Centrais Elétricas de Minas Gerais e, hoje, Companhia Energética de Minas Gerais), onde fez carreira técnica. Foi vice-presidente da empresa (de 1967 a 1969) e presidente (de 1969 a 1975), quando desenvolveu um amplo programa de eletrificação rural no interior mineiro e comandou a construção de algumas hidrelétricas no Estado, com destaque para Três Marias.

Uma folha de serviços prestados a Minas e ao Brasil 

Entre 1975 e 1979, Camilo Pena foi Secretaria de Estado da Fazenda de Minas Gerais, no governo de Aureliano Chaves. No mesmo período, assumiu interinamente as secretarias de planejamento e de Administração. Em 1979, assumiu o cargo de Ministro de Indústria e Comércio, no governo do então presidente João Baptista Figueiredo. Nesta função, comandou a implementação de diversos projetos, com destaque para a revisão do Programa Nacional do Álcool, o Proálcool, que contribuiu de forma decisiva para a redução de gastos do país com importação de petróleo.

Em 1984, João Camilo Pena deixou o ministério de Indústria e Comércio para apoiar a candidatura do conterrâneo Tancredo Neves à presidência da República, dentro do processo de redemocratização do país. No ano seguinte, já no governo José Sarney, assumiu a presidência da Furnas Centrais elétricas, cargo que ocupou até 1989.

Após deixar a estatal, tornou-se membro dos conselhos consultivos e de administração de várias empresas, com destaque para a Companhia Siderúrgica Mannesmann, a Companhia Siderúrgica do Pará, a Itaipu Binacional, Companhia de Saneamento de Minas Gerais e o Consórcio Coopers Lybrand-Main Engenharia. Foi, ainda, assessor especial da Federação de Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG).”

Camilo Penna sempre concedeu várias entrevistas a MercadoComum. Reproduzimos, a seguir, uma destas entrevistas, concedida e publicada na íntegra em nossa edição de janeiro de 2013. Impressiona a clareza de seu depoimento e comentários, ainda plenamente válidos para os dias atuais:

Camilo Penna sempre concedeu várias entrevistas a MercadoComum
Camilo Penna sempre concedeu várias entrevistas a MercadoComum

“Faltam bons governantes e investimentos”

Política cambial prejudica empresas brasileiras e agronegócio pode puxar o crescimento do Brasil e de Minas

Crítico de algumas medidas adotadas pelo governo federal, o ex-ministro da Indústria e Comércio João Camillo Penna coloca a situação da desindustrialização brasileira e mineira como alarmante. Para ele, há uma política de desvalorização do real frente ao dólar como forma de segurar a inflação, o que prejudica ainda mais as empresas brasileiras que competem com indústrias chinesas no mercado nacional e internacional. Diante desse contexto, o engenheiro natural de Corinto-MG, afirma que o desempenho de Minas Gerais está atrelado ao crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, consequência das semelhanças nas vocações econômicas. Contudo, ele ressalta que investimentos no agronegócio, setor que a China não compete, podem fazer com que Minas retome taxas de crescimento acima da média nacional. No campo político, Camilo Penna cobra uma maior pressão maior sobre a bancada mineira no Congresso, que na sua visão é fraca e pouco articulada.

MC – Como o senhor avalia o momento da economia brasileira?

JCP – O Brasil é o sétimo país do mundo em PIB, mas em renda per capita nós ocupamos a 80ª posição. Isso é uma coisa séria. Já o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é importante porque ele mede a expectativa de vida ao nascer, educação, saneamento básico e renda per capta. Se considerarmos esse indicador, o Brasil ocupa o 98º lugar no ranking de países.  Por isso, o governo e toda a sociedade devem fazer um imenso esforço para elevar não só a renda, mas o IDH da população brasileira.

MC – Diante desse quadro, como está a postura do governo?

JCP – Não estou vendo nada do governo federal, estadual e municipal para mudar essa situação. O País arrecada em impostos 37% do PIB, sendo que 22% ficam com o governo federal, 10% para os Estados e 5% para os municípios. A “presidenta” Dilma Rousseff administra 22% da riqueza brasileira, que é muita coisa. Mas o que se faz ainda é muito pouco, mesmo tendo havido uma melhora nos últimos anos. Acho que o governo federal investe muito pouco.  Está havendo investimento menor do que o déficit. Isso é gravíssimo. 

A falta de investimento está promovendo um processo de desindustrialização?

A desindustrialização está quebrando muitos empresários e as indústrias estão fechando ou estão sendo vendidas aos chineses. Não estou exagerando. É preciso ter um arsenal de medidas sérias sobre isso. Cabe ao governo brasileiro desvalorizar a sua moeda. O dólar deveria valer R$ 2,50 e não R$ 2,00 como tem oscilado atualmente. A moeda norte-americana já esteve em R$ 2,80. Isso é um escândalo, porque o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e a “presidenta” Dilma não querem reduzir a despesa pública para reduzir a inflação. Por isso colocam o dólar em valor baixo, dando uma cotação artificial ao real.

MC – O câmbio tem tirado a competitividade das empresas brasileiras?

JCP – A China tem a sua moeda desvalorizada enquanto o real brasileiro está valorizado. O yuan (moeda chinesa) deveria valer hoje 30% mais. E, para piorar, o governo brasileiro está segurando o dólar para combater a inflação, enquanto a melhor forma de conter a escalada de preços seria diminuir os gastos públicos. Só no câmbio a China ganha, pelo menos, 30% de vantagem no preço, isso é uma diferença enorme. Por isso, as indústrias nacionais estão fechando ou tornando-se importadoras da China. Isso é muito importante destacar, é bastante sério e grave.

MC – E os custos na China também são bem menores.

Sim, a China dispõe de 300 milhões de pessoas do campo esperando licença do governo para poderem migrar para as cidades. Por isso, o custo da mão de obra lá não vai subir tão cedo. Também é sinal de que a cidade está saturada. Lá a mão de obra custa em média US$ 100 por mês. Não o salário mínimo, é a remuneração média. Para ganhar US$ 100 por mês tem uns 300 milhões de chineses na fila. Até absorver todo esse pessoal, vai demorar uns 30 anos. E a jornada de trabalho por lá fica em torno de 60 horas por semana, enquanto aqui a maior é de 44 horas semanais. Os chinêses têm um custo de mão de obra imbatível.

MC – Então não há como disputar mercado com a China?

JCP – A China tem 4,6 engenheiros por 10 mil habitantes e no Brasil a proporção é de 1,6. O juro básico chinês é de 1% e no Brasil a Selic está em 7,5%. Os tributos lá são de 20% enquanto aqui alcançam 37% do PIB. A China tem 22 ministros, dos quais 16 são engenheiros ou cientistas, porque foi traçado um plano de desenvolvimento buscando a ciência, de conteúdo científico. O Brasil tem 38 ministérios, todos com indicação política. É impossível uma “presidenta” despachar, administrar e decidir com 38 ministros. País nenhum tem isso. Isso torna a gestão menos eficiente. Vejo que o Brasil tem que se preparar para conviver com a China. Eles ultrapassam vidas individuais por meio de trabalhos coletivos. Se um indivíduo morre, já tem outro preparado para assumir o seu lugar. Isso no Brasil é raro. Poucas empresas aqui são como as chinesas que têm na administração velhos, adultos e jovens. Seguramente, entre 2020 e 2025, eles vão passar os Estados Unidos como maior potência mundial no que se refere PIB, mas não em poder, que são coisas diferentes. Então o Brasil tem que se preparar para ser parceiro da China.

MC – Em qual setor o Brasil pode ser forte?

JCP – No agronegócio, o Brasil e Minas Gerais são praticamente imbatíveis em concorrência com os chineses. É uma área que se pode entrar com mais confiança, pois eles não têm disponibilidade de terra, sol e de água para produzir alimento em grande escala. Se você fizer uma fábrica de automóvel, vem a China e faz mais barato. Na área da indústria de transformação, todo cuidado é pouco. No agronegócio somos mais eficientes.

MC – Isso vale para o Brasil e para Minas Gerais?

JCP – Minas Gerais tem uma forte imbricação com o Brasil e o desempenho deles está ligado e conectado. Se o Brasil vai bem, Minas melhora, se o Brasil vai mal, Minas também piora. Assim, a primeira condição para Minas melhorar é o Brasil terá de ser o Brasil melhorar, não dá para desvincular Minas do Brasil. Mas é possível aumentar a representatividade. Minas tem muito comércio com Rio, São Paulo e os demais Estados. Nos últimos anos, a participação de Minas Gerais no PIB nacional tem oscilado em torno de 9%. É preciso melhorar essa relação. Passar de 9% para 10,5% ou 11%. Devemos crescer mais que o Brasil e não menos. Nosso agronegócio é muito forte, temos importantes números na produção de café, leite, grãos e floresta plantada.

MC – E a mineração?

É preciso derrubar alguns mitos. O produto da indústria de extração mineral em Minas representa muito pouco no PIB estadual. O minério é muito abundante e por isso tem o preço depreciado. A produção extrativa mineral em Minas é quase irrelevante. O minério, em si, só responde por 3,5% da economia mineira. Esse percentual refere-se ao mineral básico, à commodity, sem valor agregado.

MC – Além do agronegócio, quais outros pontos fortes possui Minas?

JCP – A cultura e as artes são muito importantes. Inhotim também é uma potencialidade de Minas. Há voos charters diretos dos Estados Unidos que trazem estrangeiros para visitar Inhotim. Depois eles seguem para pernoitar em Ouro Preto, retornando para os EUA no dia seguinte. Por isso, precisa ser construído um hotel de luxo em Inhotim. E ele pode ser considerado o melhor parque botânico do mundo. O Grupo Corpo tem espetáculos agendados em Pequim (China), Moscou (Rússia), Paris (França) e Londres (Inglaterra) – já com ingressos esgotados para os próximos seis meses. Ele é considerado um dos melhores grupos de dança do mundo, reconhecimento feito pela crítica do jornal Financial Times (EUA). Já a Associação dos Críticos Musicais de São Paulo, consideram que a melhor filarmônica do Brasil está em Belo Horizonte. Esses aspectos artísticos valorizam muito o Estado.

MC – E quanto ao cenário político?

JCP – É preciso ter bons governantes para crescer a economia e se ter desenvolvimento. Os governos estaduais mineiros têm sido bem melhores que os últimos governos federais. Quando fui para Brasília ser ministro da Indústria e Comércio, no governo de João Figueiredo, a minha maior curiosidade era saber se o governo federal era mais eficiente que o estadual. Mas não é, porque, constantemente, há troca de pessoal. Uma hora são baianos que comandam uma pasta, na outra são gaúchos, depois são paulistas… Nos últimos anos, Minas teve governadores muito bons, como Israel Pinheiro, Aureliano Chaves, Francelino Pereira, Itamar Franco, Aécio Neves e Antonio Anastasia.

MC – E no Congresso?

JCP – Uma das piores bancadas no Congresso é de Minas Gerais. São parlamentares completamente ausentes e que não se destacam e não apresentam projetos. Entre os integrantes da Comissão Representativa do Congresso não tem mineiro, apenas um como suplente pela Câmara. A bancada de Minas é tida como a oitava mais importante do Congresso, e veja que ela é grande. É fundamental que se exija uma atuação maior. A vaidade e a inveja fazem com que a nossa bancada seja desunida. Tem apenas um ou dois deputados que são bons. Por isso é preciso que a população mineira faça pressão sobre os deputados. Os representantes de entidades como a FIEMG, ACMinas e Sebrae deveriam agir mais nesse sentido.

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