Mapfre acelera metas ESG frente a desafios globais
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Indenizações recordes no seguro rural devido a questões climáticas e alta no preço dos automóveis devido à quebra da cadeia de produção na pandemia são desafios do setor

Impactos ambientais e sociais têm aumentado nas últimas décadas, porém os últimos dois anos foram especialmente alarmantes quando o assunto é a urgência da adoção de práticas ESG nas organizações. No caso de seguradoras como a Mapfre, que oferecem produtos como seguro rural, automóvel e de vida, em que estes fatores mexem diretamente nos indicadores do negócio, o tema já é estratégico.  “O ano de 2022 começou de uma forma muito dura para a indústria seguradora de uma forma geral”, conta Felipe Nascimento, CEO da Mapfre Seguros, em entrevista ao [EXP].

Em 2021, perdas recordes na agricultura brasileira levaram as seguradoras a pagar R$ 7,1 bilhões aos produtores, alta de 94% em relação a 2020 segundo dados da Susep (Superintendência de Seguros Privados). Nesse ano, uma grande seca prejudicou novamente as safras: até agosto de 2021, as indenizações pagas aos segurados rurais já somam R$ 9,5 bilhões.

No caso do Seguro de Vida, as indenizações no país referentes à morte por covid chegaram a R$ 7 bilhões de abril de 2020 a maio deste ano, segundo levantamento da FenaPrevi (Federação Nacional de Previdência Privada e Vida). Já o setor automotivo foi fortemente impactado pela quebra da cadeia de produção devido à pandemia e à guerra na Europa e a escalada de preços do setor atingiu em cheio também os seguros de automóveis.

Estes e outros cenários tornaram o tema ESG estratégico na Mapfre. Entre as metas globais anunciadas pelo Chairman e CEO Antonio Huertas no plano global 2022-2024, o Grupo pretende deixar de investir ou segurar empresas que usem energia vinda de carvão, gás e petróleo e que não esteja implementando um plano de transição energética. Outra meta é garantir que no final de 2024 pelo menos 90% da carteira de investimentos do Grupo seja classificada como ESG.

Em 2021, o Grupo Mapfre teve uma receita total de 27,2 bilhões de euros, sendo 22,1 bilhões apenas em seguros. No Brasil, o volume de prêmios no primeiro semestre de 2021 totalizou 2,24 bilhões de euros, alavancados, principalmente, pela evolução dos negócios rurais, de vida e no seguro de automóveis, que cresceram, respectivamente, 72,4%, 23,4% e 40,9%.

Leia, a seguir, a entrevista com Felipe Nascimento, CEO da Mapfre Seguros.

Por meio da Brasilseg, a Mapfre é líder no mercado de seguros rurais no Brasil. Em 2021 houve um pagamento recorde de indenizações neste produto devido às questões climáticas e esse ano, com a grande seca de inverno, os prejuízos continuam.  O que isso representou para a Mapre?

A Brasilseg tem hoje 60% do mercado de seguro rural no Brasil, é uma companhia na qual temos sociedade com o Banco do Brasil. O seguro rural remonta à história da própria Mapfre, que nasce na Espanha no meio rural, cobrindo acidentes pessoais dos produtores rurais. Ou seja, está em nosso DNA trabalhar com isso e é uma linha de negócio em que temos muita experiência.

Esse ano tivemos uma grande seca, que afetou sobretudo a parte sul do país. Em nível regional indenizamos no consolidado algo perto de R$ 3 bilhões, considerando a Brasilseg. Fazendo um recorte na Mapre Seguros foram R$ 600 milhões de indenização na região. É algo muito expressivo e que garante a continuidade de muitos desses produtores ou agricultores, não só para o pagamento de empréstimos como também possibilita que eles tenham os recursos para plantar a próxima safra.

Nós dividimos os riscos com as resseguradoras – no caso da Mapfre temos a Mapfre RE – e elas conhecem nossa capacidade técnica para continuar comercializando esse produto mesmo em um momento difícil como esse.

As mudanças climáticas têm impacto direto no produto seguro rural. O que a Mapfre tem feito em relação às práticas ESG em sua organização?

Quando o ESG, ou ASG, em português, se tornou mais relevante, nós buscamos encontrar correlações claras entre a cultura da empresa, o negócio em que operamos e os três pilares da sigla: ambiental, social e governança. Obviamente já tínhamos uma série de práticas neste sentido, mas em março desse ano nosso CEO global assumiu várias diretrizes publicamente em nossa Assembleia Geral de Acionistas.

Indústrias ou empresas cujos negócios usam mais de 30% da energia vinda de carvão não serão mais cobertas por nossa seguradora. Esse é um risco que não queremos mais ter. Definimos critérios ASG para avaliar as empresas nas quais iremos investir e até o fim de 2024 pelo menos 90% da carteira de investimentos deve seguir esses critérios. No âmbito interno, queremos garantir que até 45% de nossa força de trabalho seja representada por mulheres. A desigualdade salarial, que chamamos de brecha salarial, também terá um limiar de tolerância de 1% até o fim de 2024.

Durante a pandemia, houve uma maior procura pelo seguro de vida?

Sim, temos notado uma maior sensibilização em relação à necessidade das coberturas de seguro após a pandemia. No caso específico do seguro de vida, nem todo mundo sabe, mas o mercado segurador como um todo indenizou algo próximo de R$ 7 bilhões às famílias seguradas. A Mapfre participou com cerca de R$ 1,5 bilhão no total e no caso da Mapfre Seguros foram R$ 640 milhões que atenderam a 180 mil famílias.

A representatividade deste tipo de seguro no Brasil é ainda muito baixa, em torno de 0,5% do PIB. Ainda existe muita oportunidade de fazer com que ele sirva de elemento de estabilidade social. Em termos de produto, além do tradicional seguro de vida, temos o produto resgatável, para que o segurado possa utilizá-lo ainda em vida. Durante a pandemia, por exemplo, oferecemos telemedicina para a maior parte da nossa carteira de clientes. Vamos acompanhando as necessidades e demandas dos nossos segurados por meio de nossos canais de distribuição e de atendimento.

Por falar em atendimento, as empresas têm utilizado cada vez mais a tecnologia para aumentar a eficácia e reduzir custos operacionais. No caso do setor de seguros, a humanização no atendimento é essencial, já que muitas vezes o cliente está em um momento sensível de perda. Como equalizar o uso da tecnologia com a humanização do atendimento?

Eu acredito que a eficiência não é contraditória em relação à humanização. Vemos ambas como complementares.

Em um atendimento de pós-venda, por exemplo, um serviço de chatbot por WhatsApp de alguns segundos pode ser muito mais eficiente do que uma ligação telefônica de alguns minutos. Quando falamos de humanização em seguros temos quase 20 mil corretores de seguro que estão nos representando e são nossos olhos e braços, estão levando nossa cultura para os clientes. Temos mais de 15 mil prestadores de serviço que também nos apoiam e entregam o que vendemos para nossos clientes.

Como o contexto macroeconômico atual tem impactado 2022 e quais os desafios e oportunidades para 2023?

O ano de 2022 começou de uma forma muito dura para a indústria seguradora de uma forma geral. Estávamos saindo de uma pandemia e entramos em um cenário inflacionário que afetou muito as empresas que operam no segmento de automóvel, devido à quebra das cadeias de produção, não só por causa da covid-19 como da guerra na Europa.  São incertezas que vão sempre existir e o aprendizado que fica é que teremos de nos preparar para lidar com elas. Fizemos nossa lição de casa no primeiro semestre, nos adaptamos e os resultados começam a surgir agora no segundo semestre. O que é natural, já que o setor de seguros é um negócio de cauda longa.

Estamos otimistas para 2023. O Brasil é a segunda maior operação da Mapfre fora da Espanha, representa 15% do negócio. Os três pilares corporativos mundiais serão colocados em prática aqui: crescimento disciplinado, continuar crescendo de forma recorrente, com rentabilidade; eficiência e produtividade, que passa pelo investimento em tecnologia e em pessoas; e transformação, que engloba os aspectos ESG que falamos anteriormente.

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