Em entrevista exclusiva para o Mercado Comum, Julio Damião, presidente do IBEF-Minas Gerais analisa a área de finanças e o cenário econômico para 2022
Em entrevista exclusiva para o Mercado Comum, Julio Damião, presidente do IBEF-Minas Gerais analisa a área de finanças e o cenário econômico para 2022
Em entrevista exclusiva para o Mercado Comum, Julio Damião, presidente do IBEF-Minas Gerais analisa a área de finanças e o cenário econômico para 2022
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Júlio Damião foi escolhido para à presidência da diretoria executiva da entidade nos próximos dois anos (2021-2023). O executivo é formado em Administração de Empresas com pós-graduações em finanças corporativas (Newton Paiva), especialização em gestão – ênfase em finanças (Fundação Dom Cabral). Atualmente está cursando mestrado com foco em Estratégia e Inovação. Profissional com mais de 10 anos de experiência na área financeira de grandes empresas multinacionais do varejo e indústrias da área médica (VMI). Atualmente é CFO do grupo Prime Holding, empresa com grandes investimentos no setor industrial médico, com produtos em todo Brasil equipamentos de segurança para portos, aeroportos, exportando equipamentos brasileiros para mais de 40 países. (VMI Security).

MC – Como você enxerga o futuro da área de finanças?

JD – Todos os anos são divulgadas pesquisas sobre as profissões do futuro, profissões com maiores remunerações e as que desaparecerão do cenário mundial devido ao avanço da tecnologia e mudança de tendência de produtos e serviços. Á área de finanças, em todas as pesquisas e análises contina sendo uma profissão de destaque nas empresas, nenhuma surpresa…., pois todo projeto ou empresa precisa de uma estratégia de caixa (liquidez), investimentos, gestão do orçamento, estratégia fiscal, além de agilidade nas tomadas de decisões.

Vivemos também mudanças importantes na área financeira. A tecnologia permitiu a consolidação de enormes quantidades de informações e as empresas precisam cada vez mais de respostas ágeis, se preparar para este mundo disruptivo, turbulento, imprevisível e tecnológico é fundamental para a sobrevivência das empresas, a área financeira tem um papel importante na construção da estratégia dos negócios

A Transformação Digital já é uma realidade, com a Inteligência Artificial, as informações estão mais acessíveis e com maior qualidade, podendo ser utilizada de forma estratégica. Todas as informações hoje estão nas “nuvens” ou mais conhecida como Cloud, temos o sistema de RPA (Robotic Process Automation), que permite a automação de relatórios em tempo integral, o Blockchain vai mudar significativamente a área financeira, pois transforma um ativo físico em uma ativo virtual, possibilitndo maior segurança nas transações. O PIX já é uma realidade, e é um grande exemplo de disrupção tecnológica na área financeira: rápido, confiável, em escala e com baixo custo.

As empresas e a área financeira terão que se reinventar com as moedas digitais, vários bancos centrais ao redor do mundo já estão trabalhando nisso, acompanhar e entender as consequências fará toda a diferença na estratégia das empresas de longo prazo.

Também temos através de plataformas de visualização “Dashboard” a consolidação de informações em tempo real, o que permite também a análise de cenários de forma rápida, evoluímos 10 anos em 3. O Maior desafio hoje é a atualização dos profissionais de finanças com relação a estas mudanças.

MC – Qual é o novo perfil dos profissionais de finanças? 

JD – Muitas empresas saíram do período do COVID19 melhores do que entraram, e um dos principais motivos é que tiveram uma gestão financeira estratégica, aonde o profissional de finanças “saiu” da sua caixa de atuação e junto com o conselho de Administração e CEO, traçaram estratégias de enfrentamento.

O profissional de finanças precisa ter uma visão de negócios apurada, claramente se perguntar “como a empresa efetivamente ganha dinheiro?”, para isso, precisa interagir com as outras áreas da empresa, também participar de fóruns, palestras e entidades (o IBEF-MG é um exemplo disso assim como MercadoComum), aonde o profissional possa ter outras visões e desenvolver a análise crítica.

Outra característica relevante é a capacidade de execução correta do planejamento. O Covid 19 encurtou todos os prazos das empresas, um projeto de cinco anos, hoje é feito em dois, a agilidade de execução é uma das principais vantagens competitivas das empresas, principalmente em finanças, o tempo faz toda a diferenças, desta forma, se é necessário diminuir o custo em 10%, o tempo de execução rápido vai fazer a diferença entre maior liquidez e capacidade de investimentos

O profissional de finanças também precisa entender de gente, a pandemia mostrou a importância de administrar as expectativas da equipe (Home-Office), a necessidade da comunicação para deixar claro o que se espera e principalmente o alinhamento de propósito com a equipe. A transformação digital é importantíssima, assim como os relatórios financeiros, mas o feedback de forma honesta e o acompanhamento do dia a dia pelo exemplo faz toda a diferença na “entrega” dos índices financeiros, seja em âmbito local ou global.

Entender de cenários econômicos também é muito importante, o mundo está cada vez mais conectado, com processos e economias interligadas e dependentes, dessa forma, as empresas precisam encontrar a melhor maneiras de lidar com um número crescente de desafios e antecipar a tendência do futuro. Diante desse complexo e turbulento cenário, o financeiro precisa entender o ambiente local e global, os impactos das decisões econômicas no segmento de atuação e também na estratégia da empresa.

Fazer cenários, identificar os impactos, fazer as correções rapidamente e o aprimoramento da gestão de pessoas é a grande diferença dos profissionais de finanças que fazem a diferença.

E Claro, ter um alto conhecimento da área de finanças, principalmente caixa, orçamento, investimentos, estrutura de capital até chegar as ferramentas digitais de análise. A atualização constante em finanças permite percepção melhor de estratégia e impactos na organização.

Preservar a liquidez neste mundo turbulento também é fundamental, os investimentos devem ser feitos priorizando os retornos de curto prazo, porém estando em linha com a cultura de sustentabilidade de longo prazo. Diminuir a necessidade de caixa (NCG) e a alavancagem financeira torna a empresa mais saudável, e principalmente, buscar aumentar o lucro líquido mantendo a margem operacional. Esta equação é fundamental para a sobrevivência das empresas, pois aumentar o faturamento a qualquer custo sem pensar nas margens é a fórmula para prejuízo. Existem muitos outros índices analisados pelo mercado como EBIT, EVA, ROI, porém, a liquidez é o índice mais importante nas crises. (O Caixa é Rei).

A Característica de Soft Skills se tornou fundamental para todas as profissões, não poderia ser diferente para a área financeira. Comunicar corretamente os números e a ações, desenvolver a análise crítica, saber resolver problemas complexos, desenvolver a liderança e ter calma para não se contaminar com informações “incorretas” ou de “momento” são fundamentais. As empresas ficaram mais horizontais no pós-covid19, o objetivo são decisões com rapidez, mas principalmente com qualidade, a execução correta é a maior vantagem competitiva das empresas hoje. Os executivos financeiros foram e são fundamentais nesse momento, para tornar o negócio competitivo.

Não poderia deixar de citar também o grande alinhamento da área financeira com a pauta ESG, principalmente com os itens do ODS e sustentabilidade. Temos um desafio muito grande nas empresas com relação a esta conscientização, principalmente com relação ao credito de carbono (Green Bond) e investimentos de sustentabilidade, muitas empresas estão conseguindo a auto-suficiência energética ou colocando metas agressivas. O profissional de finanças também é uma referência dentro das empresas, diversidade, inclusão e respeito devem fazer parte da pauta deste profissional.

A CVM aprovou as mudanças na divulgação das informações das empresas listadas para o mercado (resolução 59 de 22 de dezembro de 2021), agora deverá ser informado ações de redução emissão de CO2, disparidade salarial, diversidades entre outros. Estar atento a esta pauta é fundamental.

MC – Qual a sua análise para a economia brasileira em 2022? 

JD – Arrisco a afirmar que os desafios serão maiores que 2020 e 2021.

Em 2022 iremos vivenciar efetivamente os impactos da pandemia na economia, a inflação está crescendo, pois a demanda por produtos aumentou, e as empresas não se prepararam para atender o mercado, sentimos isso nos preços de todos os produtos. O governo precisa ter uma responsabilidade muito grande e tomar atitudes rápidas para não perder ainda mais o controle da inflação.

A cotação do dólar é um ponto de muita preocupação, o real foi uma das moedas que mais desvalorizaram no mundo, o dólar é importante para as exportações, equilibrando a balança comercial brasileira, porém não vejo essa desvalorização excessiva, r$ 5,70 no dia de hoje, como um ponto positivo para a indústria brasileira, os investimentos em máquinas e equipamentos ficam em suspenso, o Brasil perde competitividade, pois as margens ficam comprometidas. O Brasil possui políticas de incentivos tecnológicos, mas ainda somos muito dependentes do mercado internacional.

Hoje não vejo um ambiente fiscal e político que permite uma a diminuição da cotação do dólar. Estar preparado para isso é fundamental, através de Hedge (proteção cambial) e negociação com fornecedores, o dólar é um grande fator que retira o poder de compra da população, na minha visão, mais impactante que a inflação.

Com o aparecimento da Ômicron, alguns países começaram a adotar o lockdown novamente, como a Holanda, é uma grande preocupação porque os Bancos Centrais precisarão continuar injetando dinheiro na economia, hoje os juros no mundo estão negativos, o que incentiva o investimento, mas os países terão que aumentar os juros para ajustar a questão fiscal, e o brasil será afetado, terá que aumentar o juros ainda mais para manter os investimentos e a economia irá desacelerar.

Em 2022 a tendência da taxa de juros é subir, isto tem grandes implicações na economia, porque o custo do dinheiro é importante para incentivar os investimentos, com juros altos, os recursos serão destinados para o mercado financeiro ao invés de investimento na economia real com criação de empregos, os juros altos compensam o risco do negócio.

Temos várias instituições financeiras que fazem a análise do PIB, e estamos identificando uma previsão de retração da economia ou um pífio crescimento, isto é um grande problema. Com juros altos, dólar e inflação em crescimento aliado com PIB baixo, é a fórmula para recessão, perda de valor, maior concentração de renda e poucos investimentos. Vejo com muita preocupação o ano de 2022 no Brasil.

MC – Com eleições presidenciais no próximo ano, você enxerga impactos na economia?

JD – Com certeza, me preocupa muito a turbulência política e principalmente o aumento da incerteza em ano eleitoral, gerado pela polarização que estamos vivenciando.

Para que a economia possa acelerar novamente, é necessária uma previsibilidade de cenário econômico, pois os empresários analisam principalmente a demanda do mercado para medir o possível retorno.

O Ambiente politico torna muito difícil uma análise mais apurada com relação a juros, cotação do dólar, crescimento do PIB, investimentos governamentais, fazendo com que 2022 seja um ano de poucos investimentos, porém o que enxergo é que a discussão sobre a terceira via e a incerteza com próximo presidente tem afetado a economia de forma muito forte, ou seja, não temos previsibilidade.

Como financistas temos que ter uma visão “desapaixonada” e medir de forma clara e concisa os impactos das diferentes políticas econômicas dos presidenciáveis no planejamento das empresas. Temos que fazer vários cenários e acompanhar os indicadores para fazer mudanças rápidas se necessário. Com certeza a questão política é o principal fator de instabilidade brasileira.

MC – Qual a sua análise com relação as reformas?

JD – Tenho convicção que a reforma tributária tem o poder de mudar a produtividade da economia brasileira, não podemos aceitar um sistema tributário atual, pagando em média 34% de impostos, um dos mais altos do mundo, e ainda temos um sistema tributário altamente complexo, realmente é um desafio interpretar, traduzir e executar as leis tributárias. O IBPT (Instituto brasileiro de Planejamento e Tributação), terminou um estudo aonde mediu a quantidade de novas normas tributárias em 2021, foram editadas incríveis 443.236 novas normas tributarias, impossível se atualizar com tudo o que existe no Brasil com relação a questão tributária.

Não acredito em uma reforma tributária “fatiada”, como tem acontecido com o IR tenha resultado efetivo, ou realmente aceitamos o desafio de reduzir e simplificar o sistema tributário, ou vamos ficar divagando e fazendo conjecturas sem sentido.

Todos os financistas sabem, através do fluxo de caixa, a quantidade de impostos municipais, estaduais e federais que são pagos, poderíamos estar utilizando este dinheiro para investimentos contratação de funcionários, investimentos em produtos e serviços, não sou contra pagar impostos, mas acredito que existe uma discrepância no Brasil, temos visto agora a PEC 110 com mais visibilidade com a criação do “IVA Dual”, nosso papel é acompanhar e cobrar soluções efetivas.

Para diminuir a carga tributária, o Brasil precisar gastar menos, assim a reforma administrativa é fundamental, além de analisarmos o tamanho correto, precisamos de um estado menos burocrático, que entregue a sociedade um serviço de qualidade e que realmente fomente os negócios.

A percepção é que a arrecadação do estado não compensa o valor do serviço ao cidadão, tenho certeza que existem muito iniciativas positivas e muitas pessoas qualificadas no estado, precisamos de um processo em que estas iniciativas possam ser sentidas pela sociedade, precisamos repensar o modelo atual e fazer a transição de forma pacífica e coordenada com o executivo, sociedade e congresso nacional, esta é uma pauta estratégica para o país.

Não podemos mais analisar em separado as reformas tributarias e administrativas, elas são complementares e devem ser pensadas com o objetivo de tornar o estado mais eficiente, diminuindo a carga tributária e sua complexidade, encontrado com equilíbrio justo para as empresas e para as pessoas físicas.

MC – IBEF-MG é a instituição que representa os executivos de finanças de Minas Gerais, como é ser presidente desta importante instituição?

JD – O IBEFMG é um lugar aonde a qualidade das discussões surpreendem pelo alto nível de aprofundamento, a maioria dos associados tem grande conhecimento e é muito bom conversar e trocar experiências.

Quando você se torna presidente do IBEF você entende melhor o valor da marca e a responsabilidade perante a sociedade, participam da Instituição os maiores nomes em finanças de Minas Gerais e também muitos CEOs de empresas são associados, além das mais variadas empresas como escritório de advocacia e seguros.

Instituição tem tido um crescimento expressivo nos últimos anos, fruto da importância da estratégia financeira das empresas e das divulgações de opiniões de vários diretores nas mídias, aumentando ainda mais a credibilidade do IBEF.

De todos os projetos para 2022, destaco o projeto IBEFVERDE, aonde o objetivo é promover os investimentos sustentáveis, fazendo da área financeira um articulador de mudanças, promovendo o crescimento das empresas de forma responsável e integrada a sociedade, e o projeto WOMAN EXPERIENCE, com o objetivo de valorizar todas as mulheres da área financeira, mostrando a contribuição para a sociedade e as histórias de sucesso.

Temos muito trabalho a fazer, mas o desafio e gratificante.

Criado em 3 de outubro de 1985, o Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (IBEF-MG), é uma entidade sem fins lucrativos, apartidária e que reúne executivos e empresários de Minas Gerais. O quadro social do IBEF congrega em torno de 5 mil profissionais em todo o Brasil. Os objetivos da entidade buscam o desenvolvimento profissional e pessoal do executivo de finanças com a difusão do conhecimento, por meio de interação em encontros de intercâmbio de negócios de ideias e networking.

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