JK – ANIVERSÁRIO EM 12 DE SETEMBRO – A CONSTRUÇÃO DE BRASÍLIA E A CONSOLIDAÇÃO DA DEMOCRACIA
JK – ANIVERSÁRIO EM 12 DE SETEMBRO  – A CONSTRUÇÃO DE BRASÍLIA E A CONSOLIDAÇÃO DA DEMOCRACIA
JK – ANIVERSÁRIO EM 12 DE SETEMBRO – A CONSTRUÇÃO DE BRASÍLIA E A CONSOLIDAÇÃO DA DEMOCRACIA
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Acelerando a conclusão de importantes obras a fim de inaugurá-las no dia de hoje, trouxestes ao companheiro de luta o mais belo e cobiçado presente de aniversário. Com ímpeto retomastes o já famoso “ritmo de Brasília” e dobrando esforços arrancastes à noite horas reservadas ao descanso. Não quereis que este dia transcorresse sem que fossem rematadas edificações e serviços essenciais a esta bela cidade construída com o vigor de vosso pulso e a firmeza de vosso ânimo. Como agradecer-vos este gesto que vincula uma data de minha vida íntima a acontecimentos tão significativos para Brasília? Generosamente me trouxestes a dádiva de uma alegria autêntica, pois para quem vive a vida pública não há melhor alegria do que a coletiva e, quanto a mim, em particular o que é grato a Brasília, dobradamente me rejubila.

A construção de Brasília mostrou de quanto é capaz o gênio criador do povo brasileiro. A energia, o arrojo, a inteligência, a arte, a técnica e o esforço físico que se amalgamaram para produzir este monumento e que procederam todos de fontes genuinamente nacionais vieram revelar um Brasil novo que não só o mundo, mas os próprios brasileiros desconheciam. É surpreendente que esta cidade que causa admiração e assombro além das fronteiras ainda encontre dentro do país uma obstinada minoria de opositores. Para maior glória de Brasília e da epopeia de sua edificação, é bom saberem os pósteros que os seus construtores não lutaram apenas contra o deserto nem contra as dificuldades de uma ilação em crescimento, mas também contra a incompreensão, a má vontade e o sarcasmo. Assim os vindouros compreenderão que Brasília significou realmente uma profunda mudança de rota na vida deste país, representando a vitória de um espírito novo, de uma vontade lúcida, uma perseverança tranquila porque cônscia da certeza do caminho.

Os que construíram esta cidade ou vieram habitá-la, adotando-a de coração, não desamam a poeira das construções, pois sabem que esta poeira se desprende das lutas e novos tempos.’ Não se impacientam com a transitória descomodidade da capital recém-instalada, pois este é o módico preço de participarem de um extraordinário fato histórico, o surgimento de um grande centro civilizador nas solidões do Brasil Central. Breve esquecerão as passageiras dificuldades aqueles que deixaram os refinamentos de conforto de uma cidade culta, opulenta e encantadora, cidade das mais belas do mundo, para virem habitar numa capital em obras que mal acabara de erguer aos céus as suas estruturas de aço e de concreto, neste remoto rincão que pouco antes era apenas um vago retângulo escrito nas cartas geográficas.

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Em torno desta magnífica plataforma não tardará a instalar-se um centro borbulhante de vida, com as suas instituições de cultura, as suas salas de espetáculos, as suas lojas, as suas galerias, as suas vielas de porte veneziano, seus trevos, terraços, e cafés, onde se encontrará o ambiente propício à vida em comum, o lugar de encontro, o convívio tão necessário ao citadino. E tudo isso numa terra de adorável clima, envolvida a população numa atmosfera serena, isenta dos desgastes que trazem os problemas de tráfego e outros mais, que nas metrópoles superpovoadas obstam a cada passo as relações entre os indivíduos. Do terraço que nos circunda e em que nossa vista mergulha no horizonte infinito, sentireis dentro do peito o nobre orgulho de haverdes sido obreiros de uma grande nação, desacorrentando-a do litoral e atirando-a para dentro, para o interior que dormia um sono de milênios, à espera de que uma raça de homens enérgicos viesse convocá-lo a participar da grande aventura da civilização humana.

A Israel Pinheiro, que dignamente representa a nobre estirpe dos construtores da capital, desde o urbanista, o arquiteto, o engenheiro, o funcionário, o técnico de vários níveis, até o candango, herói anônimo, aqui revelado à nossa admiração, agradecerei com um abraço, melhor do que com palavras, esta homenagem comovedora, mais que memorável, que não podia ambicionar para o meu aniversário natalício.

Nas tardes do Planalto, os crepúsculos de fogo se confundem com as tintas da aurora. Tudo se transforma em alvorada nesta cidade que se abre para o amanhã. Certamente por isso, amigos, o último setembro que convosco partilho como presidente da República me inspira, ao invés da melancolia do adeus, o júbilo contagiante da metrópole, com o seu espírito de juventude, a sua alegria pioneira, a sua confiança no porvir.

Quero acrescentar apenas uma palavra para agradecer as saudações maravilhosas que aqui tiveram o líder do Senado, Auro de Moura Andrade; o líder do Congresso, Jurema; o meu velho amigo Adelchi Ziller; e lhes dizer que as suas palavras tiveram o condão de me emocionar, como hoje pela manhã, na missa votiva que os meus amigos me ofereciam; ao ilustre arcebispo desta cidade, D. José Newton de Almeida, que arrancava de mim verdadeiras lágrimas de emoção com as suas palavras de compreensão, estímulo e incitamento.

Quero agradecer neste instante a Israel Pinheiro, o decreto com que ele me surpreendeu nesta manifestação dando o meu nome humilde ao Eixo Monumental, guardando assim para a posteridade a lembrança do nome de um homem que apenas lutou e trabalhou com decisão e firmeza para realizar um velho sonho secular que há tantos anos atormentava gerações e gerações de brasileiros. No dia 2 de outubro próximo, faz quatro anos que pela primeira vez, num campo provisório, aqui descia eu em companhia de Israel Pinheiro.

O Planalto era totalmente deserto. Nem sequer uma choupana alimentava a vida e a atividade neste imenso traço do território brasileiro. Começamos a nossa luta. Poucos meses antes, descendo em Anápolis, havia eu remetido ao Congresso mensagem em que pedia permissão para construir a nova capital. Lembro-me bem da descrença total com que essa mensagem foi recebida. Poucos acreditavam na intenção verdadeira do governo de uma vez para sempre desacorrentar o Brasil para vir procurar o seu futuro e o seu destino nas plagas imensas e desertas que jaziam além do Planalto Central. A um simples aceno de esperança, vieram homens de todos os recantos do Brasil, do Norte e do Sul, e aqui reunidos num trabalho que não se interrompia nem pelo dia, nem pela madrugada, nem pela noite, construíram este monumento, dando ao Brasil a imensa confiança de saber das suas possibilidades construtivas. Tão forte, tão poderoso, tão heroico foi este trabalho, que os homens que o realizaram, que a princípio traziam como nota pejorativa o título de candangos, deram a essa designação a nobre atitude de homens de trabalho e isso passou a constituir um patrimônio moral de todo o Brasil.

Quero neste último aniversário que passo no governo trazer o meu agradecimento profundamente comovido aos candangos que nos ajudaram nesta obra. Homens que vi debruçados no trabalho pelas madrugadas afora, cantando para espantar o sono e não interromper o serviço que eles sabiam necessário ao desenvolvimento do Brasil.

Estamos felizmente a 20 dias da eleição. A nação está em calma. Aquilo que nós estávamos habituados a contemplar neste país, fruto da fermentação dos ódios e das paixões políticas que procuravam desaguar à véspera da eleição para intranquilizar e perturbar o sossego do brasileiro, desapareceu de uma vez para sempre.

Consolidamos a democracia, respeitando a lei e a Constituição, a vontade popular, não permitindo, sob pretexto algum, modificações na Constituição para eleições tranquilas e de rotina e que não se invocasse e não se pedisse uso de armas ou de golpes para conjurar as crises.

Estamos a poucos dias da eleição. O meu governo tem-se mantido numa atitude impecável de respeito à opinião pública. A 3 de outubro, qualquer brasileiro votará em quem muito bem quiser e o eleito será empossado na Presidência da República.

O presidente da República, no exercício da sua função, tem que ser isento. Tem que administrar a coisa pública como um patrimônio geral da nação e não utilizá-lo em benefício de grupos ou de partidos. Mas não podendo o presidente da República, por imperativo e força da própria Constituição, ser candidato a não ser que filiado a uma legenda partidária, está ele obrigado a pertencer a um partido político. A um partido político pertenço eu, ao Partido Social Democrático, que juntamente com os meus aliados da campanha de 55 desfraldou a bandeira da consolidação democrática.

Voltamos novamente, os mesmos homens, os mesmos partidos, à mesma bandeira e ao mesmo ideal. E, agora, como correligionário, como homem do Partido Social Democrático, posso dizer à nação brasileira que desejo a eleição do marechal Teixeira Lott e de João Goulart, com a consciência tranquila de poder desafiar qualquer cidadão que imputar ao meu governo atitudes facciosas que venham perturbar a lisura, a tranquilidade e o respeito ao pleito de 3 de outubro.

Resumindo as minhas palavras neste instante, quero agradecer de novo a Israel Pinheiro e aos oradores que me saudaram, aos candangos de Brasília, e, formulando votos para a prosperidade desta cidade, cuja função é abrir os largos horizontes e a nova marcha para o Brasil de amanhã, pedir a Deus que dê a todos os brasileiros paz, tranquilidade e confiança no futuro, a fim de que, de fato, sejamos uma nação poderosa dentro de breve tempo.

*Discurso proferido em 12 de setembro de 1960, por ocasião da inauguração da Plataforma Rodoviário de Brasília, no Eixo Monumental da Cidade – Brasília – DF. Texto extraído da Coletânea “Juscelino Kubitschek: Profeta do Desenvolvimento – Exemplos e Lições ao Brasil do Século XXI” – (3 volumes/2.336 páginas, publicado por MercadoComum) de autoria de Carlos Alberto Teixeira de Oliveira.

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