“Recebi com desvanecimento o convite que me fizestes para ser o vosso paraninfo. Participar das emoções da mocidade, em suas horas gratas e festivas, já constitui extraordinário privilégio, que bem sei avaliar. E, neste caso, acrescem novos motivos de sugestão e encanto por se tratar de um grupo de jovens artistas, a celebrar a conquista de esplêndido triunfo nos prolongados e difíceis estudos a que se dedicaram, com esforço, perseverança e idealismo.
Ao lado da ciência e da religião, o cultivo das artes se considera índice revelador do desenvolvimento cultural dos indivíduos e das sociedades. O maior ou menor grau de educação artística é sinal certo e seguro para se aquilatar da grandeza de alma, da força da inteligência, da intensidade do sentimento e da abundância de coração nas pessoas, bem como do equilíbrio e da elevação da conduta moral dos agrupamentos sociais, das cidades e dos povos. É ela que empresta, acima de tudo, ao convívio entre os homens essa graça sutil, esse sentido de delicadeza e profundidade, esse não sei quê que nimba de beleza a nossa existência e a situa em plano superior ao das puras preocupações materiais. Segundo a palavra do filósofo, a arte é o sal da terra. Tirai da vida a arte – e em que se transformará a vida? Numa noite sem estrelas, num oceano sem praias, num deserto sem Oasis numa solidão sem refúgios.
E, minhas jovens diplomandas, dentre todas as artes é a Música – aquela a que vos dedicastes – a que reúne em mais alto grau as qualidades e requisitos essenciais a essa forma de expressão dos humanos sentimentos, anseios e aspirações. Sendo a mais formal das artes, é sem dúvida uma síntese das demais, que dela participam ou se aproximam de seu espírito por muitos de seus elementos característicos. Nela, cabem todas as emoções, desde os simples impulsos que levam o homem a evadir-se das árduas contingências da vida ordinária, para esquecê-las em alguns momentos de recreação pura, até os amplos movimentos do espírito que se entrega à ambição de tudo conhecer, sentir e compreender. Por isso pode Faguet declarar que só a Música é por completo a arte que nos permite transfigurar a vida, como a verdadeira expressão do devaneio. E por isso também, pode Beethoven proclamar, com a miraculosa intuição dos grandes artistas, que a música é revelação mais alta e mais profunda que a própria filosofia.
Para nós, homens de governo, constitui dever essencial promover, por todos os meios ao nosso alcance, o aprimoramento geral das artes em nossa Pátria, já cuidando da instalação de estabelecimentos de ensino especializado, já prestigiando os artistas e procurando criar condições propicias ao livre exercício de sua atividade. De minha parte, tudo tenho feito para que o estímulo às artes se intensifique continuamente em Minas Gerais. Em cerca de dois anos de administração, orgulho-me de ter fundado seis Conservatórios de Música, em Juiz de Fora, São João del Rei, Uberaba, Rio Branco, Diamantina e Pouso Alegre, bem como uma escola de Belas Artes em Juiz de Fora, esta última para a formação de pintores, desenhistas, escultores e artistas plásticos em geral. Através de convênio com a Prefeitura, o Estado proporcionou iwmportantes recursos financeiros para que se instituísse em Belo Horizonte a Sociedade Mineira de Concertos Sinfônicos, cuja finalidade precípua é a prática e a difusão da Música e do Canto em sua expressão mais elevada, mais grandiosa e mais universal.
Não é de hoje que se exalta a função educativa da música, mais intensa nela do que nas outras formas de realização artística. Já Platão salientava a influência da música na sociedade política, pela sua capacidade de comunicar às almas harmonia, ritmo e propensão ao bem e ao justo, pois nenhum ser harmoniosamente constituído poderia entregar-se aos desregramentos da injustiça. Eis porque, ao mesmo tempo em que nos devotamos a profundo esforço no sentido de restaurar a economia mineira e abrir novas veredas ao progresso de nossa terra, não olvidamos as nossas responsabilidades no que se refere ao desenvolvimento das ciências, das letras e das artes, uma vez que não se chegará à verdadeira civilização através de soluções unilaterais, mais exclusivamente pela simultaneidade, pela combinação, pelo equilíbrio dos empreendimentos de ordem material com as conquistas espirituais e morais. A crise que atravessamos, quando as populações se debatem com tremendas dificuldades, só poderá ser superada mediante entendimento e cooperação franca e sincera entre os responsáveis pelos destinos da coletividade e a própria coletividade, em todas as suas expressões e em todos os seus elementos. Creio não ser inoportuna uma afirmação como esta, quando falo a jovens artistas de Minas, pois o artista é por essência e por definição o intérprete da alma popular, a antena sensível às aspirações obscuras e às graves vozes de advertência que sobem do coração do povo.
É tradicional a vocação dos Mineiros para as atividades artísticas, e especialmente para a música e o canto. O nosso folclore, que agora começa a ser mais profundamente estudado, graças às iniciativas de numeroso grupo de especialistas devidamente credenciados, bem demonstra, pela sua riqueza e variedade, as imensas possibilidades que se abrem ao nosso povo na ordem da composição ou da criação musical. O sentimento popular exprimiu-se num sem número de canções, das velhas modinhas aos cantos especificamente regionais, tocadas de inspiração e de beleza e que constituem abundante material a ser aproveitado pelos compositores e artistas de hoje e de amanhã, para enriquecimento de nossa arte musical e para sua consequente elevação à categoria a que essa arte atingiu em outros meios de intensa civilização.
Quem de nós não guardará no ouvido o ritmo suave e encantador dessas canções mineiras, escutadas na infância ou na adolescência nas cidades de nosso berço, e não as escutará ainda com enternecimento, – canções através da quais se exprime a nossa sensibilidade e como que se fixa a própria paisagem material da grande terra de Minas, os descantes de nossos rios selvagens, a amplitude nostálgica dos nossos campos ao entardecer, a imponência de nossas rudes montanhas, o mistério das profundas matas, o cintilar dos astros de nossos céus tão belos e evocativos, o canto dos pássaros, a história dos romances e dos idílios vividos pelos que nos antecederam e que se transfiguraram à luz dos sentimentos mais sinceros e mais peregrinos?
Preservar esse patrimônio de arte e beleza, como ponto de partida para novas conquistas no domínio da criação musical, é dever que incumbe a quantos sabem amar a sua terra, prezar as suas tradições e aspirar ao seu progresso na ordem cultural como na ordem material. Essa foi, sem dúvida, a razão de ser da fundação do Conservatório Mineiro de Música, estabelecimento que honra os foros universitários de Belo Horizonte e que tem desempenhado importante papel em nossa evolução artística. Centenas e centenas de jovens mineiros, guiados por mestres de grande valor e dedicação, por aqui passaram, aprimorando através de cuidadosos estudos os impulsos de sua vocação e de seu talento original.
A essas turmas anteriores se acrescenta o luzido grupo de artistas que ora recebem os seus diplomas e a que tenho a honra e o prazer de dirigir estas palavras de saudação. Estou certo – minhas jovens diplomandas, – de que não ireis desmerecer das notáveis tradições desta Casa, e que ao contrário, estais capacitadas a exercer com eficiência e proveito a função que se vos reserva como elementos de primeira linha nesse combate que urge intensificar para o aperfeiçoamento da arte musical em Minas Gerais e para a exaltação da cultura mineira e todos os seus aspectos.
Agradecendo a distinção que me conferistes de falar-vos neste instante tão significativo de vossa via, eu vos dirijo minha efusiva sudação, extensiva aos mestres que se orgulha de tão brilhantes alunas e agora não menos brilhantes colegas, desejando-vos a todas as maiores felicidades.”

Texto extraído do discurso proferido como governador de Minas, ao paraninfar as diplomandas do Conservatório Mineiro de Música, em Belo Horizonte, a 13 de abril de 1953.