Inflação no Brasil em março é a mais elevada desde março de 1994, pouco antes do início do Plano Real: IPCA alcançou 1,62% no mês e acumula alta de 11,30% nestes últimos 12 meses
Inflação no Brasil em março é a mais elevada desde março de 1994, pouco antes do início do Plano Real: IPCA alcançou 1,62% no mês e acumula alta de 11,30% nestes últimos 12 meses
Inflação no Brasil em março é a mais elevada desde março de 1994, pouco antes do início do Plano Real: IPCA alcançou 1,62% no mês e acumula alta de 11,30% nestes últimos 12 meses
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Populações mais pobres são as mais atingidas e aumentos na Selic parecem não surtir o efeito desejado

Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de março teve alta de 1,62% – aumento que corresponde a 0,61 ponto percentual (p.p.) acima da taxa de 1,01% registrada fevereiro. A variação veio bem acima o que esperava o mercado financeiro, que projetava uma alta de 1,35%. Essa é a maior variação para um mês de março desde 1994, quando o índice foi de 42,75%, no período que antecedeu a implementação do Real. No ano de 2022, o IPCA já acumula alta de 3,20%.Nos últimos 12 meses, a alta é de 11,30%, acima dos 10,54% observados nos 12 meses imediatamente anteriores. Em março de 2021, a variação mensal foi 0,93%.

Período Taxa
Março de 2022 1,62%
Fevereiro de 2022 1,01%
Março de 2021 0,93%
Acumulado no ano 3,20%
Acumulado nos últimos 12 meses 11,30%

 

Oito dos nove grupos de produtos e serviços pesquisados tiveram alta em março. A maior variação (3,02%) e o maior impacto (0,65 p.p.) vieram dos Transportes, que aceleraram na comparação com o resultado de fevereiro (0,46%). Na sequência, veio o grupo Alimentação e bebidas, com alta de 2,42% e 0,51 p.p. de impacto. Juntos, os dois grupos contribuíram com cerca de 72% do IPCA de março. Além deles, houve aceleração também nos grupos Vestuário (1,82%), Habitação (1,15%) e Saúde e cuidados pessoais (0,88%). O único com queda foi Comunicação, com -0,05%. Os demais ficaram entre o 0,15% de Educação e o 0,59% de Despesas pessoais.

Grupo Variação (%) Impacto (p.p.)
Fevereiro Março Fevereiro Março
Índice Geral 1,01 1,62 1,01 1,62
Alimentação e Bebidas 1,28 2,42 0,27 0,51
Habitação 0,54 1,15 0,09 0,18
Artigos de Residência 1,76 0,57 0,07 0,02
Vestuário 0,88 1,82 0,04 0,08
Transportes 0,46 3,02 0,10 0,65
Saúde e Cuidados Pessoais 0,47 0,88 0,06 0,11
Despesas Pessoais 0,64 0,59 0,06 0,06
Educação 5,61 0,15 0,31 0,01
Comunicação 0,29 -0,05 0,01 0,00
Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Índices de Preços

 

O resultado do grupo Transportes (3,02%) foi influenciado, principalmente, pela alta nos preços dos combustíveis (6,70%), em particular, o da gasolina (6,95%), subitem com maior impacto individual (0,44 p.p.) no índice do mês. Cabe lembrar que, no dia 11 de março, o preço médio de venda da gasolina da Petrobras para as distribuidoras foi reajustado em 18,77%. Além disso, houve altas nos preços do gás veicular (5,29%), do etanol (3,02%) e do óleo diesel (13,65%). Os dois últimos contribuíram conjuntamente com 0,06 p.p. no IPCA de março.

Além dos combustíveis, a aceleração do grupo Transportes também está relacionada à alta nos preços de alguns serviços, como o transporte por aplicativo (7,98%), o seguro voluntário de veículo (3,93%) e o conserto de automóvel (1,47%). Os automóveis novos (0,47%) e usados (0,76%) também seguem em alta, embora as variações tenham sido menores que as do mês anterior (1,68% e 1,51%, respectivamente). Nos transportes públicos, a variação positiva do ônibus urbano (1,27%) deve-se aos reajustes nos preços das passagens em Curitiba (20,22%), com reajuste de 22,23% a partir de 1º de março; São Luís (5,14%) com aumento de 5,40%, em vigor desde 27 de fevereiro; Recife (4,86%), reajuste de 9,33%, vigente desde 13 de fevereiro; e Belém (1,11%) com reajuste de 11,11%, a partir de 28 de março.

Ainda em Transportes, o destaque no lado das quedas foram as passagens aéreas, com -7,33% de variação e -0,03 p.p. de impacto. A metodologia aplicada no IPCA considera uma viagem marcada com dois meses de antecedência, ou seja, a variação observada no mês reflete a coleta de preços feita em janeiro para viagens realizadas em março.

Já a aceleração em Alimentação e bebidas (2,42%) decorre, principalmente, da alta nos preços dos alimentos para consumo no domicílio (3,09%). A maior contribuição (0,08 p.p.) dentro do grupo veio do tomate, cujos preços subiram 27,22% em março. Além disso, foram registradas altas em diversos produtos, como a cenoura (31,47%), que acumula alta de 166,17% em 12 meses, o leite longa vida (9,34%), o óleo de soja (8,99%), as frutas (6,39%) e o pão francês (2,97%).

Na alimentação fora do domicílio (0,65%), a refeição, que havia ficado próxima da estabilidade em fevereiro (0,02%), registrou alta de 0,60% em março. Já o lanche teve alta de 0,76%, frente ao 0,85% observado no mês anterior.

Outro grupo a acelerar na passagem de fevereiro para março foi Vestuário, com alta de 1,82%. Todos os itens que compõem o grupo tiveram variação positiva, com destaque para as roupas femininas (2,32%) e os calçados e acessórios (2,05%). Os preços das joias e bijuterias, que haviam caído em fevereiro (-0,36%), voltaram a subir (1,18%).

O grupo Habitação teve alta de 1,15% em março, puxado pelo aumento dos preços do gás de botijão (6,57%). No dia 11 de março, houve reajuste de 16,06% no preço médio de venda do GLP para as distribuidoras. Além disso, a alta de 1,08% da energia elétrica também contribuiu para o resultado do grupo. As variações nas áreas foram desde -3,18% em Recife, onde houve redução de PIS/COFINS, até 4,66% no Rio de Janeiro, onde foram aplicados reajustes de 15,58% e 17,30% nas duas concessionárias de energia pesquisadas, ambos a partir de 15 de março.

Ainda em Habitação, destaca-se a alta de 4,23% no gás encanado. Em Curitiba (24,75%), as tarifas de gás foram reajustadas em 26% no dia 25 de fevereiro. Já no Rio de Janeiro (5,02%), foram aplicados um reajuste no dia 12 de fevereiro, de 2,95%, e outro em 16 de março, de 7,72%. A variação positiva da taxa de água e esgoto (0,11%) decorre dos reajustes em Aracaju (4,79%), de 5,00%, em vigor desde 1º de março; Goiânia (0,89%) com aumento de 8,98%, vigente desde 1º de fevereiro; e Fortaleza (0,22%), reajuste de 6,71%, implementado em 30 de janeiro.

O resultado do grupo Saúde e cuidados pessoais (0,88%) foi influenciado, principalmente, pelas altas dos itens de higiene pessoal (2,25%) e dos produtos farmacêuticos (1,32%). O plano de saúde (-0,69%) segue com variação negativa, refletindo o reajuste negativo de -8,19% aplicado pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) no ano passado.

Região Peso Regional (%) Variação (%) Variação
Acumulada (%)
Fevereiro Março Ano 12 meses
Curitiba 8,09 1,28 2,40 4,20 14,37
Goiânia 4,17 0,91 2,10 3,79 12,18
São Luís 1,62 1,33 2,06 3,98 12,22
Campo Grande 1,57 1,06 1,73 3,44 12,02
Fortaleza 3,23 0,77 1,69 3,21 11,31
Rio de Janeiro 9,43 1,32 1,67 3,64 11,03
Porto Alegre 8,61 0,43 1,61 1,50 10,38
Recife 3,92 0,97 1,53 2,94 11,53
Salvador 5,99 0,83 1,53 3,26 12,13
Vitória 1,86 0,86 1,50 2,96 11,94
Belém 3,94 0,97 1,47 3,12 9,10
São Paulo 32,28 1,05 1,46 3,17 11,04
Belo Horizonte 9,69 1,07 1,44 3,35 10,75
Aracaju 1,03 1,26 1,43 3,64 11,31
Brasília 4,06 0,93 1,41 2,86 9,53
Rio Branco 0,51 0,93 1,35 3,18 12,19
Brasil 100,00 1,01 1,62 3,20 11,30
Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Índices de Preços

 

Todas as áreas pesquisadas tiveram alta em março. A maior variação ocorreu na região metropolitana de Curitiba (2,40%), onde pesaram as altas da gasolina (11,55%), do etanol (8,65%) e do ônibus urbano (20,22%). Já a menor variação foi registrada no município de Rio Branco (1,35%), onde houve queda nos preços das passagens aéreas (-11,33%) e do frango inteiro (-2,10%).

Para o cálculo do índice do mês, foram comparados os preços coletados entre 26 de fevereiro e 30 de março de 2022 (referência) com os preços vigentes entre 29 de janeiro e 25 de fevereiro de 2022 (base). O IPCA é calculado pelo IBGE desde 1980, se refere às famílias com rendimento monetário de 01 a 40 salários mínimos, qualquer que seja a fonte, e abrange dez regiões metropolitanas do país, além dos municípios de Goiânia, Campo Grande, Rio Branco, São Luís, Aracaju e de Brasília.

INPC teve alta de 1,71% em março

Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) teve alta de 1,71% em março, acima do resultado do mês anterior (1,00%). Essa é a maior variação para um mês de março desde 1994, quando o índice foi de 43,08%, no período que antecedeu a implementação do Real. O INPC acumula alta de 3,42% no ano e 11,73% nos últimos 12 meses, acima dos 10,80% observados nos 12 meses imediatamente anteriores. Em março de 2021, a taxa foi de 0,86%.

Os produtos alimentícios passaram de 1,25% em fevereiro para 2,39% em março. Os não alimentícios também aceleraram e registraram 1,50%, frente à variação de 0,92% do mês anterior.

Quanto aos índices regionais, todas as áreas pesquisadas tiveram alta de preços em março. O menor resultado ocorreu na região metropolitana de Belém (1,44%), em função da queda na energia elétrica (-2,98%). A maior variação, por sua vez, ficou com a região metropolitana de Curitiba (2,54%), influenciada pelas altas de 11,55% na gasolina e de 20,22% no ônibus urbano.

Região Peso
Regional (%)
Variação (%) Variação
Acumulada (%)
Fevereiro Março Ano 12 meses
Curitiba 7,37 1,12 2,54 4,18 14,55
Goiânia 4,43 0,99 2,13 3,98 12,29
São Luís 3,47 1,35 2,05 3,93 11,78
Campo Grande 1,73 1,12 1,85 3,73 12,28
Rio de Janeiro 9,38 1,28 1,77 3,65 11,46
Porto Alegre 7,15 0,40 1,71 1,58 10,66
Fortaleza 5,16 0,81 1,67 3,20 11,53
Salvador 7,92 0,87 1,66 3,49 12,80
Recife 5,60 1,07 1,64 3,22 11,55
São Paulo 24,60 1,05 1,58 3,55 12,13
Vitória 1,91 0,84 1,56 2,98 12,25
Rio Branco 0,72 0,92 1,55 3,28 11,77
Aracaju 1,29 1,28 1,49 3,78 11,33
Belo Horizonte 10,35 1,10 1,49 3,56 11,08
Brasília 1,97 0,96 1,46 3,11 10,26
Belém 6,95 0,87 1,44 3,22 8,88
Brasil 100,00 1,00 1,71 3,42 11,73
Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Índices de Preços

 

Para o cálculo do índice do mês, foram comparados os preços coletados entre 26 de fevereiro e 30 de março de 2022 (referência) com os preços vigentes entre 29 de janeiro e 25 de fevereiro de 2022 (base). O INPC é calculado pelo IBGE desde 1979, se refere às famílias com rendimento monetário de 01 a 05 salários mínimos, sendo o chefe assalariado, e abrange dez regiões metropolitanas do país, além dos municípios de Goiânia, Campo Grande, Rio Branco, São Luís, Aracaju e de Brasília.

Luis Paulo Rosenberg
Luis Paulo Rosenberg

Selic x Inflação

De acordo com o renomado economista Luis Paulo Rosenberg (Mestre e Ph.D em economia pela Vanderbilt University dos Estados Unidos) – relativamente à reversão do patamar de dois dígitos da inflação de doze meses vem ficando para o mês que vem há quase um semestre. O repasse para preços domésticos da alta internacional do petróleo vai adiar por mais alguns meses a reversão, mas que poderá ocorrer no começo do segundo semestre. Segundo ele, quando os dados mais favoráveis surgirem, o Banco Central deverá ser conduzido inexoravelmente a baixar a Selic, que pode não fechar o ano acima de 9%. Ele acrescenta: a inflação deverá estar rodando, na margem, próxima de 3%, em dezembro. No entanto, o irônico será o Banco Central cantando vitória, sem remorso pelo sacrifício desnecessário que nos impôs, combatendo com um instrumento de coibir excesso de demanda, uma inflação originada por choques de oferta.

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