Hélio Garcia: O último personagem dos anos dourados da política
Hélio Garcia: O último personagem dos anos dourados da política
Hélio Garcia: O último personagem dos anos dourados da política
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Biografia revela a trajetória incrível do ex-governador mineiro Hélio Garcia

Francisco Câmpera*

Nostalgia é o que sentimos ao ler o livro escrito por Itamar de Oliveira. Dos anos dourados em Belo Horizonte, onde o galã Hélio Garcia era disputado pelas garotas nos salões dos clubes, a boemia nos bares da cidade, e o desfile em seu reluzente Chevrolet pelas ruas da capital mineira; à lendária carreira política onde ele foi crucial no desfecho da ascensão de Tancredo Neves e a fundação da Nova República.

Apadrinhado por uma das maiores raposas da política mineira, Magalhães Pinto, Hélio estreou na política como deputado estadual pela velha UDN em 1962, quando o país estava em plena efervescência social e política.

Filho de um rico fazendeiro e produtor de café, Hélio estudou nos melhores colégios de Belo Horizonte e se formou em Direito. Ele era um homem que se destacava onde passava, era presença constante nas colunas sociais da cidade e, mesmo pertencendo à elite, era um sujeito popular, adorava conhecer e conversar com todo mundo. Ele, dizem os mais velhos, lembrava muito JK – risonho, simpático, original, e tratava os seus oponentes como adversários, não como inimigos. O amor por uma boa prosa e o jeito carinhoso de tratar as pessoas faziam dele um líder nato. Afável sabia muito bem cobrar dos subordinados. Chamava os mais jovens de menino, menina e muitos pelo diminutivo como o seu assessor de imprensa, Márcio Fagundes, o Marcinho.

Os diálogos, aliás, são um dos pontos altos do livro, um verdadeiro romance, uma delícia de ler. Alguns são ficção do autor, onde Hélio conversa com Itamar de Oliveira sobre as passagens de sua vida, e muitos diálogos reais descritos pelos entrevistados. É um livro-reportagem no melhor estilo que se conhece, com depoimentos de familiares e personagens de Minas Gerais e do Brasil, como os ex-presidentes José Sarney, Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso, além de Delfim Neto, Francisco Dornelles, Patrus Ananias, Hélio Costa. Ainda conta com ex-governadores de Minas e do Brasil que conviveram com ele, como Newton Cardoso, Eduardo Azeredo, Pedro Simon, Luiz Antônio Fleury, Ciro Gomes, entre outros.

A ponte para a política foi o tio solteirão, que declinou vários convites para se candidatar e indicou o sobrinho que era o seu companheiro de farra. Depois de terminar o mandato de deputado estadual, foi Secretário do Interior e Justiça, do Governador Magalhães Pinto, que tinha vencido a eleição em 1961 contra Tancredo Neves. Ainda eleito mais duas vezes deputado federal. No auge dos anos de chumbo, com o AI-5 e o fechamento do Congresso, deixou a política e passou a se dedicar aos negócios, na construção civil e no setor bancário. O sucesso empresarial o levou de volta à política, quando assumiu a presidência do banco estatal Minas-Caixa. Lá implantou um ousado plano habitacional, que lembra o atual “Minha Casa, Minha Vida”.

Candidato na chapa de Tancredo Neves para governador de Minas Gerais em 1982, ele também foi coordenador desta dura campanha, vencida com uma margem de apenas 200 mil votos. Na época o governador nomeava o prefeito da capital e a disputa para o cargo era grande, mas para a surpresa de Hélio ele próprio foi o escolhido.

Hélio Garcia tinha o dom de selecionar uma equipe competente, descobriu vários talentos e lançou vários políticos ao longo de sua carreira, como Walfrido dos Mares Guia, Roberto Brant, Saraiva Felipe, Antônio Anastasia. Quando Tancredo deixou o governo para se candidatar à Presidência, ele também virou o coordenador daquela que foi a grande batalha da sua vida e da história do Brasil – a campanha das Diretas Já, o fim da Ditatura Militar, a eleição de Tancredo Neves no colégio eleitoral.

Os favoritos para disputarem a Presidência da República eram o então Governador de São Paulo, Franco Montoro, e o Presidente do MDB, Ulysses Guimarães, que junto com Tancredo formavam a liderança da oposição à Ditadura Militar. Tancredo se tornou candidato e venceu. A habilidade da velha raposa mineira era indiscutível, mas o seu comandante quem estava articulando e operando nos bastidores era ninguém mais do que Hélio Carvalho Garcia.

O aluno aprendeu tanto com os seus mestres que ele foi quem promoveu a paz entre Magalhães Pinto e Tancredo, antigos adversários até então inconciliáveis. A aliança entre os dois tornou Tancredo Neves imbatível. Nas eleições indiretas em 1985, Magalhães, que foi um dos expoentes do golpe militar, ainda era um poderoso e rico político, dono do Banco Nacional, que ajudou na eleição de Tancredo Neves contra Paulo Maluf, que movia mundos e fundos (literalmente) para se eleger.

O professor universitário, jornalista e escritor, Itamar de Oliveira, trabalhou durante cinco anos para fazer as entrevistas, ler e pesquisar bastante para concluir esta obra, que sem dúvida vai se tornar uma referência para quem quer entender a verdadeira arte de fazer política. Muitos detalhes da história do Brasil são revelados ou lembrados, como o convite de Collor para Hélio ser o seu vice. Ele o recusou porque queria se eleito governador diretamente pelo povo, não como vice no passado. A segunda opção foi Itamar Franco. O destino levou Hélio a deixar de ser Presidente da República por amor a Minas Gerais. Depois da morte de Tancredo Neves, ele perdeu muito a paixão que tinha pela política, mas nunca deixou de ser o político apaixonante pelos seus pares e eleitores.

*Jornalista e Presidente da Fundação Roquette Pinto e Diretor-Executivo da TV Escola. Artigo escrito especialmente para MercadoComum.

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