Mozart Foschete

Economista, com Mestrado em Economia pela Kent University, Inglaterra.

Meus caros e raros leitores,
Já não tenho certeza se estou na 45ª semana de confinamento ou se já é a 46ª semana. Esta rotina diária faz a gente perder um pouco a noção do tempo. Também não faz lá muita diferença. Tem dias que me levanto de manhã e levo um tempo pra me lembrar se é 3ª ou 4ª feira, ou se é sábado. Os dias úteis são iguais aos fins de semana. Feriado também não faz diferença. A repetição das tarefas é a mesma no domingo ou na 2ª feira. Geralmente me levanto às 6:30h. Por que tão cedo? – me perguntam. Não sei responder. Deve ser o tal de relógio biológico que me avisa que já chega de dormir.
Mas, como estava dizendo, me levanto, faço o meu breakfast (como sou meio metido, acho legal usar a palavra “breakfast” em vez de café da manhã) e fico no computador lendo algumas coisas, a maioria sem importância – como, por exemplo, que a cantora Beyoncê cancelou um show por live ou que a Annita viajou para Nova York (nada disso me diz respeito), ou que a atriz tal da Globo se separou de seu companheiro (e eu com isso?). Às vezes leio as principais manchetes do jornal londrino “The Times” (não falei que sou metido?), e, depois, começo a escrever algumas coisas, como esta crônica, por exemplo. Nisso, minha manhã já se foi.
Depois do almoço, me ponho a ler, normalmente deitado no sofá. Primeiro, leio a Folha de S.Paulo, depois livros. Tenho lido todos aqueles livros grossões que eu jamais leria não fosse essa pandemia. Mais à tardinha, já anoitecendo, faço um lanche – quase sempre a mesma coisa. Geralmente um sanduíche. Adoro sanduíche, seja lá de que sabor for. Na idade em que estou, me permito fugir de uma dieta “sadia”. Como o que gosto e o que me agrada e zé fini! E, antes de dormir, vejo um filme ou uma Série da Netflix ou da HBO. E meu dia acaba, tendo certeza de que amanhã vou repetir as mesmas coisas.
Como já disse e repeti trocentas vezes, quase não vejo noticiários de TV. Às vezes vejo uns dez minutos de manhã, enquanto tomo meu café, pra ver se há algo de novo além do Coronavirus e das vacinas. O Jornal Nacional, da Globo, já não assisto há mais de ano. Podem até pensar que estou exagerando, mas não aguento mais sequer ouvir a voz monocórdia do Bonner e da Renata. Me dá azia e a cabeça pesa. Receio ficar demente. A Miriam Leitão, então…nossa! Haja estômago. Vai ser feia, trem! Será que a Globo não consegue uma analista de Economia uma pouco mais bonitinha, não? Ou menos feia? Além de feia, tem um cabelo horroroso.
Assistir à Globo News não dá mais. É o programa do pensamento único. Todos têm a mesma opinião sobre o governo do Bozo e suas estapafúrdias declarações, sobre a Covid e sobre a eficácia das vacinas. O dia que o Bozo não fala alguma bobagem ou não se mostra autoritário, os comentaristas do pensamento único quase não têm o que falar. Não sei o que será deles quando a Covid for embora e o Bozo parar de falar idiotices ou deixar a presidência. Vão perder o emprego, certamente.
Eu agora dei para conversar com as duas plantas que cultivo aqui no meu apartamento e também com as paredes e com meus livros. Mas, um meu amigo médico me disse para eu não me preocupar com isso, não. Disse-me que é normal em tempos de pandemia prolongada. Só deverei me preocupar um pouco quando eles começarem a me responder. Fiquei mais tranquilo. Outro dia tive a impressão que uma das plantas tinha feito um comentário comigo. Mas, depois concluí que tinha sido mesmo só impressão minha.
Mas o assunto do momento são as vacinas que começaram a pipocar por todos os lados. A mais falada é a vacina Doria-chinesa-Butantan – que eles chamam de Coronavac. Eu até fiquei um pouco esperançoso que, enfim, tínhamos uma vacina de alta eficácia. No início, o Doria andou divulgando que sua eficácia era de 91%. Depois, na hora do vamos ver, o Instituto Butantan afirmou que sua eficácia era só de 78% – mas ninguém mais que fosse vacinado morreria de Covid. Agora, pressionado mais ainda pela “comunidade científica (sei lá que porra é essa, nem onde fica!), o Instituto Butantan disse que sua “eficácia geral” era de 50,3% – a continha pra poder ser aprovada pela tal Anvisa. Se fosse 49,99%, não seria aprovada. Agora, estou já com um pouco de pressa para tomar esta vacina antes que sua eficácia caia mais ainda.
Na época que eu assistia televisão, eu só via entrevistas com epidemiologistas e infectologistas, todos alarmistas. Me disseram que continua a mesma coisa até hoje. O discurso deles todos é uniforme e na mesma linha, principalmente se você está vendo a Globo. Nosso sistema de saúde não é, certamente, o melhor e o mais bem equipado do mundo. Mas, certamente, é o que tem mais infectologistas, epidemiologistas e intensivistas no mundo. Não imaginava que eles fossem tantos. Onde este pessoal estava antes dessa pandemia? O que faziam pra sobreviver?
Até outro dia, quando as vacinas estavam longe de aparecer, eu declarava em alto e bom som que – caso eu pegasse a Covid, ou o contrário, caso a Covid me pegasse – eu estava disposto a tomar cloroquina, hidroxicloroquina, azitromicina, ivemectina, xilocaína, cocaína, janaína e outo inas. Declarei que aceitaria até fosse colocada uma ferradura atrás da porta de meu quarto. Logo eu que sou o cara mais céptico e cartesiano do universo.
E pra terminar, outro dia, fiquei sabendo que estava havendo um grande seminário médico internacional em São Paulo pra tratar de mortes por ataques cardíacos e AVCs. Agora, leio também na Folha de S. Paulo uma grande reportagem sob o título: “Médicos discutem em live os avanços na luta contra o câncer”.
Estranhei estas notícias. Eu estava crente que mortes por ataques cardíacos, por AVC e de câncer já tinham sido erradicadas de nosso país. Sim, porque desde que apareceu por aqui esse tal de Covid-19, não há mais notícias dessas mortes. Cheguei até a pensar que, se eu me cuidar bem contra o coronavirus e se dirigir com cuidado, não morro tão cedo, já que as outras causas de morte estavam eliminadas.
Se vou tomar essas vacinas que estão chegando por aí? Certamente, sim, e de preferência a de Oxford, porque confio na Inglaterra. Sou capaz de tomar até a Coronavac – mesmo com sua baixa taxa de eficácia. Mas, vacina russa, nem pensar. Sputnik pra mim é nome de nave espacial. Vá que ela me mande lá pro espaço!
Vacinem-se para se livrarem da Covid e usem máscara sempre. E, para preservar sua saúde mental, basta desligar o botão da TV, principalmente os noticiários da Globo.
Já nem me lembro como era o mundo antes desse Covid.
Chantecler.


Esse artigo não reflete necessariamente a opinião de MercadoComum