*Por Benedito Nunes

O dia amanheceu aparentemente sem novidades. Um dia de sábado encoberto, início de março, ainda silencioso, afinal a manhã ainda se espreguiça, desfazendo-se do sono da noite anterior. Mas logo percebo que o dia propõe ser diferente, a começar pelo impulso de escrever este texto e registrar algumas impressões mais recentes, acerca de um tema que vem ganhando cada vez mais força midiática e que, portanto, vai ocupar agendas variadas ainda por muito tempo: a Felicidade. Proponho instruir a elaboração dessa conversa com duas experiências recentes, altamente positivas e que me propõem algumas reflexões que espero poder organizar nas linhas seguintes para compartilhar com os que tiverem paciência de ler até o final.

Começo pela manhã de ontem, quando fui convidado a participar de um conceituado programa de rádio em Belo Horizonte, mas de abrangência nacional, conduzido por um competente jornalista, ao mesmo tempo muito sério, mas que se permite ser leve e amigável em sua abordagem, deixando seus convidados muito à vontade para se expressarem. Falamos por cerca de quinze minutos sobre essa tal felicidade e creio que, juntos, pudemos contribuir para uma percepção organizada e fundamentada dos ouvintes sobre o que nos faz felizes ou infelizes e como podemos assegurar essa condição por um tempo mais longo, o que podemos fazer naqueles dias em que parece que a felicidade não veio ao nosso encontro. Um resumo do que discutimos é que, primeiramente, a felicidade se baseia na simplicidade. Coisas simples nos fazem felizes.

Mas não apenas a simplicidade das coisas, principalmente a forma como nos relacionamos com elas. Duas pessoas podem ter e certamente terão opiniões diferentes sobre uma mesma questão. Um exemplo clássico é sobre o copo meio cheio ou meio vazio. Outra coisa importante: nossas escolhas. Assim como em um jogo de baralho, no qual a vitória será consequência das cartas que escolhemos e da estratégia que adotamos em função dessas escolhas, maiores ou menores índices de felicidade dependerão de nossas escolhas diante das circunstâncias do jogo da vida e como lidamos com elas. Uma combinação de escolhas e circunstâncias produz as relações e são elas que asseguram esse estado geral de felicidade mais ou menos permanente que experimentamos. Ser feliz, todavia, exige atitude. Como nos ensina Chico Xavier ao mencionar que “a felicidade não entra em portas que estão fechadas”. É preciso abrir nosso coração e isso depende essencialmente de nós, de como nos formamos enquanto seres humanos e de como reagimos, a partir dessa formação diária, frente às circunstâncias da vida.

Talvez a linguagem figurada nos dê um exemplo mais claro para compreendermos isso: imaginemos um ambiente, uma sala, um escritório ou um quarto, por exemplo, em que ligamos o aparelho de ar condicionado. A temperatura escolhida é nossa decisão (às vezes quando compartilhamos esse espaço precisamos negociar permanentemente a temperatura, já que o outro pode ter uma percepção diferente sobre frio ou calor). A partir do momento em que definimos a temperatura que mais nos agrada, o que acontece fora desse ambiente não vai interferir em nossa sensação térmica. Isso pode ser uma boa definição de felicidade. Manter-se em equilíbrio, com uma confortável sensação de bem-estar interior, sem se deixar influenciar pelo que acontece fora do seu ambiente. Reagir bem, sempre que possível, diante das circunstâncias da vida.

Ao final do dia anterior, uma outra experiência muito interessante (inclusive pela experiência de compartilhá-la com a família): assisti ao filme candidato ao Oscar, “A forma da água”, de Guilhermo Del Toro. Uma fábula moderna que, em síntese, mostra como a determinação em ser feliz pode ser uma armadura protetora em relação aos males do dia a dia. A escolha de ser feliz (repetindo, cada um é feliz a seu modo), nos protege contra todas forças que insistem em nos dizer que a felicidade é uma utopia, que a felicidade não existe, que o sofrimento é que nos impulsiona e tantas outras inverdades que são impostas diariamente pelos canais de comunicação e pelas redes sociais (que nós escolhemos acompanhar). A narrativa nos mostra também outra coisa importante, agora convidamos Albert Einstein para nossa conversa para dizer que “felicidade não é a ausência de problemas, mas sim aprender a lidar com eles”. Em síntese, o filme traz uma poderosa abordagem da força do propósito, a despeito das barreiras, do poder das emoções, a despeito da indiferença e do valor da coragem, a despeito da aparente fragilidade para, no final, celebrar o alcance do sonho.

Acredito que felicidade é isso mesmo, um perfume no ar que reorganiza as nossas sensações, que estrutura nossa compleição emocional e nos prepara todos os dias para as lutas do cotidiano. Infelizmente ela também abre espaços para algumas oportunidades não recomendáveis como quando alguém nos oferece, por exemplo, sete maneiras eficazes de ser feliz. Ou promete em uma sequência de sessões de entrevistas mudar para sempre nossas vidas. Pura invencionice. Ser feliz é uma escolha e ninguém pode escolher isso por nós. Simples assim. O poder de ser feliz está em nós, é nato e inerente aos seres vivos.

Por fim, um importante aliado para caminhar conosco ao lado da felicidade: a gratidão. Por isso, agradeço ao companheiro Eduardo Costa da Radio Itatiaia que disponibilizou a oportunidade para conversarmos sobre felicidade no seu programa de rádio, a Guilhermo del Toro por me permitir aprender ainda mais sobre felicidade, em uma narrativa que concorre com toda justiça ao Oscar 2018, e aos amigos que certamente, ao lerem esta reflexão, contribuirão com suas opiniões para que ela seja aprimorada e ganhe relevância no propósito de espalhar a felicidade.

Benedito Nunes, Diretor de Sentido do IMF


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