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Presidente do Conselho Regional de Economia de Minas Gerais

MC – Como você poderia definir o economista, professor e pai de família Cláudio Gontijo.

CG – É muito difícil falarmos sobre nós mesmos, até porque ninguém é bom advogado em causa própria. Sou casado com a bióloga, ambientalista e professora Izabel Francisca de Souza Novaes, com a qual temos um filho de 9 anos – o Cláudio Augusto. Além desse filho, tenho dois enteados, lutadores de Muay Thai – o Diogo, com 21 anos, estudante de Psicologia e funcionário de uma incorporadora, e a Lulu (Ana Luiza), de 15 anos e estudante do Sebrae. Depois de mais de trinta anos conjugando a vida de consultor em economia e de professor em regime parcial na UFMG e em outras Universidades, me tornei professor em regime de tempo integral da UFMG, lecionando nos Cursos de Ciências Econômicas e de Relações Econômicas Internacionais.
Comecei minha vida profissional como técnico da Fundação

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João Pinheiro e como professor da PUC, mas com a deterioração dos salários e a degradação das condições de trabalho, deixei a FJP em 1984. Em 1992, a convite do então Secretário do Planejamento, Paulo Paiva, assumi a
diretoria de assuntos econômicos da FJP, mas pedi demissão logo que percebi que não havia qualquer interesse por parte do governo do Estado em resgatar a instituição. Em 1999, a convite do Secretário Adjunto da Fazenda de Minas Gerais, o professor Fabrício Augusto de Oliveira, assumi a chefia da Assessoria Econômica dessa Secretaria durante o governo Itamar Franco, tendo, inclusive, exercido as funções de Assessor Econômico do próprio governador, além de membro do Conselho da CEMIG e do Conselho Curador da FAPEMIG.

Também a convite, desta feita do então Diretor Geral da Faculdade Estácio de Sá de Belo Horizonte, Carlos Alberto Teixeira de Oliveira, assumi a Diretoria Acadêmica da instituição em 2000, tendo, contudo, não ficado muito tempo no cargo, devido às dificuldades em compatibilizar minhas funções no
governo mineiro com as atividades dessa Diretoria. Voltei, contudo, à Estácio de Sá como professor e Coordenador do Curso de Gestão Financeira até junho de 2009. Atualmente, além de professor da UFMG, sou Presidente do Conselho Regional de Economia Minas Gerais.

“O país precisa retomar
a industrialização”

Autor de “Subprime: os 100 Dias que Abalaram o
Capital Financeiro Mundial”, publicado em março de
2009 e de “A Crise da Dívida Soberana da Europa”, o
economista Cláudio Gontijo assumiu no início de 2012
a presidência do Corecon-MG – Conselho Regional de
Economia de Minas Gerais. Nesta entrevista, ele faz uma
avaliação do atual momento econômico brasileiro e do
governo Dilma Rousseff, defendendo que o país não
pode perder a oportunidade de retomar uma trajetória
voltada para a industrialização. “No presente contexto
histórico, já há ambiente favorável para o renascimento
do nacional desenvolvimentismo”, defende Gontijo.

Como foi a sua formação acadêmica?

Formei-me em Economia pela Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG em dezembro de 1976, ingressando,
em seguida, no Mestrado de Economia da UNICAMP. Em 1987 fui para Nova York como aluno do Curso de Doutorado da New School for Social Research, tendo sido orientado inicialmente pelo professor Ednaldo Araquém da Silva, com PhD por Berkeley. A minha tese foi sobre as relações entre moeda, juros e determinação do nível de preços foi orientada pelo professor e Lorde John Eatwell, mas defendida sob a responsabilidade do professor norte-americano, Eduard Nell. Resumo dela foi publicado na Revista Brasileira de Economia.

Qual a importância do economista para a sociedade brasileira?

Feliz e infelizmente, o economista é peça fundamental em todas as sociedades modernas, tanto no Brasil quanto
em qualquer país no mundo. Não tanto pelo seu trabalho profissional no setor público e no privado, em empresas e em outras organizações, analisando orçamentos, examinando projetos, dirigindo atividades, etc. Nem tampouco como pesquisadores nas universidades, estudando assuntos do maior interesse para todos. Mas essencialmente pelo seu papel como formadores da opinião pública, como elementos que contribuem para a formatação da ideologia dominante, que, em larga medida, condiciona a própria política econômica, para não falar na ação de todos, particularmente dos homens de negócio. Tome-se, por exemplo, a crise do subprime, que, tendo eclodido em outubro de 2008, continua hoje através da crise europeia. Essa crise não teria ocorrido sem a onda de privatizações e desregulamentações que se iniciaram com os governos Thatcher (1979-1990), na
Inglaterra, e Reagan (1981-1989), nos EUA, que se tornaram possíveis, em certa medida, com a propagação das ideias de um conjunto de economistas ideológicos, inspirados também por um economista – Milton Friedman. As próprias reformas do governo Fernando Henrique Cardoso, que mataram o desenvolvimento industrial brasileiro e estão causando a reprimarização da nossa economia, foram inspiradas, em larga medida, por economistas ideológicos. Como resultado do novo “modelo” econômico, de natureza neoliberal, a participação brasileira no PIB industrial do mundo recuou de 3,5% em 1985 para menos de 1,9% em 2010, e o ritmo de crescimento da economia brasileira, que tinha sido de 6,5% entre 1947 e 1980, recuou para somente 3,5% a partir do governo FHC.

Que avaliação o senhor faz da economia brasileira atual e do governo Dilma Rousseff?

Sem sombra de dúvida, o governo Dilma Rousseff trouxe consigo um expressivo avanço em relação ao governo Lula da Silva, que somente apresentou resultados favoráveis graças ao extraordinário desempenho da economia mundial durante o seu último ciclo de expansão, entre 2003 e 2007 em que se expandiu a um ritmo anual de 4,8%, e ao aumento espetacular da importação de commodities por parte da China. Mas foi uma fase em que se acentuou o processo de desindustrialização no Brasil, com a reprimarização de sua pauta de exportações e o aumento acentuado do coeficiente de importação. No governo Dilma Rousseff já assistimos à expressiva queda da taxa de juros, com a Selic atingindo o seu patamar mais baixo em toda a história, e a valorização do dólar, para não falar nas políticas anticíclicas, que foram implementadas tão logo a economia mundial ingressou
em nova fase de turbulências, em razão da crise europeia.
Também tem demonstrado a presidente maior sensibilidade e entendimento de problemas cruciais, como o ambiental. A crítica que se pode fazer ao seu governo é tanto as medidas anticíclicas como a política industrial que ainda são muito tímidas em relação ao que deveria ser feito. No presente contexto histórico, já há ambiente favorável para o renascimento do nacional desenvolvimentismo, e a presidente Dilma não deveria perder essa janela de oportunidade para que o país retornasse à sua trajetória de industrialização, interrompida pelas medidas neoliberais.

Como você define o processo de desindustrialização e de reprimarização da economia brasileira.

A desindustrialização/reprimarização da economia brasileira são a consequência necessária da hegemonia dos
banqueiros e investidores, que passaram a controlar a política econômica brasileira desde o governo Fernando Henrique Cardoso, assim como das políticas implementadas a partir de então, particularmente a privatização e a liberalização do comércio exterior, para não falar na valorização da moeda nacional. Priorizando a pseudo “criação de valor” de curto prazo para os acionistas, em lugar da rentabilidade e do crescimento no longo prazo, as empresas privatizadas reduziram seus investimentos, como no caso da siderurgia e do setor energético, para não falar naquelas que foram fechadas pelas multinacionais, das quais se tornaram subsidiárias, como no caso da indústria de fertilizantes. Com a abertura comercial, num contexto de altas taxas de juros, ausência de créditos competitivos para os exportadores e, pior do que tudo, valorização da moeda nacional a partir de meados do primeiro governo Lula, assistiu-se à invasão de manufaturados importados, inclusive da China, que conta
com moeda desvalorizada, baixos custos salariais, subsídios governamentais e crédito barato de longo prazo. Embora, em razão dos elevados preços das commodities, esse processo não preocupe os economistas ideológicos, ele está na raiz da acelerada ampliação do déficit em conta corrente, que, no devido tempo, fará o Brasil mergulhar em nova crise econômica.

Como o senhor avalia a atual situação da economia de Minas Gerais e as suas perspectivas no curto, médio e longo prazos?

Devido à relativa especialização em insumos básicos, a economia mineira é particularmente vulnerável às turbulências que afetam a economia brasileira, como owcorre atualmente. É, também, sensível às flutuações dos preços de commodities, como café e minério de ferro, que, felizmente, estão num patamar elevado. Como, contudo, a exportação de minério de ferro não paga impostos, os benefícios para Minas Gerais são praticamente nulos. No balanço geral, portanto, a exemplo do que ocorreu em 2009, Minas está sofrendo muito com a crise internacional, podendo se esperar, inclusive, uma queda do PIB neste ano. Quanto às perspectivas de médio e
longo prazo, essas tampouco são alvissareiras, em razão da tendência ao aumento da concentração da economia mineira em seus setores tradicionais, à crise da siderurgia nacional, que não tem sido capaz de enfrentar a concorrência externa e, acima de tudo, à ausência de projetos estruturantes que promovam a diversificação da indústria mineira. O governo do Estado deveria aproveitar o fato de termos uma mineira na Presidência da República e um mineiro à frente do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior – Fernando
Pimentel, para instalar em Minas empresa de componentes microeletrônicos, o que contribuiria decisivamente para diversificar a economia estadual e reduzir o rombo na balança de transações correntes do País.

Qual é a sua visão sobre o endividamento do Estado de Minas Gerais e a sua capacidade de pagamento?

A dívida consolidada do Estado de Minas Gerais atingiu R$ 74,406 bilhões em 31 de dezembro do ano passado,
correspondendo a 199,57% da receita corrente líquida anual do setor público mineiro. Embora esteja abaixo do
limite estabelecido pelo Senado (200%), sua trajetória te sido motivo de preocupação de todos aqueles que se
debruçam sobre o assunto, haja vista que a mesma era de R$ 34,699 bilhões em 31 de dezembro de 2002. Tomandose em conta que a inflação ocorrida nesse período foi de aproximadamente 75%, tem-se que a dívida cresceu 22,5% em 8 anos, não obstante o Estado ter alocado mais do que 13,3% da sua receita líquida real ao pagamento dos encargos da mesma. Os motivos desse descalabro têm sido os elevados encargos da dívida com a União (variação do IGP-DI mais 7,5% ao ano) e com a CEMIG (8,18% a.a. mais variação do IGP-DI), para não falar no retorno do Estado ao mercado de crédito, a partir de 2006, contratando mais e novas dívidas. O pior é que, conforme registrou o Relatório do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais de 2011, referente a 2010, a não ser que a economia mineira acelere em pelo menos 0,6% o seu ritmo de crescimento médio até
2028, em relação ao observado nos quinze anos anteriores, o Estado terá de alocar 17,06% da Receita Corrente Líquida (correspondendo a 16,865% da dívida com a União e 0,19% das outras dívidas) para saldar a dívida nos próximos dez anos, conforme o acordado com a União em 1997.

Obviamente, isso significaria o total colapso da prestação de serviços públicos, configurando um cenário pior do
que o enfrentado atualmente pelos governos dos países europeus diante da crise da dívida soberana. Por isso, é
importante que compreendamos o problema e, juntos das lideranças mineiras possamos nos posicionar para que sejam modificadas as draconianas condições da dívida do Estado para com a União, e que representa aproximadamente 85% do total da dívida consolidada do mesmo. Juntamente com a ASSEMG-Associação dos Economistas de Minas Gerais, o CORECON-MG e a revista MercadoComum estamos, nós e vários economistas mineiros há mais de dez anos alertando para essa conflitiva situação, em que deixa Minas literalmente refém da União. Restaria, contudo e ademais, ainda, equacionar a dívida do Estado para com a CEMIG, que se aproxima de R$ 6 bilhões, e que tem encargos mais pesados do que o com a União.

O senhor e o economista Fabrício Augusto de Oliveira estarão lançando em breve o livro intitulado A Crise da Dívida Soberana da Europa. Fale-nos sobre ele.

Trata-se, na verdade, da continuação do livro Subprime: os 100 Dias que Abalaram o Capital Financeiro Mundial, publicado em março de 2009. Nele, analisam-se as raízes da crise da dívida soberana da Europa, que, a partir de fins de 2009, envolveu os “PIGS” – acrônimo que designa Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha (Spain, em inglês) – ou PIIGS, por ter incluído posteriormente a Itália, causando nova onda de turbulência global. Para tanto, examina, ainda que de forma sucinta, a gênese histórica da União Monetária Europeia, em conexão com o desenrolar da economia mundial desde a década de 1970, as bases teóricas dos dispositivos econômicos
do Acordo de Maastricht e da política econômica da União, assim como a evolução dos principais indicadores
econômico financeiros do bloco e dos “PIGS” até fins de 2010. Demonstra que a tese conservadora, segundo a qual a crise se originou na irresponsabilidade dos governos dos PIGS, que teriam abraçado políticas populistas, recusando-se a equilibrar o orçamentário e reduzir a dívida durante o período de “vacas gordas” da economia internacional, carece de sentido. Antes pelo contrário, mostra que, em grande medida, a crise somente tomou a dimensão atual por terem os bancos europeus falidos sido socorridos pelos Tesouros Nacionais, diante da impassividade do Banco Central Europeu, que inicialmente se recusou a intervir. Mas do que isso, a crise também se deve às políticas errôneas da União Monetária Europeia, que cercearam o crescimento econômico dos
PIGS, para não falar nas medidas de ajuste que têm sido implementadas, as quais têm agravado a crise, gerando o que promete ser uma verdadeira “década perdida” para o bloco.

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