Desarmar a armadilha dos juros altos e do baixo desenvolvimento

Desarmar a armadilha dos juros altos e do baixo desenvolvimento
Carlos Alberto Teixeira de Oliveira

Carlos Alberto Teixeira de Oliveira*

Em 2022, a título de despesas de juros nominais, o setor público brasileiro consolidado pagou R$ 586,4 bilhões – ou US$ 113,4 bilhões – o equivalente a 5,96% do PIB-Produto Interno Bruto

“Pretender solucionar a crise nacional com remédios prescritos para o único fim da estabilidade, como se fosse o Brasil uma terra esgotada e um povo exausto, necessitando de equilibrar as poucas forças que ainda lhe restassem, seria semelhante ao intento de se tratarem as crises da puberdade com medicamentos destinados a mitigar a senectude”. (Texto extraído do livro “A Marcha do Amanhecer”, de autoria de JK e publicado em 1962)

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De acordo com o Banco Central do Brasil, o setor público consolidado brasileiro obteve, em 2022, superávit primário de R$ 126,0 bilhões – correspondente a 1,28 % do PIB – Produto Interno Bruto, ante superávit de R$ 64,7 bilhões (0,73% do PIB) em 2021.

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Em 2022, os juros nominais do setor público consolidado, apropriados pelo critério de competência, alcançaram R$ 586,4 bilhões – equivalentes a 5,96% do PIB, ante R$ 448,4 bilhões (5,04% do PIB) em 2021. Os juros nominais atingiram R$ 59,0 bilhões em dezembro, comparativamente a R$ 54,4 bilhões em dezembro de 2021.

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O resultado nominal do setor público consolidado, que inclui o resultado primário e os juros nominais apropriados, foi deficitário em R$ 460,4 bilhões, equivalentes a 4,68% do PIB em 2022, ante R$ 383,7 bilhões (4,31% do PIB) em 2021.

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Com o superávit primário de 2022, de 1,28% do PIB, o setor público consolidado manteve a trajetória de melhoria do resultado primário observada desde 2017, interrompida somente em 2020, em função dos impactos econômicos e sociais da pandemia.

Apesar do fechamento com elevado superávit em 2022, houve clara deterioração da posição fiscal dos entes regionais ao longo do ano (Fig. 1). Até maio, os superávits mensais superaram o máximo observado nas duas últimas décadas. No entanto, com a entrada em vigor alíquotas reduzidas de ICMS sobre energia elétrica, combustíveis, telecomunicações e transporte coletivo, em meados do ano já começa a haver piora nos resultados. No último trimestre, os resultados passam a ser registrados abaixo dos mínimos históricos do período analisado.

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Em 2022, a Dívida Líquida do Setor Público –   DLSP atingiu 57,5% do PIB e correspondente a R$ 5,658 trilhões, com elevação anual de 1,7 p.p. do PIB. Esse aumento decorreu, sobretudo, dos juros nominais apropriados (+6,0 p.p.), da variação da paridade da cesta de moedas que integram a dívida externa líquida (+1,4 p.p.) e do efeito da valorização cambial de 6,5% no ano (+1,0 p.p.), parcialmente contrabalançados pelo crescimento do PIB nominal (-5,3 p.p.) e pelo superávit primário (-1,3 p.p.).

A Dívida Bruta do Governo Geral – DBGG – que compreende o governo federal, INSS e governos estaduais e municipais – atingiu 73,5% do PIB (R$ 7.224,8 bilhões) em 2022. No ano, a relação DBGG/PIB reduziu-se 4,8 p.p. Os principais fatores para queda do indicador foram menores emissões liquidas de dívida e o forte crescimento do PIB nominal no período.

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BRASIL – DÍVIDA PÚBLICA CONSOLIDADA EM RELAÇÃO AO PIB-PRODUTO INTERNO BRUTO

(União, Estados e Municípios)

– 2001/2021 – Em %

Ano                 Líquida            Bruta

2001                50,22               67,33

2002                59,18               76,10

2003                53,15               71,51

2004                48,88               68,03

2005                46,19               66,97

2006                46,49               55,48

2007                44,55               56,72

2008                37,57               56,98

2009                40,88               59,21

2010                37,98               51,77

2011                34,47               51,27

2012                32,19               53,67

2013                30,50               51,54

2014                32,59               56,28

2015                35,64               65,51

2016                46,15               69,84

2017                51,37               73,37

2018                52,77               75,30

2019                54,70               74,44

2020                61,37               88,59

2021                55,82               78,29

2022                57,52               73,45

Fonte: Banco Central/MinasPart Desenvolvimento

Nos últimos 29 anos (1995 a 2023) o Brasil já pagou despesas de US$ 2,32 trilhões a título de juros nominais sobre a dívida pública – somente nos dez últimos anos foi gasto US$ 1,10 trilhão

Nos últimos 29 anos (1995 a 2023) o Brasil já pagou despesas de US$ 2,32 trilhões a título de juros nominais sobre a dívida pública – somente nos dez últimos anos foi gasto US$ 1,10 trilhão

De acordo com dados do Banco Central, de 1995 a 2023 o Brasil já gastou, a título de despesas de juros nominais sobre a sua dívida pública a impressionante cifra de US$ 2,32 trilhões – o equivalente a mais de uma vez o PIB – Produto Interno Bruto do país (a soma de todos os bens e serviços produzidos) e que deve ter totalizado, no ano de 2022, US$ 1,90 trilhão. Somente durante os últimos dez anos essa despesa atingiu US$ 1,10 trilhão e só vai piorar: as estimativas apontam que no primeiro ano do mandato de Lula o país deverá gastar US$ 173,74 bilhões, batendo todos os recordes da série histórica iniciada em 1995. Imagine se ¼ dessa despesa tivesse sido usada em infraestrutura básica, saneamento e estradas principalmente. Com toda a certeza o Brasil de hoje seria absolutamente diferente e melhor!

O governo campeão em gastos com juros nominais sobre a dívida pública bruta foi o da presidente Dilma Rousseff que, em seis anos, totalizou pagamentos de US$ 773,81 bilhões – o que corresponde a uma média anual de US$ 128,97 bilhões.

Esse exagerado volume de recursos gastos no pagamento de juros sobre a dívida pública brasileira decorre, principalmente, da nefasta e equivocada política monetária adotada pelos governantes do país durante parte significativa de quase todo esse período, o qual também ficou conhecido como um dos períodos de menores níveis de investimentos públicos já praticados e de crescimento medíocre ou de queda do PIB.

Há de se destacar de outro lado que, durante boa parte desse período, a política monetária brasileira atuou praticamente na contramão do resto do mundo que implementou uma das menores taxas de juros e, em muitos casos, de forma negativa – quando comparadas às suas respectivas inflações.

QUANTO O BRASIL PAGOU DE JUROS NOMINAIS SOBRE A DÍVIDA PÚBLICA – PERÍODO DE 1995 A 2019

Governo                                             US$ bilhões

Total                   Média Anual

Fernando Henrique Cardoso –

1995/2002                                           362,14                        45,27

Luis Inácio Lula da Silva –

2003/2010                                           600,56                        75,07

Dilma Rousseff –

2011/2016                                           773,81                         128.97

Michel Temer –

2017/2018                                           228,87                        114,44

Jair Bolsonaro –

2019/2022                                           349,90                          87,48

Total                                               2.315,28

Fonte: Banco Central do Brasil – MinasPart Desenvolvimento

Nos últimos 29 anos (1995 a 2023) o Brasil já pagou despesas de US$ 2,32 trilhões a título de juros nominais sobre a dívida pública – somente nos dez últimos anos foi gasto US$ 1,10 trilhão a

BRASIL – DESPESAS DE JUROS SOBRE A DÍVIDA PÚBLICA BRASILEIRA TOTAL*

Ano

Ano                 PIB – US$ BILHÕES             JUROS-%       DESPESA – US$ BILHÕES

FHC 1

1995                   770,35                                 6,75                             52,00

1996                   840,27                                 5,16                             42,36

1997                   871,27                                 4,54                             39,56

1998                   863,39                                 8,03                             69,35

Total                                                                                                204,17

Média Anual                                                                                       51,10

 

FHC 2

1999                   599,04                                  6,50                             38,95

2000                   658,42                                  6,60                             43,46

2001                   559,37                                  6,56                             36,91

2002                   507,96                                  7,61                             38,65

Total                                                                                                157,97

Média Anual                                                                                       39,49

 

FHC 1 + 2

Total                                                                                                362,14

Média Anual                                                                                       45,27

 

LULA 1

2003                   559,31                                  8,42                             47,08

2004                   669,15                                  6,57                             43,94

2005                   891,74                                  7,28                            64,95

2006                1.106,72                                  6,72                             74,37

Total                                                                                                230,34

Média Anual                                                                                       57,59

 

LULA 2

2007                1.396,22                                  5,98                             83,42

2008                1.693,62                                  5,32                             90,13

2009                1.672,79                                  5,13                            85,83

2010                2.204,51                                  5,03                          110,84

Total                                                                                                370,22

Média Anual                                                                                       92,56

 

LULA 1 + 2

Total                                                                                                  600,56

Média Anual                                                                                       75,07

 

DILMA 1

2011                2.613,37                                  5,41                          141,33

2012                2.465,21                                  4,44                          109,51

2013                2.467,76                                  4,67                          115,20

2014                2.454,20                                  5,73                          140,63

Total                                                                                                506,67

Média Anual                                                                                    126,67

 

DILMA 2

2015                1.795,85                                  8,37                          150,29

2016                1.799,87                                  6,49                          116,85

Total                                                                                                267,14

Média Anual                                                                                    133,57

DILMA 1 + 2

Total                                                                                                  773,81

Média Anual                                                                                      128,97

 

TEMER

2017                2.063,24                                  6,09                           125,59

2018                1.915,91                                  5,41                          103,28

Total                                                                                                228,87

Média Anual                                                                                    114,44

 

BOLSONARO

2019                1.872,51                                  4,97                             93,08

2020                1.475,36                                  4,106                           60,58

2021                1.649,98                                  5,04                             83,13

2022                1.897,12                                  5,96                          113,11

Total                                                                                                349,90

Média Anual                                                                                       87,48

 

LULA 3   

2023*              1.960,52                                  8,86                          173,74

*Estimativa

Fonte: Banco Central/LCA Consultores/MinasPart Desenvolvimento

Em 2023, governo Lula deverá gastar no pagamento de juros nominais US$ 173,74 bilhões – recorde da série histórica

Em 2023, governo Lula deverá gastar no pagamento de juros nominais US$ 173,74 bilhões - recorde da série histórica

Desproporcionalidade

Em 2022, os Estados Unidos gastou, a título de pagamento de juros nominais sobre a dívida pública a importância de US$ 852,599 bilhões – equivalentes a 3,26% do PIB-Produto Interno Bruto, calculado em US$ 26.144,96 bilhões. Vale ressaltar que o PIB norte-americanos era 13,3 vezes maior do que o brasileiro – de US$ 1.960,52 bilhões e a dívida bruta do país correspondia a 122,10% do PIB (enquanto a brasileira era de 73,45%). No mesmo período o Brasil gastou, a mesmo título de juros nominais, a importância de US$ 113,11 bilhões e que correspondiam a 5,96% do PIB nacional. Ademais, em 2022 o setor público brasileiro consolidado pagou juros nominais totais que correspondiam a 13,3% do valor pago pelos Estados Unidos – enquanto o PIB nacional equivalia tão-somente a 7,5% ao daquele país.

Selic segue em 13,75% ao ano e deverá ser mantida neste patamar por mais tempo

Selic segue em 13,75% ao ano e deverá ser mantida neste patamar por mais tempo

O Copom – Conselho de Política Monetária do Banco Central do Brasil manteve a sua taxa básica de juros, a Selic, em 13,75% ao ano. São taxas de juros muito altas, sob qualquer aspecto que se possa observar. Batendo nas vizinhanças de 7,5% ao ano, é a maior taxa de juros real (descontada a inflação prevista para os próximos 12 meses) do mundo, no momento. A do México, 2ª maior, está em 5,5%, enquanto a do Chile, 3ª mais alta, vai a 4,7%. O nível nominal dos juros básicos brasileiros, no momento, é mais do dobro da própria inflação projetada para o ano, até aqui abaixo de 6%.

De acordo com relatório da LCA Consultores Econômicos, a decisão, novamente unânime e divulgada no dia 1º de fevereiro, veio em linha com a expectativa consensual dos participantes de mercados. Conforme já era esperado, o comunicado da decisão mostrou que o Copom segue preocupado com os riscos fiscais e trouxe alterações relevantes para sinalizar apreensão da autoridade monetária com o aumento recente das expectativas de inflação, sobretudo para prazos mais longos.

Isso ficou explícito com a inclusão de um parágrafo em que o Copom enfatiza que a “conjuntura, particularmente incerta no âmbito fiscal e com expectativas de inflação se distanciando da meta em horizontes mais longos, demanda maior atenção na condução da política monetária. O Comitê avalia que tal conjuntura eleva o custo da desinflação necessária para atingir as metas estabelecidas pelo Conselho Monetário Nacional. Nesse cenário, o Copom reafirma que conduzirá a política monetária necessária para o cumprimento das metas”.

Não foram apenas as expectativas de mercado que pioraram nas últimas semanas. As estimativas oficiais de inflação também se elevaram para todo o horizonte relevante. A projeção para a alta do IPCA em 2023, no cenário de referência, avançou de 5,0% para 5,6%, enquanto a projeção para 2024 avançou de 3,0% para 3,4%.

Selic segue em 13,75% ao ano e deverá ser mantida neste patamar por mais tempo a

O Copom reiterou que continua a dar “ênfase” em suas decisões ao horizonte inflacionário de 18 meses à frente. Assim, informou que sua projeção para a inflação acumulada em 12 meses até o terceiro trimestre de 2024 está em 3,6% – algo acima, portanto, do centro da meta para 2024 (3%), que já passa a ter peso preponderante nas decisões de política monetária.

O Copom também apresentou suas projeções num cenário de Selic estável em todo o horizonte relevante para a política monetária (ou seja, até o final de 2024). Nesse cenário alternativo, a inflação cederia para 3,1% no terceiro trimestre do ano que vem e encerraria 2024 em 2,8% (ou seja, apenas um pouco abaixo do centro da meta).

A fim de reforçar sua apreensão com a deterioração das expectativas de inflação, o Copom indicou, no trecho prospectivo do comunicado, que poderá manter a Selic estável por um “período mais prolongado” em relação ao que vinha considerando em seu cenário de referência.

Esse trecho prospectivo, que substituiu a redação anterior em que o Copom afirmava que manteria a Selic estável por “período suficientemente prolongado” para assegurar a convergência da inflação, de que a persistência de incertezas fiscais e a piora nas expectativas inflacionárias, caso não venham a refluir tempestivamente, poderão levar o Banco Central a adiar para o ano que vem o ciclo de flexibilização monetária que ora projetamos para ter início em setembro.

O Copom reiterou, ainda, como vinha fazendo em seus últimos comunicados, “que os passos futuros da política monetária poderão ser ajustados e não hesitará em retomar o ciclo de ajuste caso o processo de desinflação não transcorra como esperado”.

FED reafirma que a continuidade da alta de juros

FED reafirma que a continuidade da alta de juros

Em reunião do comitê de política monetária (FOMC) realizadano dia 1º de fevereiro, o Federal Reserve Bank dos Estados Unidos – FED decidiu elevar a sua taxa básica de juros para o intervalo de 4,5% a 4,75% ao ano. Com isso, o FED reduziu o ritmo de elevação de juros para 25 pontos-base. A decisão, unânime, veio em linha com a expectativa                                                                                                                                                                                                                  de larga maioria dos participantes de mercado.

De acordo com a LCA Consultores Econômicos, o comunicado da decisão trouxe poucas novidades. O FED reafirmou que continuará a elevar sua taxa básica de juros, indicando que, ao avaliar a “extensão” (e não mais o “ritmo”) de “aumentos futuros do intervalo de juros, o Comitê levará em consideração o aperto acumulado da política monetária, as defasagens com que a política monetária afeta a atividade econômica e a inflação, e a evolução do ambiente econômico-financeiro”. O comunicado também refirmou que o FED buscará “uma postura de política monetária suficientemente restritiva para fazer a inflação voltar a 2% ao longo do tempo”.

Juros americanos continuarão sendo elevados, mas negativos na remuneração dos investidores

 

Ou seja, o FED indicou que descarta uma interrupção no ciclo de aperto monetário e que manterá o ritmo de elevação de juros em 25 pontos-base na próxima reunião do FOMC (agendada para 22 de março). Ademais, a autoridade sugere que manterá esse ritmo de ajuste de 25 pontos-base por reunião do FOMC até que esteja confiante na convergência da inflação à meta. Nossa curva projetada para a taxa básica do FED contempla apenas mais uma elevação de 25 pontos-base, em 22 de março. Mas reconhecemos que há chances relevantes de que o ciclo possa ser estendido.

Em sua coletiva de imprensa, o presidente do FED, Jerome Powell, sugeriu que a autoridade monetária segue preocupada com as apertadas condições de oferta no mercado de trabalho e com a resiliência da inflação de serviços – dois dos fatores que poderiam levar o FED a estender o ciclo de ajuste monetário e/ou a prolongar o período em que a política monetária permanecerá em terreno claramente restritivo.

Assim, conclui a LCA, « nos parece claro que a evolução das condições no mercado de trabalho e o comportamento da inflação de serviços serão os principais condicionantes da intensidade do ajuste adicional de juros e do timing em que, futuramente, a política monetária começará a ser flexibilizada. Continuamos a contemplar em nosso cenário base que a gradativa distensão do mercado de trabalho e a moderação tempestiva da inflação permitirão que alguma flexibilização monetária comece a ser implementada já na segunda metade de 2023. Mas essa hipótese continua a guardar relevante grau de incerteza ».

Brasil continua campeão absoluto no ranking dos juros mais altos do mundo

Brasil continua campeão absoluto no ranking dos juros mais altos do mundo

Segundo levantamento compilado pelo MoneYou e pela Infinity Asset Management o Brasil fica no topo do pódio de maior taxa de juros reais do mundo pela quarta vez consecutiva. Em decisão do dia 1º de fevereiro, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central manteve a taxa básica de juros brasileira inalterada, em 13,75% ao ano.

Na frente de países como México, Hong Kong, Colômbia e Chile, os juros reais ficaram em 7,38%, descontando a inflação projetada dos próximos 12 meses, de 5,75%. A taxa de juros real é calculada com o abatimento da inflação, sendo considerada mais fidedigna aos resultados finais no bolso do consumidor.

No ranking geral, o Brasil aparece atrás apenas da Argentina, onde a taxa é de 75%, mas, por conta da hiperinflação no país, que derruba a taxa real, é possível afirmar que o Brasil está com a pior taxa de juros reais.

Com a manutenção da taxa básica de juros (Selic) a 13,75% na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), o Brasil se mantém na primeira posição do ranking dos juros reais. A taxa real está em 7,38%, descontando a projeção de inflação para os próximos 12 meses, que é 5,7%, segundo o relatório Focus, elaborado pelo Banco Central junto a economistas de bancos e de gestoras.

A taxa básica de juros brasileira (Selic) não sobe desde junho do ano passado, mas o país continua no topo do ranking global de juros reais, segundo levantamento compilado pelo MoneYou e pela Infinity Asset Management.

Descontada a inflação esperada para os próximos 12 meses, de 5,75%, os juros reais ficaram em 7,38% – suficientes para manter o país no topo da lista, acima de MéxicoChileColômbia e Hong Kong.

A taxa de juros real é calculada com o abatimento da inflação prevista para os próximos 12 meses, sendo considerada uma medida melhor para comparação com outros países.

Brasil fica em segundo no ranking de juros nominais

Brasil fica em segundo no ranking de juros nominais

Juros nominais

Considerando os juros nominais (sem descontar a inflação), a taxa brasileira se manteve na segunda posição – atrás apenas da Argentina, onde a taxa é de 75%, mas onde a hiperinflação derruba a taxa real.

01 – Argentina: 75%

02 – Brasil: 13,75%

03 – Hungria: 13%

04 – Colômbia: 12,75%

05 – Chile: 11,25%

06 – México: 10,5%

07 – Turquia: 9%

08 – Rússia: 7,5%

09 – África do Sul: 7,25%

10 – República Checa: 7%

11 – Polônia: 6,75%

12 – Indonésia: 5,75%

13 – Filipinas: 5,5%

14 – Índia: 5,4%

15 – Hong Kong: 4,75%

16 – Estados Unidos: 4,75%

17 – Canadá: 4,5%

18 – China: 4,35%

19 – Reino Unido: 3,5%

20 – Nova Zelândia: 4,25%

21 – Israel: 3,75%

22 – Cingapura: 3,56%

23 – Coreia do Sul: 3,5%

24 – Austrália: 3,1%

25 – Suécia: 3%

26 – Malásia: 2,75%

27 – Alemanha: 2,5%

28 – Áustria: 2,5%

29 – Bélgica: 2,5%

30 – Espanha: 2,5%

31 – França: 2,5%

32 – Grécia: 2,5%

33 – Holanda: 2,5%

34 – Itália: 2,5%

35 – Portugal: 2,5%

36 – Taiwan: 1,75%

37 – Dinamarca: 1,75%

38 – Tailândia: 1,74%

39 – Japão: -0,10%

40 – Suíça: -0,75%

 

O levantamento também revelou as taxas de juros nominais entre os 40 países. Isso quer dizer que o ranking se refere ao valor nominal dos juros em cada um dos países analisados, sem descontar a inflação projetada para os meses seguintes.

Em suma, o Brasil se manteve no segundo lugar, com a taxa de 13,75%. Nesse ranking, a Argentina liderou a lista com bastante folga, com a taxa básica de juro da economia atingindo expressivos 75% ao ano. Aliás, essa taxa também se mantém estável no vizinho sul-americano nos últimos meses.

A saber, a Argentina vem tentando sair de uma recessão econômica desde 2018. Em 2021, a inflação disparou 50,9% no país, uma das maiores taxas do mundo. E isso explica o motivo de os juros estarem tão elevados e, mesmo assim, o país ter a menor taxa de juro real entre os 40 países do levantamento.

Em síntese, como os juros reais descontam a inflação projetada, a taxa na Argentina passa a ser negativa, pois a inflação é muito alta. No entanto, ao considerar apenas a taxa nominal de juros, sem fazer ponderações relacionadas à inflação, o país lidera o ranking mundial com muita folga para o Brasil, que ocupa a segunda posição.

De acordo com o levantamento, o top cinco nos juros nominais é formado por Hungria (13,00%), Colômbia (+12,75%) e Chile (11,25%). Vale destacar que, no top três, apenas a Colômbia subiu uma posição, visto que o país estava no quinto lugar em dezembro do ano passado, com os juros no nível de 11,00% ao ano.

As taxas em algumas das maiores economias do mundo foram as seguintes: Rússia (7,5%, em 8º lugar), Estados Unidos (4,75%, em 16º), China (4,35%, em 18º), Reino Unido (3,5%, em 19º), Alemanha (2,50%, em 27º), França (2,5%, em 31º) e Japão (-0,10%, em 39º). A Suíça tem os menores juros entre todos os países, de -0,75%.

Brasil fica em segundo no ranking de juros nominais a

Taxa de juros reais 

Lista dos 10 países com os maiores juros reais do mundo, em que o Brasil fica no topo pela quarta vez consecutiva.

01 – Brasil: 7,38%;

02 – México: 5,53%;

03 – Chile: 4,71%;

04 – Colômbia: 3,04%;

05 – Hong Kong: 2,35%;

06 – Indonésia: 2,34%;

07 – Filipinas: 2,24%;

08 – Israel: 1,44%;

09 – África do Sul: 1,37%;

10 – Índia: 1,28%;

11 – China: 0,29%;

12 – Nova Zelândia: 0,21%;

13 – Hungria: 0,08%;

14 – Malásia: 0,07%.

 

Todos os demais países do levantamento apresentaram taxas negativas de juros reais. Em suma, a Argentina ficou na última posição, com um juro real negativo de 19,61%. Também tiveram taxas negativas intensas: Turquia (-8,00%), Holanda (-7,39%), República Checa (-6,99%), Polônia (-6,49%), Bélgica (-6,38%) e Grécia (-5,57%).

Entre as maiores economias do planeta, os Estados Unidos ficaram em 15º (-0,03%), enquanto o Japão ficou em 18º (-1,50%). Já a Alemanha caiu uma posição, para o 33º lugar, com uma taxa de -4,92%. Também vale destacar as taxas da Itália (-4,92%), França (-2,40%), Rússia (-1,61%) e Reino Unido (-0,95%).

Porque os juros estão elevados no país?

Porque os juros estão elevados no país?

Em resumo, a taxa Selic é o principal instrumento do BC para conter a alta dos preços de bens e serviços, a famosa inflação. Quanto mais alta a taxa Selic estiver, mais altos ficarão os juros no país, pois ela puxa consigo os juros, no geral.

Dessa forma, o crédito fica mais caro no Brasil, reduzindo o poder de compra do consumidor. Como as pessoas se veem obrigadas a pagar mais caro para contratar crédito, muitas delas reduzem seus gastos e modificam seus hábitos de consumo. E a principal consequência de tudo isso é o desaquecimento da economia brasileira.

Como a inflação perdeu força em 2022, o Copom decidiu interromper a sequência de altas e manteve a taxa Selic estável. Contudo, vale destacar que a inflação ainda está bastante elevada no país, mais alta que o desejado pelo mercado. Por isso que os juros deverão continuar altos no país por mais alguns meses. Fonte: MoneYou – Infinity Asset Management – Boa Informação – Poder 360 – Valor

Porque os juros estão elevados no país? a

JUROS REAIS NO BRASIL – 2001/2021

Ano     SELIC                         IPCA                           Taxa Real de Juros

% Média Anual           % Média Anual           % Anual

2001    17,63                           7,67                           +9,24

2002    19,48                           12,53                           +6,18

2003    23,08                           9,30                           +12,61

2004    16,44                           7,60                           +8,21

2005    19,15                           5,69                           +12,73

2006    15,10                           3,14                           +11,60

2007    11,98                           4,46                           +7,20

2008    12,54                           5,90                           +6,27

2009    9,92                           4,31                           +5,37

2010    10,00                           5,91                           +3,86

2011    11,79                           6,50                           +4,97

2012    8,46                           5,84                           +2,48

2013    8,44                           5,91                           +2,39

2014    11,02                           6,41                           +4,34

2015    13,58                           10,67                           +2,63

2016    14,17                           6,29                           +7,41

2017    9,92                           2,95                           +6,77

2018    6,56                           3,75                           +2,72

2019    5,96                           4,31                           +1,58

2020    2,81                           4,52                              -1,63

2021     4,81                           10,06                              -4,77

2022    12,63                           6,16                           +6,47

OBS: SELIC: Taxa básica de juros definida pelo Bacen;

IPCA-Índice de Preços ao Consumidor-Amplo calculado pelo

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

Fonte: Banco Central do Brasil/IBGE        

Elaboração: MinasPart Desenvolvimento

Porque os juros estão elevados no país? b

JUROS REAIS NOS ESTADOS UNIDOS – 2001/2021

Ano     Fed Funds                   Inflação-CPI                Taxa Real

% Média ao Ano         % Média ao Ano         % ao Ano

2001    3,40                                         1,60                 +1,77

2002    1,67                                         2,48                 -0,79

2003    1,12                                         2,04                 -0,90

2004    1,35                                         3,34                 -1,93

2005    3,20                                         3,34                 -0,14

2006    4,96                                         2,52                 +2,38

2007    5,05                                         4,11                 +0,90

2008    2,08                                      -0,02                  +2,10

2009    0,25                                         2,81                 -2,49

2010    0,25                                         1,44                 -1,17

2011    0,25                                         3,06                 -2,73

2012    0,25                                         1,76                 -1,48

2013    0,25                                         1,51                 -1,24

2014    0,25                                         0,65                 -0,40

2015    0,26                                         0,64                 -0,38

2016    0,51                                         2,05                 -1,51

2017    1,10                                         2,10                 -0,98

2018    1,91                                         1,92                    –

2019    2,28                                         2,26                 +0,02

2020    0,54                                         1,28                -0,74

2021    0,25                                         7,10                 -6,85

2022    2,02                                         6,42                 -4,40

Fonte: FMI/LCA Consultores

Elaboração: MinasPart Desenvolvimento

Porque os juros estão elevados no país? c

TAXA DE JUROS REAIS PRATICADA NOS

ESTADOS UNIDOS E NO BRASIL

– 2001/2021 – Taxa Real – % ao ano

Ano     Estados Unidos                        Brasil

2001                +1,77                           +9,24

2002                -0,79                            +6,18

2003                -0,90                            +12,61

2004                -1,93                            +8,21

2005                -0,14                            +12,73

2006              +2,38                            +11,60

2007              +0,90                            +7,20

2008              +2,10                            +6,27

2009                -2,49                            +5,37

2010               -1,17                            +3,86

2011                -2,73                            +4,97

2012                -1,48                            +2,48

2013                -1,24                            +2,39

2014                -0,40                            +4,34

2015                -0,38                            +2,63

2016                -1,51                            +7,41

2017                -0,98                            +6,77

2018                   –                                +2,72

2019              +0,02                            +1,58

2020                -0,74                            -1,63

2021                -6,85                            -4,77

2022                -4,40                            +6,47

Taxas descontadas da Inflação/EUA: Fed Funds; Brasil: Selic

Fonte: FMI/LCA Consultores

Elaboração: MinasPart Desenvolvimento

Não há registro na história da política monetária dos Estados Unidos da América de taxa de juros reais praticadas pelo Federal Reserve Bank acima de 5,5% ao ano. No Brasil, desde 1999 quando foi instituído o Regime de Metas de Inflação, com o estabelecimento da taxa básica de juros – Selic – pelo Conselho de Política Monetária do Banco Central – esse patamar de juros reais de 5,5% ao ano já foi superado 11 vezes, chegando a atingir 12,73% em 2005. Em termos nominais, chegou a atingir 25% ao ano no final de 2002 e, por dezessete vezes desde que foi instituída, foi superior a 10% ao ano.

Desde 2010, após a Crise Financeira ocorrida no ano anterior, os Estados Unidos e parcela significativa dos países considerados desenvolvidos abandonaram a prática de juros básicos reais positivos e passaram a adotar uma política de remuneração negativa.

O Brasil continuou mantendo a mesma sistemática anterior de juros reais, isto é, acima das taxas de inflação corrente– exceção verificada apenas nos anos de 2020 e 2021, sendo retomada novamente em 2022, o que possibilitou ao país recuperar a posição de líder mundial da taxa real de juros mundial mais elevada.

Segundo dados do FMI – Fundo Monetário Internacional, no período de 2009 a 2022, enquanto o PIB norte-americano registrou expansão acumulada de 26,2%, no Brasil esse crescimento ficou em modestos 18,8% – muito pouco para um país considerado emergente.

No mesmo período, enquanto a remuneração real dos títulos Fed Funds do governo norte-americano contabilizou rendimentos reais negativos de 18,1%, no Brasil a Selic ofereceu ganhos reais acumulados a seus investidores – isto é, já descontada a inflação, de 54,0%.

Juros na contramão

Juros na contramão

De acordo com Fernando Valente Pimentel, presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) – “os juros elevados apenam duplamente a sociedade: de um lado, onerando demasiadamente o “preço” do dinheiro. Esse fator reflete-se, por exemplo, na perda de competitividade das empresas perante a concorrência internacional; e, de outro, consumindo recursos orçamentários do setor público, em detrimento de áreas prioritárias.

A verdade é que a questão dos juros elevados não vem de hoje e tem sido um problema histórico a limitar a capacidade de crescimento da economia nacional.

São necessárias, ainda, reformas no sistema, com menores níveis de compulsórios, por exemplo, liberando, assim, mais capital para a produção. O fato é que o custo do capital no Brasil, sem soluções malfadadas de heterodoxia, exige uma força-tarefa especial de nossas autoridades e economistas para desatar esse nó que drena recursos e energia da sociedade e inibe, dentre outros fatores, o aumento do potencial de crescimento de nosso país”.

Em épocas passadas, chegou-se a afirmar que “ou o Brasil combatia as saúvas ou elas acabariam com o Brasil”. Traduzindo para os tempos atuais é como afirmar que “ou o Brasil reduz as suas taxas de juros ou os juros liquidarão com o país”. Reduzir as taxas de juros aqui praticadas em níveis que possam ser considerados civilizados é uma imposição de ordem, de segurança nacional.

Não se pode esperar mais, até mesmo porque taxa de juros não é o único componente para o exercício de uma política monetária eficaz e saudável. O Brasil, ao longo de todo esse tempo, lembra muito o período do presidente Antonio Salazar (1932-1968) à frente da nação portuguesa, quando, não obstante desfrutar de uma excepcional estabilidade e equilíbrio econômico, Portugal simplesmente não conseguia crescer, transformando-se numa das economias mais raquíticas, pobres e frágeis de todo o continente europeu.

O Brasil vem implementando, permanentemente e já há quase três décadas, uma política monetária de taxas elevadas de juros reais, que nos posicionou, durante esse período, como os campeões mundiais nessa prática. Essa política de taxas de juros reais elevadas encontrou respaldo na implantação do Sistema de Metas para a Inflação por intermédio do COPOM – Conselho de Política Monetária, criado em 20-06-1996.

Juros reais elevados no Brasil – um câncer que destrói a economia

Juros reais elevados no Brasil – um câncer que destrói a economia

O ex-vice-presidente da República, o valoroso mineiro José Alencar Gomes da Silva, já condenava, bem antes da sua candidatura oito anos antes e de forma veemente, a exorbitância da taxa de juros básica da economia brasileira e, mesmo com a sua investidura no cargo, não deixou de esbravejar contra este que considerava ser um dos maiores pecados capitais que se comete contra as empresas e os consumidores brasileiros. E ainda afirmava que o Brasil havia sido muito bem sucedido nas políticas de combate à inflação, mas exigindo um custo muito alto á sociedade, que poderia ter sido suavizado não fossem as estratosféricas taxas de juros implantadas desde então.

José Alencar um vigoroso combatente dos juros altos
José Alencar um vigoroso combatente dos juros altos

Há de se destacar que a prática de taxas de juros elevadas no Brasil não se restringe apenas ao período que surge a partir do advento do COPOM – Conselho de Política Monetária, instituído em 20 de junho 1996 nem com a adoção do Sistema de Metas de Inflação, criado em 1999. Ao contrário, ela remonta ao período entre o fim do Governo Sarney e, de forma mais consistente, a partir da investidura como ministro da Fazenda do embaixador Marcílio Marques Moreira, durante o Governo Collor. Portanto, já são mais de 30 anos, o que coloca o Brasil, em toda a história econômica mundial, como um dos poucos países que por mais tempo conseguiu sobreviver ao exercício de uma política monetária absolutamente restritiva e incompatível, fundamentalmente, com as chances de um crescimento econômico mais vigoroso. Tanto é assim que, à exceção do período do mandato de Itamar Franco, em basicamente quase todos os anos posteriores a taxa de crescimento do PIB brasileiro foi medíocre e, na maioria das vezes, abaixo da média mundial.

Ao invés de ser uma mera decisão de política monetária, em muitas vezes transformou-se em única peça da política econômica existente no país que, ademais, ainda a conjugou com o arrocho fiscal, impondo o contracionismo da atividade econômica como mecanismo imprescindível de controle dos rumos da inflação.

“Com taxas de juros que chegaram a mais de 25% ao ano e um crescimento medíocre da economia, o resultado é inexorável: a relação dívida e PIB cresce. O Estado brasileiro custa muito e gasta mal? Com certeza, mas não é essa a razão do crescimento da dívida. A política de taxa de juros do Banco Central, do real até muito recentemente, foi um gravíssimo equívoco. A história irá deixar claro o preço de uma política de juros extraordinariamente altos, associada a uma pesada e kafkiana carga fiscal.” –( André Lara Resende – O Estado de S. Paulo – 25.11.2020)

 

Não há dúvida sobre a importância de algumas das decisões anteriores de reduzir a taxa básica de juros e que já à época apresentavam tendência de queda, apesar de ainda permanecerem altas para os padrões internacionais, o que destacava o país na liderança do ranking mundial. Nesse contexto cabe ainda uma consideração, que é a constatação de que as reduções ocorridas foram muito mais nominais do que reais. E há, ainda, outro agravante, elas partiram de patamares anteriores extremamente elevados e, verificadas sob essa dimensão, as reduções poderiam até ser consideradas como tímidas e acanhadas. É um exagero querer imaginar no Brasil um nível de inflação equivalente às de economias maduras, como da Suíça, dos Estados Unidos, do Reino Unido e outros. Aqui residem outros fatores endógenos que, em grande medida, justificam uma inflação diferenciada em relação a esses países e isso é natural que ocorra, desde que haja absoluto controle sobre os seus mais diretos componentes. Não é também, o caso, de se pregar o abandono dos mecanismos de controle da inflação e, muito menos, de defender a sua volta. Ao contrário, o que se deve permear nessa discussão, é o desenvolvimento e o nível acelerado de crescimento econômico que pretendemos realizar, com uma inflação baixa e perfeitamente administrável. Nessa perspectiva, entendo que os juros altos não podem ser considerados o único e principal objetivo da política econômica e, sim, como um instrumento de controle da inflação. A condução da política econômica deve se voltar para o incentivo e contribuição de mecanismos capazes de elevar o país a uma condição de país desenvolvido com crescimento econômico vigoroso, consistente, contínuo e sustentado, como já foi dito anteriormente.

De acordo com matéria publicada em Valor Econômico de 26 de março de 2019 o economista André Lara Resende “criticou de modo contundente a política monetária brasileira das últimas décadas

De acordo com matéria publicada em Valor Econômico de 26 de março de 2019 o economista André Lara Resende “criticou de modo contundente a política monetária brasileira das últimas décadas, em evento no qual defendeu enfaticamente as ideias de que a taxa de juros deve ser fixada pelo Banco Central abaixo da taxa de crescimento e que um governo que emite sua moeda não enfrenta restrições financeiras, apresentadas por ele recentemente em artigo no Valor. Ao comentar porque o Brasil não cresce, Lara Resende disse que faria uma simplificação e afirmou que desde o Real o BC fixou o juro básico entre seis e duas vezes a taxa de crescimento”.

‘Quando você coloca os juros seis vezes a taxa de crescimento, o investimento colapsa, o crescimento cai, a dívida/PIB sobe’ – afirmou Lara Resende. Com ‘um dogma financista’, aumentam-se os impostos, o que levou a carga tributária brasileira para 36% do PIB, uma das mais altas do mundo. ’Isso asfixia a economia, que não consegue funcionar’, disse ele, em evento organizado pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI), que teve a participação do ex-presidente do BNDES Edmar Bacha e do ex-ministro da Fazenda Pedro Malan”.

Acrescenta a matéria: “Ele destacou que, desde que o país superou a inflação crônica, há 25 anos, a produtividade ficou estagnada, enquanto a chilena foi multiplicada por 5 e a chinesa, 20 a 25 vezes.  Antes de falar do nível de juros, disse que o Brasil é um país com todos os recursos possíveis, com ‘gente de altíssimo nível, capacidade empresarial, que tem capital.

Em artigo publicado no Estado de São Paulo de 7 de fevereiro de 2017

Em artigo publicado no Estado de São Paulo de 7 de fevereiro de 2017, o professor da USP Roberto Luis Troster afirma:

“… a economia está se tornando cada vez mais financeira. Hoje (no Brasil, os juros pagos por dívidas correspondem a 16,9% do produto interno bruto (PIB) – 6,5% da dívida pública mais 10,4% da privada”. E acrescenta: “Esses recursos são destinados a investidores, alguns deles estrangeiros, que, dependendo do tipo de ativo, têm alíquotas de impostos que variam de zero a 22,5%, enquanto os trabalhadores chegam a 27,5% e as da produção passam de 50% em alguns casos. É inegável, a tributação favorece mais quem vive de juros do que trabalhadores e empresários. Quem paga o pato é o País”. Em outras palavras isso significa o mesmo que dizer que o Brasil se tornou o paraíso mais que perfeito dos rentistas.

Em artigo publicado no Estado de São Paulo de 7 de fevereiro de 2017 a

Em outro artigo publicado no Valor de 13 de janeiro de 2017, André Lara Resende destacou:

1 – “Desde a estabilização da inflação crônica, com o Real – e já se vão mais de 20 anos – a taxa básica de juros no Brasil causa perplexidade entre os analistas. Por que tão alta? Inúmeras explicações foram ensaiadas, como distorções, psicológicas e institucionais, associadas ao longo período de inflação crônica com indexação, baixa poupança e alta propensão ao consumo, tanto pública como privada; ineficácia da política monetária entre outras. Embora todas façam sentido e possam, no seu conjunto, ajudar a entender por que os juros são tão altos, nenhuma delas foi capaz de dar uma resposta convincente e definitiva para a questão.

As altíssimas taxas brasileiras ficaram ainda mais difíceis de serem explicadas diante da profunda recessão dos últimos dois anos. Como é possível que depois de dois anos seguidos de queda do PIB, de aumento do desemprego, que já passa de 12% da força de trabalho, a taxa de juro no Brasil continue tão alta, enquanto no mundo desenvolvido os juros estão excepcionalmente baixos? Há quase uma década, nos Estados Unidos e na Europa, e há três décadas no Japão, os juros estão muito próximos de zero, ou até mesmo negativos, mas no Brasil a taxa nominal é de dois dígitos e taxa real continua acima de 7% ao ano”.

2 – Em artigo subsequente, Lara Resende acrescenta: “No Brasil, a inflação é muito pouco sensível à taxa de juros. As razões da ineficácia da política monetária são muitas e controvertidas, mas a baixa sensibilidade da inflação à taxa de juros é indiscutível, uma unanimidade. Por outro lado, a dívida pública em torno de 70% do PIB, uma taxa nominal de juros de 14% ao ano exige um superávit fiscal de quase 10% do PIB para que a dívida nominal fique estável. Com a economia estagnada e a inflação perto dos 6% ao ano, isso significa que é preciso um superávit fiscal primário de quase 5% da renda nacional para estabilizar a relação entre a dívida e o PIB. A carga tributária está perto dos 40% do PIB, alta até mesmo para países avançados, ameaça estrangular a economia e inviabilizar a retomada do crescimento. A dificuldade política para reduzir despesas é enorme. Fica assim claro que o custo fiscal da política monetária não é irrelevante”.

O raciocínio de André Lara Resende é absolutamente límpido, claro, aritmético e verdadeiro. Ele arremata: “O Banco Central do Brasil tem quadros competentes, suas diretorias foram sempre ocupadas pelos melhores profissionais, mesmo durante os governos mais economicamente irresponsáveis, e tem cumprido o seu papel de defensor da estabilidade monetária. Tenho plena consciência da importância da autonomia do Banco Central. Por isso mesmo, sempre evitei me manifestar diretamente sobre questões monetárias conjunturais. Abro uma exceção. Suponha o caso de um paciente com doença crônica para a qual se administra um remédio há décadas. Há unanimidade médica de que, no caso desse paciente, a doença é resistente. Doses maciças vêm sendo receitadas sem resultado. Os efeitos secundários negativos são graves, debilitam e impedem a recuperação do paciente, que agora se encontra na UTI. Novos estudos, ainda que preliminares, questionam a eficácia do remédio. Pergunta: deve-se continuar a ministrar as doses maciças de remédio ou reduzir rapidamente a dosagem? Parece-me questão de bom-senso”.

Pode-se perceber, claramente, os equívocos trazidos em relação ao conceito de que juros baixos estimulam a inflação, enquanto que juros altos funcionam para reduzi-la, predominante na política monetária adotada pelo Brasil ao longo das últimas décadas.

Em entrevista concedida ao O Estado de S. Paulo, em 31 de março de 2019, Lara Resende afirmou que “A dívida pública denominada na moeda nacional, de um país que controle a emissão de sua moeda, não tem risco. A não ser por uma decisão política de interromper o seu serviço, o governo sempre terá como financiá-la. Se a política fiscal e monetária forem coordenadas e bem executadas, a inflação continuará ancorada e bem comportada. Com o desemprego e a capacidade ociosa atual, a taxa de juros deveria estar bem abaixo da taxa de crescimento. O risco está em prosseguir com a política de juros muito mais altos do que o crescimento. Isto agrava o desequilíbrio fiscal e induz ao aumento da carga tributária. O resultado é o colapso dos investimentos e a asfixia da economia, que não consegue voltar a crescer de forma sustentada”.

Em entrevista posterior, concedida ao Estado de São Paulo

Em entrevista posterior, concedida ao Estado de São Paulo – em 25.11.2020, André Lara Resende afirmou:

“Em várias ocasiões na história, sobretudo depois de guerras ou catástrofes, inúmeros países tiveram dívidas superiores ao PIB. Hoje, Japão, EUA, Itália, entre outros, têm dívida superior ao PIB. A dívida pública não pode ter uma trajetória explosiva, mas, desde que o seu crescimento acelerado seja transitório, que passada a crise, com as contas reequilibradas e restaurado o crescimento da economia, a relação entre dívida e PIB volte a cair, não há qualquer problema em ultrapassar os 100% do PIB.

Não existe um limite intransponível para a dívida interna e o PIB. O endividamento externo, que depende de financiamento do exterior em moeda estrangeira, é sim perigoso. Como aprendemos com as sucessivas crises da dívida externa no século passado, quando os credores internacionais passam a ter dúvida sobre a capacidade do País de honrar seus compromissos em moeda estrangeira, a súbita interrupção do fluxo de financiamento pode provocar crises gravíssimas. No século passado, o Brasil era importador líquido de petróleo e derivados, assim como de trigo e outras commodities (produtos classificados como básicos por não ter tecnologia envolvida ou acabamento). Precisava de financiamento externo para cobrir o déficit com o resto do mundo. Hoje, somos autossuficientes em petróleo, exportadores líquidos de commodities e temos um setor agropecuário altamente superavitário. O Brasil de hoje não tem dívida pública externa, ao contrário, tem quase 30% do PIB em reservas internacionais. A nossa dívida é interna, do Estado com os brasileiros.”

Presidente JK

O presidente JK afirmava:

“Pretender solucionar a crise brasileira com remédios prescritos para o único fim de estabilidade, como se fôssemos uma terra exausta e um povo cansado, necessitados de equilibrar as poucas forças que ainda nos restassem é semelhante, malgrado as deformações que acarretam todas as analogias, ao intento de se tratarem as crises da puberdade com medicamentos destinados a mitigar a senectude.

Isso não nos deve, entretanto, levar ao extremo oposto de confundir inflação com desenvolvimento e presumir que somente através de uma expansão inflacionária é que nos podemos desenvolver. Muito pelo contrário, ainda que possa dar sensação temporária de euforia, a inflação estrangula inexoravelmente o desenvolvimento econômico, pela distorção de investimentos que provoca e pelas tensões que traz em seu bojo”.

E, mais adiante, acrescentava:

“Transportaram-se para o nosso País, mecânica e acriticamente, técnicas e instituições que, ou não correspondiam mais às condições de nossa época – como é o caso das correspondentes ao liberalismo europeu do século XXI, ou não se ajustaram à nossa realidade – como é o caso das que insistem em dar tratamento monetário a fenômenos que são basicamente econômicos.”

Em outros discursos, JK destacou:

“Por um lado, as flutuações de preços dos produtos primários no mercado internacional são de tal ordem que se torna impossível basear, na receita oriunda da sua venda, um programa de desenvolvimento a longo prazo. Por outro, as condições do intercâmbio entre as potências industriais e os países não desenvolvidos tornam-se progressivamente desfavoráveis aos segundos, exigindo a exportação de uma quantidade sempre crescente de produtos primários para a aquisição da mesma quantidade de produtos manufaturados.

De tudo isso, ressalto a necessidade urgente e imperiosa de romper este círculo vicioso em que a pobreza gera o subdesenvolvimento e o subdesenvolvimento perpetua a pobreza”.

“Impõe-se, portanto, a conclusão de que, num país como o nosso, não somente as peculiaridades geográficas e humanas, mas também os dados acerca da evolução econômica indicam o desenvolvimento acelerado como o único caminho de salvação. Nenhuma política será legítima, se não objetivar, com caráter prioritário, o desenvolvimento. É esta uma diretriz que já nenhum governo poderá abandonar”

JK já afirmava que as maiores ameaças à democracia são a miséria, o desemprego e o subdesenvolvimento. Ao longo destas últimas quase quatro décadas, a busca obsessiva pela estabilidade econômica tem nos ofuscado todas as possibilidades de colocar o desenvolvimento como a nossa grande, prioritária e fundamental meta nacional, e corremos ainda o risco de ficarmos durante os próximos anos relegando o crescimento vigoroso pela discussão centrada apenas no ajuste e no equilíbrio das contas públicas.

JK também já alertava

 

JK também já alertava que é preciso que nos capacitemos, de uma vez para sempre, de que o desenvolvimento do Brasil é uma condição ligada à nossa sobrevivência num mundo que se impõe, mais e mais, pela força de sua vertiginosa marcha técnica. Não temos de nos desenvolver apenas por ambição mesmo justa, mas desenvolver para sobreviver. E destacava, em diferentes discursos:

“Passou a fase em que se podiam fazer as coisas de qualquer maneira, e entramos na época em que indústria, tecnologia e ciência econômica se correspondem e caminham juntas. Não só temos de atender ao mercado interno e produzir de maneira econômica para que o custo de vida não oprima de forma injusta e desumana o nosso povo, como também temos de industrializar para exportar, o que significa entrar na concorrência do mercado internacional.

Por isso mesmo, “desenvolvimento” sempre foi, em meu conceito de governo e de política, um objetivo tanto quantitativo quanto qualitativo. “Produzir mais” é um aspecto dessa evolução. Ampliar a variedade de bens produzidos é outro aspecto. E ainda outro é a elevação da hierarquia técnica da produção, pelo incremento da industrialização fina e da industrialização de base no quadro da produção geral. Por fim, é a melhoria qualitativa em si, coadjuvando o aperfeiçoamento do que chamaria de “comercialidade” dos produtos, entendido por isso os atributos que favoreçam sua colocação no país e no exterior. E sempre que, no que acabo de dizer, falei em produtos, entendam-se também serviços, que considero, aí, no sentido de ação particular e ação pública, executados com fins econômicos ou não”

Juro Alto remédio ou veneno?

Juro Alto: remédio ou veneno?

 

Em artigo publicado no jornal Estado de Minas no dia 11 de fevereiro, o renomado

Numa síntese corajosa, o Banco Central tem, sim, mandato para defender a estabilidade da moeda, mas certamente não tem alçada para destruir, mesmo acidentalmente, a produção brasileira. Há um sutil limite, uma marca divisória, entre usar o fármaco do juro como remédio ou de aplicá-lo como veneno. Mas é nítida a desconsideração do Copom – o Comitê de Política Monetária que fixa a taxa básica de juros – sobre o estado de saúde da economia. Há décadas, a SELIC é fixada sem aparente preocupação pelos efeitos do juro no nivel do emprego nem sobre os bilhões de reais diariamente pagos como juros, tanto pelo governo como por empresas e pessoas. Só ano passado, o dispêndio federal com juros foi a R$586 bilhões. Este ano pode chegar perto de R$ 800 bi. Nenhum outro gasto federal compete com essa soma astronômica. Apesar disso, o Legislativo não debate juros na aprovação orçamentária anual. Esse gasto é considerado “automático”.

Com sua independência legal, o Banco Central ficou ainda mais longe de qualquer escrutínio pela sociedade. Ao inibir o consumo com juros mais altos, na expectativa de moderar a demanda e, assim, deter uma alta inflacionária, o BC deveria mostrar sensibilidade pelo fato de estar também refreando a produção, com efeito recessivo mais forte no Brasil do que em outros países, por causa do oligopólio nos juros bancários – taxas de cartões, créditos diretos e saques especiais. Enquanto o BC deixa passar isso, a inflação permanece acima do limite da meta por três longos anos.

A presunção do BC de que os juros detêm o consumo é afirmação fraca na medida em que não se aplica ao consumo do governo – que é comandado pelo saldo financeiro entre o que o governo gasta e arrecada- aí incluídos os enormes gastos previdenciários, assistenciais e pagamentos aos rentistas que, por definição, farão decisões de consumo bastante insensíveis ao nível de juros. Nesse caso, boa parte do esforço de aplacar a inflação com o remédio de juros altos é jogado fora por uma mistura incorreta entre a política monetária (demasiadamente apertada) e a fiscal (frouxa demais). Se isso é fato, então o mandato dado ao Banco Central para manter a inflação nos limites da meta é um comando legal torto ou incompleto. Em bom português, é um mandato estúpido, porque não “conversa” com o lado fiscal. O governo gastador não se sente responsável pela inflação de demanda (sem oferta correspondente) que ele mesmo provoca. Destrói-se a produção nacional, mas o consumo excedente permanece, sustentado por largas transferências fiscais e gordos encargos sobre a dívida pública.

Não poderiam ter inventado uma “independência” mais disfuncional. Em última instância, a responsabilidade sobre inflação não é só do BC e, sim, do hoje camuflado Conselho Monetário Nacional, que a mídia e a academia desconhecem. Ali, sentados no CMN, deveriam estar os ministros da Fazenda e do Planejamento, o presidente do BC, como também membros independentes da sociedade, com mandato para defender a moeda e sustentar a saúde da produção. Para auxiliar o CMN nesta tarefa, há previsão legal de outro órgão relevante – o Conselho de Gestão Fiscal – criado no art. 67 da LRF desde 2000, mas jamais instituído. Por quê?

Juro Alto remédio ou veneno? a

O mercado não tem razão científica alguma para defender o atual nível de juros. Esse nível tem sido praticado acima da “normalidade” (ou seja, muito acima do que seria a relação do risco-país com a inflação projetada) enquanto os governos tampouco se empenham com clareza para dar a cada real arrecadado de imposto o tratamento de seriedade e dignidade que o gasto público merece.

Se o presidente fala sério sobre juros, e se o “mercado” decidir parar de repetir narrativas convenientes à manutenção de suas vantagens, deveríamos sentar para fazer cumprir os mandatos dos dois conselhos, o monetário e o fiscal, sendo o primeiro por precisar ser reformado e empoderado e o segundo, para ser instituído e prestigiado.

Quanto aos colegas economistas, que possamos perceber a ilusão de tentar alcançar uma estabilidade de preços jogada exclusivamente nas costas do BC e dos juros na lua. Essa é uma péssima opção para o País. Não à toa temos tido, desde o Plano Real, um desempenho médio do PIB Brasil de apenas 2% ao ano enquanto, na média mundial, o PIB planetário tem crescido a 3,5%. E assim continuaremos, nesse auto-engano, até que o País consiga atribuir os deveres da condução monetária e fiscal aos atores corretos e na medida certa das responsabilidades de cada um. Só então, o juro deixará de atuar como veneno que nos paralisa e impede de crescer.

Por que os juros são tão altos no Brasil? E como reduzi-los?

Por que os juros são tão altos no Brasil? E como reduzi-los?

Luan Superando* 

A inadimplência no Brasil bateu novo recorde e atingiu 67,6 milhões de brasileiros em julho de 2022, segundo a Serasa. A maioria das dívidas vem do segmento de bancos e cartões. Diante da informação, muitas pessoas culpam as taxas de juros cobradas pelas instituições financeiras. Afinal, por que os juros são tão altos no Brasil?

Inicialmente, é verdade que os juros cobrados no país são muito maiores do que na maior parte do mundo. Quando um banco empresta dinheiro a alguém, cobra uma taxa pelo empréstimo. Essa taxa, naturalmente, será superior à taxa de captação. Essa diferença é denominada de spread bancário. Quanto maior, maiores os juros no país. O Brasil tem o segundo maior spread bancário do mundo, perdendo somente para Madagascar. É o que mostrou uma comparação internacional feita por pesquisadores do Ibre/FGV.

Contudo, os juros finais cobrados representam outros custos que compõem o spread bancário. O principal componente é a inadimplência (55%), seguido dos lucros dos bancos (23%), impostos (16%) e custos administrativos (4%). É o que mostrou relatório de 2017 do Banco Central.

Nesse sentido, uma possível explicação para não haver uma queda expressiva dos spreads no Brasil, mesmo quando a taxa Selic atingiu a mínima histórica de 2%, é o fato de que há entraves institucionais para a redução do spread, como a dificuldade de retomada das garantias.

Para efeito de comparação, o Brasil está entre os piores países em termos de recuperação judicial de crédito. Segundo dados do Banco Mundial, por aqui, apenas US$ 0,13 são recuperados de cada US$ 1 emprestado. A média mundial está em US$ 0,34 por US$ 1.

Como é muito difícil cobrar no Judiciário brasileiro créditos tomados e não pagos, quem toma empréstimos e os quita paga não somente para si, mas para todo o contingente de brasileiros inadimplentes.

Trazer maior celeridade ao hoje moroso Judiciário brasileiro e desburocratizar o processo de execução civil, incluindo a penhora e execução de bens, é fundamental para a redução do spread.

Resolver esses problemas ajudaria no desenvolvimento econômico do país ao ajudar na tomada de crédito para financiar investimentos em grandes projetos. Contudo, vale ressaltar que essa questão também é moral. Afinal, um país em que quem dá calote é premiado, não pode ser considerado moral, ético e sério.

*Editor-chefe da casa de investimentos Apex Partners, analista político e colunista da Folha Vitória. Integra diversas organizações ligadas ao desenvolvimento de instituições com melhor ambiente de negócios, como o Ideias Radicais, o Instituto Mercado Popular e o Instituto Liberal, onde escreve desde 2014. É associado do Instituto Líderes do Amanhã.

CHEGA DE ENGOLIR SAPO*

CHEGA DE ENGOLIR SAPO*

DIGA NÃO AOS JUROS MAIS ALTOS DO MUNDO*

Se uma pessoa tivesse ido a um banco para depositar R$ 100,00 na caderneta de poupança há dez anos, teria hoje na conta R$ 198,03.

Se essa mesma pessoa tivesse usado o mesmo valor de R$ 100,00 no cheque especial, na mesma data, teria hoje, no mesmo banco, uma dívida de R$ 4.394.136,97.

*Campanha publicitária da FIESP/CIESP veiculada nos principais jornais brasileiros em 13 de março de 2018

O alta patamar dos juros reais brasileiros não tem auxiliado no combate à inflação

O alta patamar dos juros reais brasileiros não tem auxiliado no combate à inflação

Rodrigo Oliveira*

Uma das principais referências intelectuais do atual governo, o economista André Lara Resende disparou contra a política monetária atual em artigo publicado em 26.12.22. De acordo com ele, a estratégia comumente adotada no mundo para o combate à inflação estaria errada e seria utilizada para prejudicar as classes mais baixas e favorecer os mais ricos.

Resende argumenta que isso teria ficado claro com a resistência do mercado financeiro à PEC da Gastança. “O gasto primário, para atender necessidades básicas da população carente, seria inflacionário, mas o gasto com o serviço da dívida, com o bolsa rentistas, não“, diz o texto assinado pelo economista e publicado na edição de hoje do Valor Econômico.

O alto patamar dos juros reais brasileiros (o mais alto do mundo, de acordo com ele) não tem auxiliado o combate à inflação e “ao contrário do que se poderia prever, a diferença entre a inflação do grupo dos altistas (países que subiram mais significativamente as taxas nos últimos meses) e a dos demais países parece ter aumentado, não diminuído“, defende.

Certo ou errado, o importante aqui é que o economista inaugura a briga por uma mudança na postura, do agora autônomo, Banco Central. Vale lembrar que em fevereiro do ano que vem, os diretores de Fiscalização, Paulo Sérgio Neves de Souza, e de Política Monetária, Bruno Serra Fernandes, encerram os mandatos, abrindo duas vagas para indicações do presidente eleito Lula.

As diretorias do Banco Central são extremamente relevantes na condução da política monetária porque todos os diretores votam nas reuniões do Copom (Comitê de Política Monetária), que decidem a trajetória da taxa básica de juros no país. Ao todo são oito votos, mais a posição do presidente da autarquia.

Neste ano, além dos dois mandatos que terminam em fevereiro, outros dois diretores encerram as funções no último dia de 2023. Isso significa que, a partir de 2024, o presidente Lula terá indicado metade da diretoria do Banco Central do Brasil. Ainda não será o bastante para impor o pensamento econômico defendido por André Lara Resende, mas, com certeza, será o suficiente para dividir as decisões e começar a mudar significativamente a comunicação do Comitê. (Fonte: O Antagonista)

VARIAÇÃO DO PIB – PRODUTO INTERNO BRUTO – Século XX

VARIAÇÃO DO PIB – PRODUTO INTERNO BRUTO – Século XX

MÉDIA ANUAL – Em %

2001/2010       2011/2020       2021/2022*     Período 2001/2022

Mundo           3,93                 2,87                 9,60                 3,57

Brasil               3,73                 0,30                 3,70                 1,99

 

RESULTADO ACUMULADO DO PERÍODO – Em %

2001/2010       2011/2020       2021/2022*     Período 2001/2022

Mundo             46,84               32,48               7,54                 113,21

Brasil               43,91               2,68               5,47                 58,51

*Projeções

É preciso urgentemente desarmar a perversa combinação de fatores que vem penalizando e tornando absolutamente incompatível o crescimento econômico brasileiro de forma vigorosa e contínua. Na verdade, a equação que se vem jogando no País tem se constituído em uma armadilha formada pela conjugação de juros estratosféricos, carga tributária excessiva e câmbio valorizado. O resultado só pode ser um: o empobrecimento do país!

Não é utopia imaginarmos que o PIB do Brasil possa crescer cinco, oito ou dez por cento ao ano. A China, a Índia e outros países da Ásia vêm demonstrando isso há mais de vinte anos. É o que se chama de ciclo virtuoso de crescimento econômico e éo que mais nos falta nos dias atuais.

Não precisamos imitar os modelos asiáticos, pois um dia já vivemos essa realidade.

Juscelino Kubitschek de Oliveira

Há meio século, Juscelino Kubitschek de Oliveira anunciava que o Brasil cresceria cinquenta anos em cinco, o que veio a se confirmar. No ritmo de crescimento atual, o Brasil pode demorar muito tempo para se transformar em Nação desenvolvida e obter o desempenho alcançado pelo Governo de JK!

De 1956 a 1961, o País efetivamente, em apenas cinco anos, registrou um crescimento acumulado próximo de 48%, o que representa uma média anual superior a 8%.

Essa experiência histórica, conduzida por um mineiro de Diamantina, não pode se constituir numa simples lembrança de um passado já quase longínquo. Ela deve ser a nossa inspiração e o nosso exemplo, para que o Brasil venha novamente abraçar a causa do desenvolvimento.

“Minha formação de médico me leva a uma noção integrativa de desenvolvimento, a partir da célula nacional, que é o município, com a sua rede interna de distritos, a coalisão de municípios individuando o Estado, como a coalisão de tecidos forma um órgão e a de órgãos forma aparelhos e sistemas, que constituem, em sua harmonização funcional superior, o corpo nacional.

Daí minha política municipal já ter sido conscientemente integradora, desenvolvimentista, organicista. E assim também foi conduzida coerente com ela, em doutrina e prática, minha política estadual e nacional, com a extensão que esse modo de ver acabou assumindo no âmbito continental sob o título de Operação Pan-Americana. 

Nesse conceito de Desenvolvimento, o núcleo é o Homem, que se pretende ver elevado como ser humano e como ser social por meio da evolução econômica, entendida essa nos termos em que a apresentei acima. Portanto, quando disse “produzir mais” compreendi Máquina e também Homem, organismos industriais e também sociais, instituições administrativas e também políticas – entidades e entes atuantes em qualquer setor e região nacionais”.

Falta-nos planejamento estratégico de médio e longo prazo. Estamos carentes de uma intelligentsia nacional. A administração dos governos brasileiros parece muito mais com uma corrida de obstáculos, onde se busca superá-los para a conquista da vitória apenas conjunturalmente. E, lamentavelmente, a gestão das principais questões nacionais não vem sendo tratada como deveria e acaba, simplesmente, postergada a solução dos principais entraves nacionais. No meu entendimento, “nunca na história deste país”, a discussão e o debate dos principais problemas econômicos nacionais estiveram tão pobres e desprovidos de propostas eficazes, como nos últimos anos. Tem sido péssimo conteúdo e deplorável a qualidade do debate econômico.

Juscelino Kubitschek de Oliveira a

O Brasil precisa se reconciliar com o crescimento econômico vigoroso, consistente, contínuo, sustentável e eleger o desenvolvimento como a nossa meta prioritária número 1!

O crescimento econômico vigoroso deve deixar de ser apenas uma casualidade, uma questão ou uma efemeridade, um acontecimento meramente fortuito para se transformar, efetivamente, na grande meta econômica nacional, permeando a convolação do País em uma economia madura e desenvolvida. Nesta direção, já tivermos antes, vários exemplos de sucesso e que poderiam nos servir de inspiração, como o caso do Plano de Metas, implementado durante o governo JK.

Transformar o Brasil em nação desenvolvida – essa deve ser a nossa bandeira e visão de futuro. E, nesse sentido, impõe-se uma mudança radical de mentalidade. Não há mais tempo a perder e essa deve ser a decisão imediata a ser tomada e inadiável por mais tempo. Se não a iniciarmos nos restará, tão-somente, o consolo do atraso e com ele também chegará, inevitavelmente, a desordem institucional atrelada a ameaças à nossa democracia.

Não se pode continuar aceitando nem mais tolerar que o Brasil seja condenado ao atraso e ao subdesenvolvimento. Essa não é a nossa sina nem poderá ser o nosso destino!

O Brasil não pode prescindir do crescimento: o estoque de problemas econômicos e sociais, acumulados, eleva-se exponencialmente, apesar da desaceleração da taxa de crescimento da população. Só a expansão da economia preencherá as condições necessária para o enfretamento e atenuação dos mesmos.

Requer ao Brasil buscar a sua transformação em país desenvolvido, como foi o Chile, assim declarado alguns anos atrás. Assim como vem funcionando o “Sistema de Metas de Inflação”, o Brasil deveria estabelecer outro modelo similar, com a implantação de um “Sistema de Metas de Crescimento Econômico Vigoroso e Contínuo”, estabelecido através de planejamento estratégico de médio e longo prazo.

País que não cresce é país condenado à pobreza e ao subdesenvolvimento, e, por isso, torna-se imprescindível o estabelecimento de uma “Agenda Estratégica para o Desenvolvimento Nacional” – em que a transformação do Brasil em nação desenvolvida seja o grande objetivo.

*Textos dos discursos de JK foram extraídos da Coletânea “Juscelino Kubitschek: Profeta do Desenvolvimento – 2018/MercadoComum – de minha autoria.           

 

*Administrador, Economista e Bacharel em Ciências Contábeis, com vários cursos de pós graduação no Brasil e exterior. Ex-Executive Vice-Presidente e CEO do Safra National Bank of New York, em Nova Iorque, Estados Unidos. Ex-Presidente do BDMG-Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais e do Banco de Crédito Real de Minas Gerais; Foi Secretário de Planejamento e Coordenação Geral do Governo de Minas Gerais e Diretor-Geral (Reitor) da Faculdade Estácio de Sá de Belo Horizonte; Ex-Presidente do IBEF Nacional – Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças e da ABDE-Associação Brasileira de Desenvolvimento; Coordenador Geral do Fórum JK de Desenvolvimento Econômico; Presidente da ASSEMG-Associação dos Economistas de Minas Gerais.  Presidente da MinasPart Desenvolvimento Empresarial e Econômico, Ltda. Vice-Presidente da ACMinas – Associação Comercial e Empresarial de Minas. Presidente/Editor Geral de MercadoComum. Autor de vários livros, como a coletânea intitulada Juscelino Kubitschek: Profeta do Desenvolvimento.

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