Da natureza mal tratada - Stefan Bogdan Barenboim Salej*
Da natureza mal tratada - Stefan Bogdan Barenboim Salej*
Da natureza mal tratada – Stefan Bogdan Barenboim Salej*
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Começando por listar os desastres que estão assolando o país, a tristeza das pessoas atingidas por enchentes, secas, raios, e tudo mais, este artigo não acabaria nunca. Ou a força divina está castigando este Brasil que acreditávamos que era imune a todo tipo de desgraça, ou então tem algo na natureza do homem de não querer entender o que está acontecendo.

De um lado, é no país inteiro que estão acontecendo os chamados desastres naturais. Do Oiapoque ao Chuí. Até neve tivemos. Esquecemos geadas e quebra de safra de café há alguns meses. Esquecemos queimadas há pouco no Centro-Oeste. E nos fazemos cegos pelo desmatamento da Amazônia, o maior nos últimos dez anos. Não tem nenhum pedaço do Brasil que não tenha sido atingido por algum tipo de chamado desastre natural. Até terremoto temos.

Há enormes prejuízos econômicos, e um custo econômico quase que incalculável em todos os setores , mas há um custo humano ainda maior. Se a isso tudo somarmos a epidemia do coronavírus, sem falar em zica, tuberculose, e outros males, como a nova variante da gripe, chegamos à simples conclusão de que temos um país diferente, que precisa ser olhado e planejado de forma diferente.

A discussão sobre a origem destes fenômenos é interminável. Definitivamente alguns deles poderiam ser evitados por políticas públicas em todos os níveis. O negacionismo do governo federal de fenômenos com queimadas na Amazônia, desmantelamento de instituições científicas e de pesquisa como o INPE e a falta de ação quando acontece, de resposta à crise, contribuíram para que os desastres fossem maiores. A defesa civil, que funciona a posteriore, depois do desastre, como também os bombeiros, tem recursos limitados e parte da história deles é também o lamentável episódio do treinamento no interior em São Paulo, quando morreram os recrutas numa gruta por falta de cuidado da própria guarnição.

A situação em Minas ainda é mais critica por causa de configuração geográfica e suas riquezas minerais. Os mineiros permitiram através de séculos que os ganhos a curto prazo deixassem para próximas gerações buracos, mortes, como as de Mariana, Macacos, Brumadinho, entre outras, e um estado que está se tornando economicamente inviável e difícil de viver. É impressionante a fragilidade estrutural de norte a sul de Minas. Uma hora de chuva em uma das cidades mais bem organizadas, como Uberlândia, destrói a cidade. As pontes e estradas parece que foram construídas para facilitar que sejam reconstruídas de tão frágeis parecem. Minas teve uma das melhores escolas de engenharia, empresas de construção que apesar do escândalo da Lava Jato, construíram no mundo inteiro, e parece o que foi projetado e construído em Minas não aguenta chuva forte. E chove todo ano e chove forte todo ano.

Todos só reagem aos desastres. Os que tem conhecimento científico para prever não são ouvidos. Os que gritam são tachados de chatos, inconvenientes e doidos. Inclusive assim foi com o lendário ambientalista Hugo Werneck. Os políticos se beneficiam dessa desgraça prometendo e não resolvendo nada. O Estado como ente administrativo não tem um projeto com visão a longo prazo para aliviar o que esta acontecendo. E isso não será parte do debate eleitoral porque não ha visão sistêmica, mas soluções a posteriore, no máximo má gestão de desastres.

Em resumo, os jovens não protestam, os velhos somos chatos, as entidades empresariais cheias de dinheiro exploram ainda mais essa situação para defender empregos que não são empregos, mas aumentam a riqueza de alguns para gerar a desgraça dos muitos. Minas já foi melhor do que isso. É triste, mas é verdade. E pode sair dessa situação, porque os que sabem como fazer não faltam. Mas tem que ter coragem para lutar. A natureza por si só não é um desastre, é bela, é linda, nos alimenta, mas temos que cuidar dela.

*Empresário, ex-Presidente da FIEMG – Federação das Indústrias de Minas Gerais.

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