Da guerra da Ucrânia em Minas
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Stefan Bogdan Barenboim Salej*

A primeira vítima da guerra é a verdade. Isso não é verdadeiro, as primeiras, as últimas e sempre vítimas são as crianças que vão carregar por resto das suas vidas os horrores da guerra. Nasci durante a Segunda Grande Guerra dos pais e avos que viveram a Primeira Grande Guerra e vivi a guerra nos Balcãs nos anos noventa. Nunca saiu da minha memória a falta de comida, prédios destruídos, a menina bósnia órfã que meus pais adotaram após a guerra e as únicas brincadeiras que conhecíamos como crianças eram matar os nazistas. Na guerra não há vitoriosos, todos, todos sem exceção sofrem as consequências e elas duram em todos sentidos, mas principalmente nas almas das pessoas.

Brasileiros que vivem outras guerras, mas que acolheram milhões de imigrantes de tantos conflitos armados, não imaginam os horrores da guerra. Viveram a Segunda Grande Guerra com os soldados da Força Expedicionária Brasileira e com afundamento dos navios brasileiros pelos nazistas. Mas, também viveram um balançar das políticas do governo Vargas em definir do que lado que Brasil estava. Até a vexamosa entrega de Olga Benário aos nazistas teve nesse balanço político a definição de que o Brasil só podia estar do lado do mundo democrático.

Hoje, estamos vivendo os tempos complexos na reestruturação da política internacional. Essa guerra entre Rússia e Ucrânia está mudando o mundo. Para começar, os países como Brasil, relativamente autossuficientes em alimentos e energia e com capacidade industrial razoável, serão porto seguro para os investimentos. Haverá uma nova e diferente onda de desenvolvimento.

Os preços das commodities, em especial o que Minas produz, vão subir. Isso vai criar inflação interna, mas também vão faltar componentes e produtos que são importados. Não vai subir só o preço de trigo, mas componentes para indústria automobilística não chegarão mais com a mesma facilidade de antes. Crescerá a necessidade de se reindustrializar o país, mas com uma indústria que precisa ser bem mais competitiva.

Em resumo, teremos de procurar as soluções que levam em consideração a disponibilidade de matérias primas disponíveis por aqui. Bom exemplo, bem simples, é a comparação entre pão de queijo versus pão francês O primeiro tem ingredientes todos da terra mineira, e o segundo trigo importado que subiu de noite para dia mais de 30 %. O mesmo vale para etanol versus gasolina. E assim adiante em vários produtos.

Devemos também lembrar neste triste episódio que ainda não tem fim, que quase 3 milhões de ucranianos saíram do país. No Brasil vivem mais de 600 mil ucranianos, a maioria no Paraná. Que política de receber estes refugiados o Brasil tem?

Há um item mal resolvido como consequência dessa guerra. Os fertilizantes que compramos dos países em conflito, em especial da Rússia. Primeiro, temos que dizer que é uma vergonha e irresponsabilidade de vários governos não terem incentivado a produção de fertilizantes no Brasil. Se estamos ambicionando ter uma agricultura competitiva, deveríamos levar em consideração este elemento. O segundo, dependendo da extensão do conflito, a supply chain de fertilizantes será um problema no preço, na logística e vai afetar em muito a nossa produção.

E o mercado russo para carnes, café, e outros produtos inclusive nióbio de Araxá, como vai ficar?

Nada será igual após este conflito. Os políticos mineiros estão preocupados com as eleições em outubro e a pauta de reinvindicações das forças de segurança locais. É justa essa preocupação, mas quem se preocupa com o amanhã que bate de forma violenta na nossa porta?

*Empresário, ex-Presidente da FIEMG – Federação das Indústrias de Minas Gerais.

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