Consolo - CRÔNICAS - Olavo Romano
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Consolo – CRÔNICAS – Olavo Romano
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remédio de amostra. Expediente quase no fim, Doutor Sebastião foi lá fora, viu chegando um casal da roça. Gente muito pobre, mal alimentada e, era capaz de apostar, cheia de cisma com comida: isto assim-assim é quente, o povo diz que aquilo é reimoso, tem muita mistura que mata na hora: manga com leite, por exemplo, é bater e valer. O médico despachou o cliente anterior, que se queixava de uma bruta dor no peito respondendo na cacunda. Depois mandou entrar o casal de roceiros. Muito encabulados, ficaram em pé, o homem rodando o chapéu com as das mãos; ela, mirradinha, olhos pregados no marido, vendo o que ele ia fazer. O convite do Doutor Sebastião resolve a dúvida:

— Vamos sentar. Fiquem à vontade.

Sentam sem fazer barulho, permanecem em silêncio. O médico pergunta:

— Então, como vão as coisas?

— Remando. Como Deus é servido – responde ele.

— Qual é o problema?

— E ela, Doutor.

— O quê que a senhora sente? – indaga o médico.

— A pobre anda numa patifaria que faz dó – responde o marido, tomando a dianteira.

O médico insiste com a cliente:

— Então vamos ver. Como é mesmo o nome da senhora?

— É Domitila. Domitila Maria de Jesus.

— Muito bem. Idade?

A mulher, devagar, vai desembuchando: tem quase cinquenta, completa dentro de dois meses. Queixa de desânimo, falta de apetite, uma fraqueza na cabeça sem arrumação. Vira e mexe o marido entra no meio, dá um palpite, corrige a fala dela. Paciente, o médico mede a pressão, examina a língua, os olhos, a garganta. Manda a mulher deitar numa cama, apalpa, pergunta mais uma porção de coisas, escuta, escuta. Por fim, senta de novo, pega papel e caneta, começa a escrever a receita. Acaba e diz, bem explicado, para os dois:

— Dona Domitila anda meio anêmica. O organismo precisa de um reforço para reagir. Receitei um fortificante, toma de oito em oito horas três vezes ao dia. Essas vitaminas também vão ajudar. E tem as injeções. Alguém lá por perto faz injeção na veia?… Pois o senhor pede a esse compadre de vocês, aplica em dias alternados, dia sim, dia não. Entenderam?

Disseram que sim, ele deu umas amostras, só a injeção é que não tinha, achavam na farmácia. Antes de levantar, o homem pergunta:

— Quanto lhe devo Doutor?

— Não é nada não.

— E os remédios?

— Também são de graça.

— Então, Deus lhe pague.

A mulher emenda:

— E Nossa Senhora há de proteger o senhor e toda sua família, dar vida, saúde e felicidade.

— Amém. Muito obrigado.

Doutor Sebastião faz uma recomendação final:

— É bom reforçar a alimentação, comer bastante couve e, se puder, um fígado de boi de vez em quando. A senhora tolera bem o fígado?

O marido, uma vez mais, é quem responde:

— Quá o que, Doutor, danada de ruim de boca, coitada. Luxenta pra comer que só ela.

O médico insiste:

— Mas é importante forçar um pouco. Ajuda o efeito do remédio. E avisa: “Mais uma coisa, hein: dentro de uns três meses, terminando a receita, voltem de novo. Aí a gente dá outra olhada, muda algum medicamento, acompanha a situação”.

O casal sai, muito agradecido e menos encabulado. Na farmácia, ele conta o dinheiro e paga o que o caixeiro lhe cobra pela injeção. O rapaz explica que é na veia, o homem diz que o doutor já tinha falado, o compadre aplicava.

Meses depois o médico encontra na rua o marido da cliente.

— Dia, Doutor. – o homem cumprimenta.

-— Bom dia. Como vão as coisas?

-— Tenteando: meia pedra, meio tijolo.

— O senhor sumiu, não apareceu com a patroa.

— É. Não deu jeito não senhor.

— E como é que ela vai passando?

— Ah, Doutor, Deus chamou a pobre coitada.

Sem graça, o médico dá os pêsames ao viúvo e pergunta o que houve, como é que foi.

—A gente ia matar porco de manhã cedo, ela dormiu animada, gostava demais daquela função, gente ajudando, casa cheia.

—E aí?

—Aí, Doutor, quando acordou, tava morta.

— Mas ela tomou os remédios?

— Quase que a receita toda.

— E chegou a sarar?

— Sarar, mesmo, ela não sarou não senhor…

Olha bem o médico e remata:

— …mas, graças a Deus, morreu bem melhorzinha

*olavoromano@task.com.br

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