Política Econômica
Cenários Econômicos: avaliação político-econômica do Brasil atual e o quadro internacional
Cenários Econômicos: avaliação político-econômica do Brasil atual e o quadro internacional
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Luis Paulo Rosenberg*

1.Cenário Internacional

China: Sem inflação, com crescimento de atividade, ainda que a ritmo mais brando. Combate radical a surto localizado de covid engendra rupturas das cadeias produtivas, com impacto induzido sobre inflação e produção sobre a economia mundial. É o mais sereno polo regional, praticamente neutro em relação aos problemas e desafios do resto do mundo.

Europa: Para a Comunidade, o alinhamento é claro: solidariedade politica e econômica à Ucrânia, priorizar punição econômica sobre a Rússia, mesmo que com custos econômicos polpudos para si, mas sem envolvimento militar direto. Já Putin percebeu que a conquista militar só se faria com recorrência a estratégias militares capazes de detonar um conflito de proporções incalculáveis. Somando-se ao ônus das retaliações econômicas, a Rússia parece ter optado por limitar sua ambição: garantir sua saída para o Mar Negro, “liberar” as províncias do Leste ucraniano e garantir que a OTAN não acolherá a Ucrânia como membro. Entretanto, parece preferir a via militar à negocial para atingir estes objetivos e está concentrando seu poder de fogo nas duas províncias. Pobre Europa, que vê destruição em seu território depois de 75 anos, com consequências humanas e econômicas duradouras. De fato, se a inflação já a atormentava, as retaliações contra a Rússia já compromissadas, tornam o encarecimento de seu processo produtivo inevitável. Consequentemente, pode-se esperar um endurecimento de seu banco central, com juros mais elevados e atividade cadente. Em nada a ajuda o enfraquecimento do euro, a cereja no sorvete inflacionário regional. Portanto, Europa será força de arrasto ao longo de 2022.

Estados Unidos: o país encontra-se em meio a uma de suas maiores pressões inflacionárias: mercado de trabalho aquecido, gastos públicos volumosos e bolsas em seus picos históricos. Acabou, portanto, a leniência do Fed, que há anos vem privilegiando a manutenção do emprego. Fazia sentido não subir juros para combater uma inflação de oferta, decorrente da pandemia. Mas quando 4,5 milhões de assalariados, ao mês, vêm-se demitindo voluntariamente para aceitar empregos mais bem pagos, a realidade se impõe: é hora de tacar com enxugamento de liquidez, seja via subida direta dos juros, seja pelo encolhimento das posições em papéis do Fed. O mercado já se deu conta da virada de mão, mas não do seu peso: juros de 10 anos orbitando em 3,5%, veremos em alguns poucos meses. Na nossa avaliação, os juros vão subir bem mais do que os mercados futuros estão projetando. Garantia de desaquecimento intenso e rápido da atividade, com queda da inflação a prazo mais curto. Assim, a inflação atual, que beira os 8%, deverá estar próxima de 3% ao final de 2023; entretanto, o PIB que vem crescendo a mais de 5%, estará caminhando para menos de 2% celeremente.

II.Cenário Econômico Doméstico

Atividade: ainda que o Setor Primário venha a ter um bom ano, o bônus dos preços elevados de commodities tende a amainar com o desaquecimento global. Indústria sofre queda por razões estruturais, capenga para enfrentar abertura ao comércio internacional. E Serviços, que vem recuperando o encolhimento abrupto imposto pela pandemia, vai perder dinamismo, como reflexo dos juros persistentemente elevados. Destaque para o setor imobiliário, o mais sensível a juros punitivos. Observe que pouquíssimas categorias sindicais estão conseguindo repor as perdas inflacionárias. Consequentemente, apenas os programas de compensação de perda de renda pelo Governo dão combustível para a atividade econômica. Projetamos, então, crescimento do desemprego nos próximos meses e PIB crescendo cerca de zero por cento neste ano.

Banco Central BR
Banco Central BR

Inflação: a reversão do patamar de dois dígitos da inflação de doze meses vem ficando para o mês que vem há quase um semestre. O repasse para preços domésticos da alta internacional do petróleo vai adiar por mais alguns meses a reversão, mas que virá certamente no começo do segundo semestre. Quando os dados mais favoráveis surgirem, o Banco Central será conduzido inexoravelmente a baixar a Selic, que não deverá fechar o ano acima de 9%. A inflação deverá estar rodando, na margem, próxima de 3%, em dezembro. O irônico será o Banco Central cantando vitória, sem remorso pelo sacrifício desnecessário que nos impôs, combatendo com um instrumento de coibir excesso de demanda, uma inflação originada por choques de oferta.

Contas Externas: céu de brigadeiro. saldo comercial pujante, ainda que na margem será prejudicado pela recessão mundial, que diminuirá o valor das nossas exportações. No fluxo financeiro, entradas suplantam saídas com folga: mesmo que o fluxo diminua para renda fixa – dada a subida dos juros americanos – nossa bolsa continua a ganhar goodwill perante os olhos dos investidores internacionais. Mesmo assim, a tendência do real é de continuar valorizando-se, caindo abaixo dos R$ 4,5/dólar; basta lembrar que nossos exportadores estão mantendo cerca de US$ 70 bilhões em exportações já performadas no exterior e parte deste montante estará entrando, quando a percepção de que os juros domésticos atingiram seu pico e retardar a conversão em reais deste estoque está ameaçada de ocorrer a uma taxa mais desfavorável.

Política Econômica: a execução fiscal continua sendo admirável: receitas neste ano estão 13% acima das de igual período do ano passado, em termos reais. Desta forma, o saco de bondades que o presidente vem acessando com recursos públicos não vem gerando uma explosão do déficit fiscal (curiosidade: onde estão aqueles que profetizavam explosão fiscal, com risco de calote, no segundo semestre do ano passado, como argumento para subida drástica de juros?). Já na politica monetária, parece que ocorreu um lampejo de objetividade no Banco Central, cuja oratória voltou-se para criticar as projeções de juros Selic ultrapassando 13%, sugerindo que até eles perceberam que exageram na dose. É um primeiro indício de que poderemos ter reversão da trajetória de alta ao longo do segundo semestre. A dúvida agora é quanto de queda da taxa de cãmbio a Autoridade Monetária aceitará, antes de entrar comprando dólares. Nossa suspeita é de que, dada a ajuda da valorização do real na luta contra inflação e o clima de disputa eleitoral, esta intervenção não ocorrerá antes que a taxa caia abaixo de R$ 4/dólar.

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III.Quadro Politico: Bolsonaro foi o grande ganhador neste mês. Aplainou seu discurso radical, conquistou quadros numerosos para seu partido PL e agregados satélites, melhorou sua comunicação com a sociedade e subiu valiosos pontos na corrida eleitoral. Adicionalmente, Lula atravessou o samba, insistindo no discurso estatizante, clamando por manifestações nas casas de parlamentares de Direita e prometendo revogar os avanços alcançados na legislação trabalhista. Na terceira via, embaralhamento total, com o sai-não-sai de Dória, a insistência de Leite de ganhar no tapetão a batalha perdida das prévias do PSDB, o abandono não anunciado do Podemos por Moro, deixando na brocha seus aliados que se mudaram de mala e cuia para o Partido e a insistência de Ciro de continuar candidato. De positivo, a manifestação formal do União Brasil, PSDB, MDB e Cidadania de que procurarão convergir para uma candidato só: Tebet? Dória? Hartung? Mas, como sabemos, “tra dire e fare, c´è mezzo il mare!”

*Economista e Consultor, com carreira destacada nas áreas acadêmicas, empresarial e na atividade pública. Bacharel em economia pela USP, Mestre e Ph.D em economia pela Vanderbilt University, atuou como assessor do Ministro Delfim Neto, responsável pelos setores de Ciência, Tecnologia e Investimentos em Energia. Foi membro da equipe de negociação com o FMI.

Atuou como professor de renomadas universidades, como a Fundação Getúlio Vargas, Universidade de Brasília e ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica). Atua também em diversas mídias, como comentarista econômico da Folha de S.Paulo, Rádios Jovem Pan, Eldorado e Bandeirantes e das revistas Carta Capital e MercadoComum. Teve diversos trabalhos produzidos e apresentados em Fóruns nacionais e internacionais. Atuou, ainda, como VP do Sport Club Corinthians.

No universo corporativo, foi membro do Conselho da Cia. Suzano, Nestlé e Banco BBVA. Foi VP de marketing do Sport Club Corinthians entre 2008 e 2011. Hoje é Consultor Sênior da Rosenberg Associados, sócio da Rosenberg Partners.

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