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Francisco Alves Brant

Jornalista

Comunicados escritos são recursos usados com alguma frequência entre chefes de Estado. Mas a sabedoria popular ensina, por outro lado, que “papel aceita tudo”. Então, o fato de o presidente brasileiro haver escrito uma carta ao novo mandatário norte-americano será eficaz para convencer Biden a crer na regularização das relações entre os dois governos em bases institucionais, depois do padrão informal e ideológico do relacionamento entre Bolsonaro e Trump?
Não faltam ao Brasil e aos EUA motivos para seguirem pautarem seu relacionamento por interesses concretos. A carta autoproclama a histórica e notória união entre as duas nações, “por estreitos laços de fraternidade (…)”, e elenca itens exequíveis de uma agenda de objetivos práticos que lhes são comuns. Entretanto, cabe perfeitamente indagar se esse documento significa uma tática preventiva de recuo do Brasil ante a iminência de pressões para que se alinhe com a política ambiental do governo Biden e com a sua ênfase em revalorizar o foro das instituições multilaterais como a ONU, OCDE, OMS e OMC nos entendimentos com o Brasil e demais nações; ou se é de fato um sinal do começo de reposicionamento do Brasil nas relações internacionais?
O embaixador americano no Brasil, Todd Chapman, saudou a carta de Bolsonaro por seu foco em questões práticas da agenda de interesses mútuos que vêm de governos anteriores, como o uso da base de Alcântara (MA) pelos EUA, para lançamento de satélites. O próprio embaixador destacou, porém, que “há desafios” e é preciso que se preste “muita atenção nas palavras e nas comunicações para trabalhar de maneira disciplinada” e chegar a “uma relação produtiva para os dois lados”, por meio de uma “conversa franca e honesta” sobre divergências que existam entre eles.
Desde já fica evidente que carta de boas intenções, embora positiva, não basta, e, a surrada retórica direitista e de retrocesso nos costumes tampouco seduz e resolve. As conversas diplomáticas precisarão acontecer no patamar da sensatez e comedimento, mesmo nas discussões de temas sensíveis. O representante dos EUA no país não cometeria o erro de chamar atenção para o passado recente e desastroso da nossa “diplomacia”, que pregou como motivo de orgulho e “vantagem” o Brasil ser “um pária internacional”. Mas os fatos precedentes recomendam cautela, pois essa inusitada e escabrosa política externa – uma verdadeira jaboticaba, raríssima em outros países – já manchou com nódoas os tecidos das relações com a França, Alemanha, Noruega, Argentina e, sobretudo, com a China e, há poucos dias, até com a Índia.
Isto sem falar sobre a humilhante subserviência aos pés de Trump, que, ao contrário dos presidentes Clinton, Bush e Obama – para ficar apenas nos três anteriores – sequer se dignou a visitar o Brasil nem a atender os pleitos contra a taxação do alumínio que exportamos, por exemplo. Endeusado “guru” político do atual governo, Trump não precisou se preocupar com o Brasil, certo de que seria apoiado em qualquer trapalhada. Como, aliás, aconteceu após a apuração total dos votos e a condenável invasão do Capitólio, quando o presidente brasileiro e o seu ministro de Relações Exteriores justificaram as estapafúrdias acusações do candidato derrotado nos EUA de que as eleições americanas teriam sido fraudadas.
Há, pois, um déficit enorme a ser coberto pelo Planalto para restabelecer um relacionamento institucional autêntico e soberano com o novo governo norte-americano. Embora tardia, a carta dirigida ao presidente Biden deu a aparência de que o país relegou o seu atual e estranho conceito de “diplomacia” e optou por uma mensagem diferente das habituais expressões utilizadas para tratar de assuntos e personalidades de Estado, internos ou externos, sem o devido cuidado com a linguagem e a liturgia institucionais – como se as relações internacionais fossem determinadas por amizades verdadeiras, ou hipócritas, entre governantes, e não por naturais e legítimos interesses ou desacordos mútuos entre os países.
Ora, o novo presidente dos EUA está naturalmente bem informado sobre as dificuldades representadas pelo perfil voluntarioso do atual presidente brasileiro e por sua administração desnorteada. Em nós, brasileiros, dói perceber a clara contradição entre sabermos que a democracia e a liberdade no Brasil se encontram sob frequentes pressões de viés autoritário, e ler na carta a Biden que americanos e brasileiros “estão unidos pelo firme apreço às liberdades fundamentais, ao estado de direito e à busca da prosperidade através da liberdade”. E ver e saber também que a floresta amazônica nunca foi tão desmatada pela ação ilegal e criminosa de madeireiros e de minerações ilegais – agora estendida também ao cerrado e ao Pantanal –, enquanto a mesma carta afirma que o Brasil está pronto para continuar na “parceria em prol do desenvolvimento sustentável e da proteção do meio-ambiente, em especial a Amazônia, com base em nosso Diálogo Ambiental, recém-inaugurado.”
Por essas e outras contradições, cabe mesmo se interrogar sobre o significado real da mensagem endereçada à Casa Branca. Se foi inspirada pelo presidente da República, trata-se de uma surpreendente e pronunciada incoerência em face de fatos ocorridos e palavras proferidas até então. Mas como todos têm direito de mudar de conceitos e atitudes, embora haja poucos motivos para esperança, pode-se com excesso de boa vontade enxergar um sinal de mudança dos desacertos para a sensatez. Mesmo se tiver resultado da avaliação inteligente de um estado-maior, não há ainda, porém, garantia de que as palavras escritas vão ser levadas a sério para valer e de que o documento não seja um exemplo de “papel que aceita tudo”, como afirma o ditado.
Pode-se prever, entretanto, que as prioridades do novo governo americano não ficarão só no papel, pois são um compromisso feito na campanha para que os EUA virem a recente página infeliz da sua história política. Assim, somente novos atos concretos do governo brasileiro podem validar as novas palavras como início da mudança de rumos. Para não serem apenas uma tática psicossocial, como a que passou a ser empregada à exaustão, e com fins eleitorais, no súbito “empenho” de Brasília em combater a pandemia de Covid 19 – até poucas semanas atrás, alvo de total e irresponsável negacionismo que já resultou na morte de mais de 217 mil brasileiros.
Apesar de seu potencial positivo, capaz teoricamente de superar uma série de equívocos e erros deliberados, e de iniciar a reparação dos estragos feitos, a carta não consegue disfarçar sua pretensão de ministrar “lições” e transmitir diretrizes sobre o que o governo brasileiro entende ser “a defesa da democracia e da segurança em nosso hemisfério”. Segundo a mensagem, estariam “em risco conquistas democráticas em nossa região”, e não satisfeito com essas advertências, vê “graves ameaças com que hoje se deparam a democracia e a liberdade em todo o mundo (…)”.
Também não procede a alegação de que “governos brasileiros anteriores” teriam afastado “o Brasil dos EUA”. Nem tais governos, nem qualquer outro de nossa história – inclusive aqueles que foram alvos da intromissão de americanos em assuntos internos do país, como em 1964 – jamais deixaram de considerar a necessidade e o valor histórico e geopolítico das boas relações com a mais poderosa nação da Terra, nossa vizinha de continente.
Discurso de ideias fixas nesse sentido não interessa à nova política externa dos EUA, às voltas em recuperar seu prestígio e se reposicionar no contexto internacional complexo, multifacetado e globalizado. Propagar intensamente, no Brasil de hoje, um perigo indefinido associado ao uso de quimeras ideológicas retrógradas, visa na realidade prática amedrontar, dividir e intimidar a população brasileira, para assegurar a reeleição a todo o custo, com ajuda das vozes estridentes de seguidores fanáticos. Com as fakenews que espalham a esmo, eles intentam minar a confiança na democracia e nas instituições brasileiras, desde o Congresso até o Judiciário, projetando sombras sobre as Forças Armadas e os órgãos de segurança.
O processo eleitoral que elegeu Biden derrotou o padrão populista e danoso de Trump e aliados, de conceberem e fazerem política. Agora, ele ficou patente para a maioria dos norte-americanos, mas parece ainda estar adormecido na mente de muitos brasileiros. Assim, só a palavra escrita da carta a Biden não basta para convencer a todos, aqui e fora do país, da sua sinceridade de propósitos. É preciso também que o governo brasileiro dê testemunhos em palavras verdadeiras e em viva voz, que profiram compromissos inequívocos e estabeleçam objetivos e novas atitudes em favor da real democracia e do bom e pacífico convívio internacional.
Aliás, esse é um imperativo a ser cumprido! Steve Bannon, um dos principais ideólogos de Trump, foi indultado pelo ex-presidente no apagar das luzes de seu governo. E solto, estará disponível para voltar a semear a paranoia política que elegeu o seu chefe, mas o fez perder a reeleição. Certamente, ele tentará promover a volta de Trump não apenas nos EUA, onde pode, entretanto, sofrer impeachment e cassação dos direitos políticos, mas também junto a seus aliados daqui e alhures, onde seus aprendizes, cegos nas cavernas escuras do fanatismo ideológico, deliram em pesadelos de revanche.
Pode-se prever, entretanto, que as prioridades do novo governo americano não ficarão só no papel, pois são um compromisso feito na campanha para que os EUA virem a recente página infeliz da sua história política. Assim, somente novos atos concretos do governo brasileiro podem validar as novas palavras como início da mudança de rumos. Para não serem apenas uma tática psicossocial, como a que passou a ser empregada à exaustão, e com fins eleitorais, no súbito “empenho” de Brasília em combater a pandemia de Covid 19 – até poucas semanas atrás, alvo de total e irresponsável negacionismo que já resultou na morte de mais de 221 mil brasileiros, até 29/01/21.
Também não procede a alegação de que “governos brasileiros anteriores” teriam afastado “o Brasil dos EUA”, a não ser quando predominaram “considerações partidárias a partir de certo momento no governo Lula e no governo Dilma (…)”– como observou o embaixador Rubens Barbosa em artigo no Estadão do dia 26/01. Nem tais governos, nem qualquer outro de nossa história – inclusive aqueles que foram alvos da intromissão de americanos em assuntos internos do país, como em 1964 – jamais deixaram de considerar a necessidade e o valor histórico e geopolítico das boas relações com a mais poderosa nação da Terra, nossa vizinha de continente.

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