O agronegócio é um assunto ainda pouco debatido. Vamos tratar das principais características que diferenciam e dificultam este indispensável setor da economia e mostrar que, apesar dos enormes desafios, como a produção de alimentos tem atendido tão bem a sociedade brasileira.

Chamamos de agronegócio todos os segmentos produtivos envolvidos na produção de alimentos, combustíveis renováveis (álcool, biocombustíveis, carvão, lenha), e outras matérias primas, como madeira, p.ex., formando uma extensa cadeia produtiva que vai desde a produção de insumos e serviços para a produção rural, passando pela produção primária propriamente dita, até os segmentos que processam e distribuem os alimentos e demais produtos rurais. Então, o agronegócio não é só a produção de alimentos in natura e grãos, como muita gente pensa. Mas é essa produção primária que faz girar uma cadeia de negócios que é muito importante para o país e que representa cerca de 1/3 do PIB nacional, ou seja, 33% da riqueza produzida no país.

Mas atenção: o agronegócio tem especificidades que dificultam muito sua produção e sua viabilidade econômica em relação aos demais setores da economia. Vamos então avaliar algumas destas especificidades.

A forte concorrência é uma das características mais marcantes da produção rural – e a menos notada pela sociedade – que conta com mais de 5 milhões de propriedades no Brasil. A agropecuária é o segmento da economia que mais se aproxima da "concorrência perfeita", o que significa que os ganhos, os lucros ou as margens dos produtores são, na média e no longo prazo, os menores possíveis. Isto quer dizer que produzir alimentos e matérias primas no campo é sempre, na média, um negócio de rentabilidade mínima, seja qual for o tamanho do negócio ou do produtor.

Outra importante característica da produção rural é a chamada "sazonalidade de preços", que está associada aos ciclos biológicos da produção, ou seja, a produção tem safra e entressafra, o que significa grande variação e incertezas de preços recebidos pelos produtores. Assim, o negócio rural é, economicamente, muito mais arriscado para o empresário rural.

Além do grande risco de preços, a agropecuária está sujeita a toda sorte de pragas e doenças (ou risco biológico), como plantas invasoras, insetos, fungos, bactérias e um sem-número de doenças que podem inviabilizar os negócios ou aumentar muito os custos de produção.

Outra variável incontrolável da produção rural é o clima. Muito sol, muito frio, muita chuva, pouca chuva, ventos, umidade ou seca podem determinar o sucesso ou o fracasso da produção. Assim, o clima impõe mais um pesado risco para o produtor rural em relação aos demais setores da economia.

A mais recente dificuldade – que se parece cada vez mais com uma verdadeira praga – é a ingerência ambiental oficial descabida sobre a produção agropecuária. Os órgãos públicos ambientais criaram um emaranhado infernal de regras, normas, taxas, multas, burocracia, fiscalização e ameaças que pôe em risco a viabilidade da produção rural. São regulamentos criados por burocratas e políticos que desconhecem o que é produzir e que representam uma guilhotina permanentemente erguida sobre o pescoços do produtor rural. Não levam em conta que quem fez do Brasil um dos países ambientalmente mais bem preservados do mundo – segundo a Embrapa, quase 2/3 do território brasileiro está preservado – foram os produtores rurais. Ao invés de orientar e fiscalizar as grandes ameaças ambientais como o lixo e esgoto urbanos e a mineração (vejam Brumadinho, Mariana, os Rios das Velhas e Tietê, etc, etc), fazem cair o rigor do estado sobre aqueles que eventualmente cortam uma árvore para a manutenção de sua propriedade enquanto deixam várias outras crescerem, porque o produtor sabe que a preservação ambiental interessa sobretudo a ele, que não carece do garrote do estado.

Vimos assim que a produção rural é um negócio muito difícil e extremamente arriscado – sem considerar que os serviços básicos, como educação, saúde, energia, conhecimento, segurança e lazer – são muito mais deficientes no campo.

Mas, mesmo assim, o agronegócio tem sido o setor de maior crescimento e desenvolvimento do País. Como assim? Como este aparente paradoxo é possível?

A resposta está na produtividade, que melhora os ganhos econômicos do produtor. Nas últimas 4 décadas, desde 1975, a produção agropecuária brasileira mais que quintuplicou, passando de cerca de 41 milhões de toneladas de grãos para 233 milhões de toneladas. A produção de carnes (bovina, suína e de frango) passou de 3 milhões de toneladas para 24 milhões de toneladas. E o mais importante neste processo é que mais de 80% do aumento da produção decorreu do aumento da produtividade – em síntese, o aumento da área plantada explica somente 20% do aumento da produção, ou seja, mais eficiência no setor: enquanto a produção quintuplicou, a área só aumentou 60%.

Isto significa que a produtividade do agronegócio cresce cerca de 3,5% ao ano neste período, passando de 1,5 toneladas/hectare para 3,8 toneladas/hectare na produção de grãos. Isto representa 3 vezes mais do que ocorreu no resto do mundo.

Assim, o que nós vemos, portanto, é que, apesar de todos os pesares, os produtores rurais brasileiros têm dado um belo exemplo de persistência e esforço com muita competência. Mas, se como vimos, a produção rural é tão difícil e arriscada, como explicar essa persistente e consistente eficiência do agronegócio? As explicações são muitas e não são triviais, mas ouso destacar três.

A primeira é a concorrência natural do setor que, como vimos, resulta em lucros mínimos. Assim, para manter ou aumentar a sua renda, o produtor necessariamente tem de manter ou aumentar sua produção na mesma área de que dispõe, o que implica em aumentar a produtividade, que é o que tem ocorrido.

A segunda é a natureza cultural do produtor. O produtor rural é um ser terra-a-terra, traz consigo uma cultura e valores atavicamente lidados à produção e à propriedade da terra. A exploração da terra e o estilo rural é a sua essência e representa aquilo que ele sabe e quer fazer. Assim, a persistência na produção é uma característica cultural do homem do campo. Aqui, a mobilidade para fora do campo é muito mais rígida e não representa uma alternativa viável sob os valores do produtor.

A terceira explicação para a persistência do produtor rural refere-se ao caráter de capital fixo que tem a terra. Ela é o fator central da produção e representa, como regra geral, o maior investimento do empresário. Ao mesmo tempo, a terra como capital fixo é um ativo de baixíssima liquidez, ou seja, é um bem de difícil venda. Isto, somado às enormes incertezas da economia brasileira e ao fato de a terra ser o grande patrimônio do produtor, resulta em um cenário de rigidez econômica para o produtor, que não vê na venda da terra uma solução confortável para sua sustentação econômica.

Por fim, e não menos importante, a permanência produtiva da agropecuária é explicada pela disponibilidade de tecnologias e conhecimentos que permitem ganhos de produtividade e de resultados econômicos ao produtor. Para garantir renda e sustentabilidade econômica, a sua única alternativa é o aumento da produtividade. E, felizmente, o agronegócio brasileiro tem sido pródigo em oferecer à produção agropecuária soluções tecnológicas efetivas para o aumento da produtividade, com destaque para práticas de manejo bem sucedidas (como o plantio direto, rotação de culturas, combate biológico de pragas e doenças, etc, etc), variedades melhoradas e resistentes (transgênicas ou não), defensivos eficientes e seletivos, adubação eficaz, máquinas, equipamentos e implementos modernos, automação e agricultura de precisão, melhoramento genético, etc, etc.

De fato, hoje há um conjunto de conhecimentos e tecnologias para o campo que permitem ao produtor ganhos contínuos de produtividade e eficiência que lhe possibilita manter ou ampliar a produção para fazer face à concorrência e exigências do mercado, garantindo sua sustentabilidade econômica. Portanto, o aumento da produtividade é o fator-chave de sucesso para o agronegócio brasileiro. Os ganhos de eficiência neste processo nas últimas 4 décadas foram notáveis:

  • o país passou de importador de alimentos para ser o terceiro maior exportador mundial e o segundo maior produtor;
  • o PIB do agronegócio cresceu cerca de 400%, contra cerca de 170% da indústria e 340% dos serviços;
  • o valor real da cesta básica caiu cerca de 80%;
  • o superávit comercial do agronegócio com o exterior foi de cerca de U$ 664 bilhões, contra um déficit de U$ 313 bilhões dos outros setores.

Portanto, pessoal, quando fizerem suas refeições, ou tomarem uma bebida – sim, bebidas, o café, o leite, os sucos e até a indefectível cachacinha – quando abastecerem os carros, usarem papel ou virem uma feira ou quitanda, não se esqueçam: um enorme batalhão de produtores (mais de 5 milhões) e trabalhadores rurais, tenazes e persistentes, trabalha muito em situações de auto risco e muita incerteza, para a alimentação e bem estar da sociedade.

* Por Rúbio de Andrade
Economista. Diretor da MinasPart Desenvolvimento Empresarial e Econômico, Ltda.

 

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