O comércio internacional ganhou novos contornos nos últimos dias. A guerra comercial entre China e Estados Unidos foi estendida ao México e cancelada antes mesmo de vigorar. Trump comemorou a reviravolta, mas os analistas começaram a questionar a efetividade do bônus Americano decorrente desta estratégia. O vizinho sulista fez mais do mesmo, renovou as promessas de intensificar a imigração ilegal, o que foi suficiente para o republicano voltar atrás por ora. O fato é que os desdobramentos da conjuntura atual afetam o Brasil e o mundo de forma diferente.

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Enquanto a escalada tarifária se restringia às duas potencias econômicas, o Brasil surfava uma onda dúbia. Por um lado, a restrição chinesa a produtos americanos redirecionava a demanda local para a oferta brasileira. Este movimento fez com que a exportação dos produtos básicos nacionais crescesse ao longo dos primeiros meses do ano. Por outro lado, o cenário internacional nebuloso ganhou dimensões maiores com a manutenção do conflito e provocou a queda generalizada da demanda mundial por produtos de outras nacionalidades, inclusive a brasileira.

Os desdobramentos da imposição tarifária ao México e de seu posterior cancelamento são outros. Em primeiro lugar, o país sul-americano não possui a mesma força econômica e política que a China. Neste caso, as pressões americanas tendem a ser acatadas com menos resistência. Caso os Estados Unidos voltem atrás ou imponham novas regras, o que pode ser feito a qualquer momento, os efeitos secundários devem impactar comércios regionais. Diante da iminente conjuntura, os produtos mexicanos absorvidos pela demanda vizinha podem ser redirecionados aos países atendidos pelo Brasil. Neste caso, haverá um fornecedor de produtos manufaturados competitivo brigando por um mercado cuja expectativa de crescimento é irrisória. A já machucada manufatura brasileira pode sofrer um golpe duro neste processo.

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Os contornos gerais do ambiente que se desenha não são positivos para o Brasil. A parcela benéfica da onda dúbia citada anteriormente perde força. Em contrapartida, o desaquecimento do comércio mundial ganha um componente adicional: a possibilidade de o gigante americano voltar seu arsenal tarifário para outros países por diferentes motivos, movimento que seria difícil para qualquer analista político mapear, aumenta a incerteza sobre o futuro e contribui para arrefecimento do comércio mundial.

EMPRESAS E SETORES: Indústria automobilística em foco

O setor automotivo continua evoluindo, ainda que de forma modesta, conforme mostram os dados divulgados na semana passada pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores – ANFAVEA. A melhora observada no resultado foi influenciada pelo crescimento do setor e pela base fraca do ano de 2018, quando sofreu com a “greve dos caminhoneiros”.

Na comparação dos dados do mês de maio com o mesmo período do ano anterior, observa-se que a produção de veículos novos teve uma alta de 30%, as vendas de veículos alta de 22% e a exportação queda de 31%, influenciada pela crise na Argentina, principal destino de veículos fabricados no Brasil.

No mercado interno, as vendas de caminhões se destacaram com crescimento de 21,6%, seguido pelas vendas de veículos leves, com alta de 16%. Analisando a base histórica de vendas, os volumes estão se aproximando do patamar do ano de 2014. Já os dados de níveis de emprego no setor apresentam redução de 1,7% contra o mesmo mês de 2018, refletindo os impactos da crise econômica.

O mercado externo poderá influenciar na balança brasileira de exportação de veículos, que vem sofrendo com a baixa demanda. O governo argentino fechou parceria com setor automotivo para tentar impulsionar o mercado, que no mês de maio apresentou redução de 63% contra o mesmo mês do ano anterior. Essa medida irá demandar maiores pedidos, trazendo um respiro às exportações brasileiras.

Nos EUA, o presidente Donald Trump, chegou a anunciar que iria tarifar diversos produtos importados do México a partir do dia 10 de junho em 5% ao mês, inclusive veículos, podendo chegar em até 25% em outubro. Voltou atrás na decisão, após negociar com México maior controle em suas fronteiras contra a imigração ilegal.

Gestão: Novos anúncios, velhos problemas

Tudo que é bom dura pouco. Aquilo que você deseja, você atrai. Aquilo que você deseja muito, você repele. Embora se assemelhe a um preceito budista, vale para a política, para a economia e os mercados. “tweet a day scares investors away” (um tweet por dia espanta os investidores, na tradução livre). Pergunte ao presidente dos EUA, em visita à Grã-Bretanha na semana passada, aquela que registrou a maior alta semanal do ano para os índices americanos, +4,7%. Até o México aproveitou a ocasião e procurou seu vizinho para anunciar medidas de contenção à imigração ilegal e assim evitar a aplicação de sobretaxas sobre suas exportações. Às vezes, a melhor ação é nenhuma ação.

Na semana, foram conhecidos ainda os dados sobre a criação de postos de trabalho nos EUA em maio, com 75 mil vagas, 100 mil a menos que o esperado. Ao contrário do que a intuição possa sugerir, às vezes, bad news sounds good news (más notícias soam boas notícias, na tradução livre) uma vez que a aparente fraqueza na atividade abre espaço para novos cortes da taxa dos Fed Funds na próxima reunião do FOMC, percepção esta que ganhou corpo ao longo da semana e tem pesado sobre o desempenho do dólar (-1,3% na semana) frente a demais moedas. Já no Brasil, os movimentos foram mais tímidos, após o forte desempenho da semana anterior e de confusões para todos os gostos.

Dentre as principais ocorrências da semana, destaca-se a deterioração da situação do conglomerado Odebrecht após o pedido de recuperação judicial de seu braço sucro-energético Atvos e da desistência, por parte da belga Liondell Basel, de compra de sua participação no capital da Braskem, controlada do grupo.

Se declarados vencimentos antecipados de dívidas (R$ 100 bilhões no total) e executadas garantias cruzadas, o conglomerado poderá pedir proteção contra credores, com reflexos negativos sobre o setor financeiro. Para esta semana: destaque no Brasil para os dados do IBC-Br, referentes a abril, na sexta-feira; no cenário externo para os dados do CPI, referentes a maio nos EUA, na quarta-feira, (esperado 0,1%); para a Produção Industrial da zona do Euro, referente a abril, na quinta-feira (esperado -0,5%% M/M); e para a Produção Industrial e Vendas no Varejo da China, referentes a maio, na sexta-feira (esperados +5,5% e +8,1% A/A, respectivamente).

 

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