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Por: Olavo Romano

 

Foi em 16 de julho de 1696, dia consagrado à Virgem do Carmo, que o bandeirante Salvador Fernandes Furtado de Mendonça e sua gente destemida fundaram o arraial a que deram o nome de Nossa Senhora.

A promessa do lugar não era o diamante, chispa de luz faiscando no centro da bateia. Nem o bamburro, sorte grande na labuta do garimpo. A promessa do lugar para onde iam era o ouro, sol oculto nas minas que deram nome à região. Depois de longa jornada, bruacas e cangalhas chiando nas ladeiras, os animais em marcha lenta entre lajedos e pirambeiras, venceram as solidões bravias de Itaverava. Então, encantados, avistaram, do alto da Serra do Bento Leite, “o mais belo panorama de suas jornadas”, como relata Salomão de Vasconcelos. Acamparam “à margem da torrente, onde o ouro a mancheias logo a todos deslumbrou”. O Coronel Furtado de Mendonça, comandante da numerosa bandeira, fundou ali o arraial que viria a ser a primeira vila de Minas, a “Leal Vila do Ribeirão do Carmo”. Na tarde daquele mesmo dia, no Mata-Cavalos, o Padre Francisco Gonçalves Lopes erguia o primeiro altar da terra mineira, fixando, no dizer do Cônego Trindade, “a era cristã de Minas Gerais”.

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Em 1745, Dom João V elevou Vila do Carmo à condição de cidade, para tornar-se a sede do primeiro bispado de Minas Gerais e acolher Dom Frei Manuel da Cruz. Deu-lhe o nome da esposa e assinalou a vocação mariana da primeira cidade de Minas.

Nomeado Bispo de Minas e S. Paulo em abril de 1745, só em agosto de 1747 partiu de São Luis. Viajando a pé, a cavalo e de canoa, enfrentou chuva e doença, chegando a Mariana em 15 de outubro de 1748, carregado.Extenuado, só se apresentou publicamente em 28 de novembro.

Para celebrar a chegada do bispo primaz, instalou-se aqui a célebre Academia do Áureo Trono, na qual poetas e oradores celebraram as virtudes do prelado e as qualidades da urbs mater da mineiridade.

Estudioso da nossa história, foi por certo ao se lembrar da primeira Academia de Minas que o erudito Governador Antônio Anastasia convidou o Presidente da Academia Mineira de Letras para falar nesta hora cívica.

Deve-se aqui ouvir o sentimento de Minas na escuta do eco da montanha. Nada seria mais grato ao Presidente da Academia Mineira de Letras que estar na cidade de nosso patrono, o grande Alphonsus de Guimaraens, e render um preito de emoção ao espírito de Minas, luz que jamais se apaga.

Berço de Cláudio Manuel da Costa, cantor das musas do Ribeirão do Carmo, e de Manuel da Costa Ataíde, o pintor sublime das nossas igrejas monumentais, Mariana é a terra de Zizi Sapateiro, em cujas telas refulgem os clarões do Apocalipse, e de Artur Pereira, o mágico escultor de Cachoeira do Brumado, cujo olhar de Michelangelo revelava na madeira os animais ali ocultos. O cônego Luís Vieira da Silva, tocado pelas luzes do século XVIII, aqui pregou a liberdade e a fraternidade, e Dom Antônio Viçoso fez do serviço da fé um exemplo de santidade. Dom Silvério Gomes Pimenta daqui partiu para o púlpito do Concílio Vaticano I e a tribuna da Academia Brasileira de Letras. Dom Helvécio Gomes de Oliveira espalhou escolas pelo Estado e Dom Oscar de Oliveira semeou museus. A palavra de Dom Luciano Mendes de Almeida irradiou-se mundo afora. Dom Geraldo Lyrio Rocha sustenta a projeção nacional e internacional de Mariana, na lição singular da primeira cátedra episcopal de Minas.

O Museu da Música guarda partituras eruditas de trezentos anos. Onze bandas de música, algumas bicentenárias, animam ruas e praças, alegrando a alma do povo. O Conservatório Mestre Vicente e o Sesi empenham-se na formação de orquestras. Elisa Freixo, a única brasileira a ter a chave da catedral de Chartres, é titular do Arp Schnitger, jóia rara da Sé, único exemplar fora da Europa, e espalha sua refinada arte por vários cantos de Minas. Mariana mantém-se, pois, fiel ao expressivo legado musical iniciado no século 18, de que são exemplo a produção de Lobo de Mesquita, Castro Lobo e Manoel Dias de Oliveira.

Urbana antes de ser rural, Minas viu o encontro de aventureiros paulistas com nativos da região, portugueses e africanos resultar numa mestiçagem inédita na colônia, uma cultura única, com manifestações artísticas que perenizaram o talento de nossa gente e contribuíram para o surgimento de uma civilização mineira numa época em que, nos engenhos do nordeste, Casa Grande e Senzala eram territórios inconciliáveis.

A cidade, lugar de encontro e convivência, é território propício a inconfidências e sonhos de liberdade, ecoando as mudanças que incendiavam o Velho Mundo.

Costuma-se pensar no mineiro típico como alguém que, enrolando um pito de palha, matuta, reflete, filosofa, acautela-se, medindo água e fubá. Tal proceder decorreria do isolamento entre montanhas, da falta de horizontes. Ou da desconfiança, defesa contra aventureiros, ladrões de ouro ou espiões do governo de então.Fala-se também da esperteza, da dissimulação, do santo do pau oco, da ladineza.

Aos mineiros, da região das minas, se contraporiam os geralistas, dos gerais, sertão onde imperou Riobaldo Tatarana, o Urutu Branco, tendo Sete Lagoas como boca, sendo Montes Claros seu coração robusto.

Mineira e geralista, nossa gente assunta, sopesa, acha rumo e prumo antes de se lançar ao eito de qualquer lavoura. Reflete com a montanha, perscruta fundos abismos antes de abrir caminho e fluir com o rio. No caminho, aprende na sabedoria popular, nascida de espiar o mundo e por sentido. Estado-síntese, a Minas insubmissa e generosa nunca negou sua presença, jamais se omitiu nos momentos graves da nacionalidade.

Em Mariana, alta madrugada, alguém pode ouvir estúrdio tropel. E pensa baixinho, pelas frestas: “É Felipe dos Santos querendo desassombrar a gente”. E lá vai o pobre Alphonsus, com seus responsos, em litanias de onírica poesia, vindas do céu na asa do luar. Alguém recita Alceste, o poeta-inconfidente, feito pastor pelos cânones do arcadismo. Com Santa Rita Durão, recita a épica aventura de Caramuru, a morte trágica de Moema, o casamento com Paraguaçu, batizada Catarina na corte lusitana.

Nessa Minas múltipla, nascida de Mariana, Emílio Moura e Dantas Mota, entre gostosas baforadas, poetam palha, fumo e fumaça; para esquecer a morte da porta-estandarte, Aníbal empreende fantasiosa viagem aos seios de Duília, Affonso Arinos profetiza Brasília ante o buriti perdido. E o poeta municipal, na maior pachorra, tira ouro do nariz.

 

(Para Danilo Gomes, Angelo Oswaldo, Luiz Giffoni e Octávio Elisio)

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