A pregação desenvolvimentista de JK
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“Ele pensava nos cem anos seguintes.”

(Carlos Murilo Felício dos Santos, primo de JK)

Cesar Vanucci*

Interrompemos a narrativa sobre o comício de JK em Uberaba, anotando a extraordinária repercussão alcançada pela sua fala eletrizante, culta, rica em vibração democrática.  No Largo da Matriz, cada qual na multidão se sentia mais gente, mais capaz e confiante. Então, o Brasil era ou podia ser tudo aquilo e a gente, bestamente, não sabia nadica de nada a respeito? Instante de pura magia. Ressalte-se que aquele clima de saudável e benfazejo entusiasmo acabaria, adiante, por envolver o Brasil do Oiapoque ao Chuí. O magnetismo do orador traçava impecável itinerário de trabalho, encharcado de humanismo e poderoso aceno social. E o toque lírico da palavra convincente! As tais borboletas que ele sabia como ninguém introduzir nos textos de conteúdo mais áspero. Corações e mentes iam sendo conquistados para a causa do redescobrimento do Brasil.

O momento culminante da concentração política em Uberaba ocorreu por conta de um incrível lance retórico, acolhido em atmosfera de delírio, própria de conquista de Copa do Mundo. Tantos anos passados, as palavras acodem-me ainda com exatidão. Assim falou JK. Abre aspas. “Ao sobrevoar hoje esta maravilhosa cidade, lembrei-me de Chicago.” Fecha aspas.

O comício acabou ali. Não deu pra segurar. Uma meia dúzia de uns três ou quatro mais ousados escalou pela frente o palanque, balançando-lhe a estrutura. Juscelino refez-se da surpresa inicial e caiu na gargalhada ao ser arrancado pra fora e carregado em triunfo diante do aturdimento dos companheiros. A cidade viveu carnaval temporão, tão ou mais animado do que o convencional.

Exagero retórico (e bota exagero nisso) à parte, o que acabou ficando mesmo guardado na memória e no coração das pessoas, não evidentemente por causa da frase de efeito, mas por conta do contexto otimista do pronunciamento, é que estava despontando, no espaço político, um cidadão com papo novo sobre a realidade brasileira. Um homem que acreditava de verdade (e passava essa crença adiante) nas potencialidades de seu país e nas virtualidades de seu povo. Um político que não embarcava na cantilena derrotista de tantos outros que se acostumaram a enxergar os defeitos brasileiros com descomunais lentes de aumento e a denotar arrepiante conformismo com a ideia errônea, disseminada em muitos setores, de que o cidadão aqui nascido, antes de tudo, é um fraco. Um tipo apático, condenado inexoravelmente a destino desprovido de grandeza, à submissão eterna, sem perdão, a decisões de gente mais sábia, viventes de fala arrevesada d’além-mar.

JK representava um sopro nacionalista renovador. Vinha mostrar a existência, sim, de uma luz no final do túnel. Como aconteceu em Uberaba e se repetiu em milhares de outros comícios, Brasil afora, transmitia a todos a inabalável certeza de que a obscuridade nos caminhos – passageira, circunstancial – era fruto de uma visão retrógrada do mundo e das pessoas. E não resultado de adversidades fatalísticas inapeláveis. O criador de Brasília proclamava, com convicção, ser preciso passar do discurso para a ação. Convidava os bem-intencionados a abandonarem o excesso academicista que costuma condenar as propostas sociais a um imobilismo teórico. Pedia às lideranças que deixassem de lado fórmulas estereotipadas, chavões inócuos, com que se procurava retratar, comumente, em tantos lugares, a realidade nacional, e arregaçassem as mangas de verdade, botando pra fazer. Todo mundo era chamado, na convocação daquele líder de irradiante simpatia, a ajudar a fazer o futuro com engenho e com trabalho. Muito trabalho.

Em suma, os brasileiros se deram conta, de repente, que o cenário morno, acomodado, estava sendo revolvido por pregação revolucionária, cristalinamente democrática, inspirada em vibrantes propósitos de promoção social.

*Jornalista e escritor

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