Nada garante que o que o ministro Paulo Guedes estava fazendo antes da pandemia era o que precisava ser feito. O pior é que as chances de ele aprovar [no Congresso] o que pensava eram muito baixas. A criação do Ministério da Economia foi o primeiro grande erro do [presidente] Bolsonaro. Magnificou a probabilidade de erro. Juntaram tudo e aquilo se tornou uma coisa grande, errada e ruim. Salvo a Reforma da Previdência, que já vinha sendo discutida, não havia um ambiente preparado para implementar aquelas mudanças radicais que o ministro queria. Por isso, quando veio a pandemia foi fácil dizer que ela não deixou as outras reformas serem aprovadas e o crescimento mais vigoroso acontecer. Na gestão Bolsonaro, Paulo Guedes não compreendeu a natureza da situação emergencial que estávamos vivendo. Ele não queria cuidar da pandemia, foi o Congresso que reagiu. Ao ser chamado na Câmara, informou que pretendia gastar entre R$ 3 bilhões e R$ 5 bilhões para aniquilar a pandemia. Hoje já gastamos quase R$ 500 bilhões. Pressionado, Guedes queria conceder um auxílio emergencial de R$ 200. O Congresso elevou para R$ 500 e o Bolsonaro fixou em R$ 600, para tentar recuperar o protagonismo político.
O FMI, o Banco Mundial e todos estavam projetando uma queda do PIB no ano passado de 9%. Virou 4,5%. A julgar por isso, vamos mostrar um desempenho melhor do que esperavam. Ninguém imaginava que o Brasil, na situação fiscal que estava, fosse se dispor a gastar muito para fazer o que fez. É que as forças políticas no país são atuantes e o governo Bolsonaro politicamente fraco, não conseguia impor nenhuma política. O Paulo Guedes não conseguiu fazer nada a não ser tocar mais ou menos a Reforma da Previdência, que na verdade foi tocada pelo Congresso. Ele entrou de carona, com o agravante: sequer fez que ela valesse automaticamente para estados e municípios, onde o problema previdenciário é maior. E sobre o auxílio emergencial vemos que a situação hoje é pior do que em 2020. Os depoimentos das pessoas que atendem na área de assistência médica são de chorar. Não dá mais para R$ 300, vão ter que fazer algo como R$ 450.”

*Texto extraído de entrevista concedida pelo economista Raul Velloso- ex-secretário de Assuntos Econômicos do Ministério do Planejamento, considerado um dos maiores especialistas em contas públicas do país, concedida a PODER – JOYCE PASCOWITCH – 02.02.202