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Olavo Romano

 

Tenho em mãos verdadeira preciosidade: uma carta de três páginas, caprichosamente manuscrita, com data de 21 de janeiro de 1984: vinte e nove anos redondos, portanto.

A frase inicial – “Tudo aqui corre mais ou menos” – foge ao padrão da época e ao estilo da missivista. Cartas antigas costumavam começar com um “Aqui vamos bem, só o que nos maltrata é a saudade de vocês”. Um tom mais afogueado produzia algo assim: “É com o coração dilacerado pela saudade que pego da pena para enviar-lhe estas mal traçadas linhas”. Mas havia lugar também para o texto curto de um bilhete, logo depois da data, do “Prezado amigo” e “Saudações”: “O fim desta é …” comunicar a morte de alguém, pedir um empréstimo, saber notícia de um parente ou amigo adoentado, alguém doente, etc.

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Fraterno amigo meu, vindo do interior, de calças, curtas para ser office boy em um banco, sem adivinhar que chegaria a vice-presidente de outro, recebeu, por portador, carta de casa reclamando: “Já faz três dias que você foi embora e até hoje não deu notícia! Não está com saudade de sua mãe?”.

Voltando à carta que você vai ler em seguida, e, especialmente, à missivista (só para ficar na linguagem da época) que a subscreveu, quem a conheceu sabe que, para dizer que as coisas corriam mais ou menos é porque elas estavam praticamente insuportáveis.

Viajadora tarimbada, Tia Isaura começou organizando excursões com a turma do serviço. Das chamadas estações de águas, principalmente Poços de Caldas, São Lourenço, Araxá, Caxambu, animou-se até Caldas Novas, aventurou-se pelo nordeste, numa espécie de self service de baixo custo, passando noites em ônibus, tomando banho de gato, dormindo e comendo em locais baratos.

 

Antes viagem a Potosi-La Paz, passando por Copacabana e Puno, cidade adormecida, capim brotando nos telhados, a caminho do Titicaca, coalhado de rústicas embarcações de totora, Isaura arriscara-se no “trem da morte”.

No trajeto de Puerto Quijarro, próximo a Corumbá, até Santa Cruz de la Sierra, foi adotada por mochileiros cabeludos e sem dinheiro, “uns moços muito bonzinhos que ajudavam a gente pra tudo que precisasse”. Inclusive ir “ao banheiro”, ajudando-a a descer do trem em lenta marcha na subida e rebocá-la de volta ao vagão depois de rápido pipistop atrás de alguma moita.

Mais tarde, ampliando roteiros, bater perna pelo mundo, encantando-se com as cúpulas douradas de Moscou e São Petersburgo, os castelos do Loire, as ruínas de Atenas, os monumentos de Roma, os campos de nudismo da Escandinávia, que visitou sem preconceito, mas com cautela (“se eu fosse mais nova, ainda vá lá…).

Monoglota juramentada, tinha um jeito pessoal e criativo de se situar em qualquer lugar. Uma vez, em Copenhagen, seu grupo se perdeu durante um passeio – mesmo sendo a maioria culta, experiente e, alguns, poliglotas. Conversa daqui, discute dacolá, olha mapa, nada. Ela apontou o caminho de volta ao hotel com detalhes que não davam margem a dúvidas. O segredo? Madrugadora, rodeava o quarteirão do hotel e, ampliando sucessivamente o perímetro, demarcava pontos principais para os próximos passeios. Ela, que nunca usou celular, tinha um GPS de fazer inveja.

Permitindo-me esta homenagem a uma figura humana marcante, faço, a você que me lê, o convite para esta viagem no micro de quase trinta anos atrás: um pequeno ônibus em que as pessoas mal podiam ficar de pé.

Boa viagem.

“La Paz, 21/01/84

Dina,

Tudo aqui corre mais ou menos. Até Sucre a viagem foi ótima, cidade muito bonita, com um

antigo Palácio (hoje Prefeitura, com jardins lindos). Saímos de lá dia 14 às 8 horas da manhã

para chegar em Potosi às 3; infelizmente quando chegamos na entrada da cidade, ela estava

bloqueada pelos mineiros do Cerro Rico das minas de prata.

Tivemos que dormir dois dias e duas noites no micro, mais ou menos igual aqueles que têm

dentro da cidade de Sete Lagoas. Quinta feira cedo fomos para Potosi a pé e dormimos numa

pensão – sem banho –, corremos toda a cidade. Sexta feira cedo o micro foi nos apanhar para

continuarmos a viagem para La Paz, pois a greve havia terminado.

Mais ou menos às 5 horas da tarde chegamos num lugarejo onde não encontrava nada; aí

começou a greve dos Campesinos; aí dormimos dentro do micro. Na manhã seguinte, depois

de muita conversa com eles, passamos.

Seguimos para Patacamaya e aí os mineiros são mais incompreensíveis (ou ivos), ficamos no

tal lugar sábado e domingo, numa pensão pior do que a outra.

Segunda feira cedo, 6 horas, saímos para passar na barreira. Combinaram que Idalina e

eu e outro homem adoecessem com falta de ar, dor de estômago. Tivemos de chorar para

fingir doença e, como éramos estrangeiros, deixaram passar. A segunda barreira, a mesma

comédia; mas na terceira eles buscaram com soldados uma ambulância para nos levar para

La Paz, mais ou menos meio dia, isto é, só nós três doentes.

Aí a dona do micro pediu para não irmos para seguirmos de isca para a frente. Ficamos nesta

estrada até 4 horas e como tinha muita barreira para frente (mais ou menos quinze), em cada

uma a mesma cena: choro, falta de ar, etc.

Chegamos ontem (20) em La Paz às nove horas da noite. O micro estava com trinta

bolivianos e todos nos emprestaram agasalhos, etc. Levamos sete dias (seis noites) para

chegar. Eram só doze horas de Potosi aqui. Paisagens lindas, povo sofredor. Tudo sem banho

e com a mesma roupa. De trem não tinha problema, mas não para nestes lugares.

Vamos ficar aqui hoje e amanhã e quinta feira seguiremos para Puno, via Copacabana. Daqui

até lá levaremos uns sete dias; voltaremos para La Paz e seguiremos viagem de volta, mais

ou menos pelo dia 2 de março. Penso que chegaremos aí lá pelo dia 7 ou 8.

La Paz está chovendo muito; já demos umas voltas.

Peço a Deus que tudo aí continue como sempre.

Um abraço a todos.

Isaura

No mais foi tudo muito engraçado. A Idalina está escrevendo tudo e vai dar uma cópia para o

Olavo. O peor de tudo é que quando chegamos aqui as roupas estavam molhadas. A bagagem

vem em cima do micro e molhou a mala. Secamos nos cabides do guarda-roupa.”

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