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Política cambial prejudica empresas brasileiras e agronegócio pode puxar o cresc imento do Brasil e de Minas

João Camilo Penna
Ex-ministro da Indústria e Comércio

 

Crítico de algumas medidas adotadas pelo governo federal, o ex-ministro da Indústria e Comércio, João Camillo Penna, classifica a situação da desindustrialização brasileira e mineira como alarmante.

Para ele, há uma política de desvalorização do real frente ao dólar como forma de segurar a inflação, o que prejudica ainda mais as empresas brasileiras que competem com indústrias chinesas.

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Diante desse contexto, o engenheiro afirma que o desempenho de Minas Gerais está atrelado ao crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, consequência das semelhanças nas vocações econômicas. Contudo, Camilo Penna ressalta que investimentos no agronegócio, setor no qual a China não é competitiva, podem fazer com que Minas retome taxas de crescimento acima da média nacional. No campo político, o ex-ministro cobra maior pressão sobre a bancada mineira no Congresso, que na sua visão, é fraca e pouco articulada.  

Como o senhor avalia o momento da economia brasileira?

O Brasil é o sétimo país do mundo em PIB, mas em renda per capita nós ocupamos a 80ª posição. Isso é uma coisa séria. Já o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é importante porque mede a expectativa de vida ao nascer, educação, saneamento básico e renda per capita.

Se considerarmos esse indicador, o Brasil ocupa o 98º lugar no ranking de países. Por isso, o governo e toda a sociedade devem fazer um imenso esforço para elevar não só a renda, mas o IDH.

Diante desse quadro, como está a postura do governo?

Não estou vendo nenhuma ação do governo federal, estadual e municipal para mudar essa situação. O País arrecada em impostos 37% do PIB, sendo que 22% ficam com o governo federal, 10% para os estados e 5% para os municípios. A presidenta administra 22% da riqueza brasileira, que é muita coisa. Mas o que se faz ainda é muito pouco, mesmo com a melhoria registrada nos últimos anos. Acho que o governo federal investe muito pouco. Está havendo investimento menor do que o déficit. Isso é gravíssimo.

A falta de investimento está promovendo um processo de desindustrialização?

A desindustrialização está quebrando muitos empresários e as indústrias estão fechando ou sendo vendidas. Não estou exagerando. É preciso ter um arsenal de medidas sérias sobre isso. Cabe ao governo brasileiro desvalorizar a sua moeda. O dólar deveria valer R$ 2,50 e não R$ 2,00, como tem oscilado atualmente. A moeda norteamericana já esteve em R$ 2,80.

O câmbio tem tirado a competitividade das empresas brasileiras?

A China tem a sua moeda desvalorizada, enquanto o real está valorizado. O yuan (moeda chinesa) deveria valer hoje 30% mais. E, para piorar, o governo brasileiro está segurando o dólar para combater a inflação, enquanto a melhor forma de conter a escalada de preços seria diminuir os gastos públicos. Por isso, as indústrias nacionais estão fechando ou tornando-se importadores da China. Isso é muito importante, sério e grave.

E os custos na China também são bem menores.

A China tem 300 milhões de pessoas do campo esperando licença do governo para poderem migrar para as cidades. Por isso, o custo da mão de obra não vai subir tão cedo. Também é sinal de que a cidade está saturada.

Lá a mão de obra custa em média US$ 100 por mês. Não o salário mínimo, é a remuneração média. Para ganhar US$ 100 por mês tem 300 milhões na fila. Até absorver todo esse pessoal, vai demorar uns 30 anos. E a jornada de trabalho por lá é de 60 horas por semana, enquanto aqui a maior é de 44 horas semanais. É um custo de mão de obra imbatível.

Então não há como disputar mercado com a China?

A China tem 4,6 engenheiros por 10 mil habitantes e no Brasil a proporção é de 1,6 para cada 10 mil. O juro básico chinês é de 1% e no Brasil a Selic está em 7,5%. Os tributos lá são de 20%, enquanto aqui são 37% do PIB.

A China tem 22 ministros, dos quais 16 são engenheiros ou cientistas. O Brasil tem 38 ministérios, todos com indicação política. É impossível uma presidenta despachar com 38 ministros. O Brasil tem que se preparar para conviver com a China. Seguramente, entre 2020 e 2025, ela vai passar os Estados Unidos como maior potência no que se refere ao PIB.

Em qual setor o Brasil pode ser forte?

No agronegócio, o Brasil e Minas Gerais são praticamente imbatíveis em concorrência com os chineses. É uma área que se pode entrar com mais confiança, pois eles não têm disponibilidade de terra e de água para produzir alimento em grande escala. Se você fizer uma fábrica de automóvel, vem a China e faz mais barato. Na área da indústria de transformação, todo cuidado é pouco.

Isso vale para o Brasil e para Minas Gerais?

Minas Gerais tem uma forte imbricação com o Brasil e desempenho deles está ligado. Assim, a primeira condição para o Estado melhorar é o País ir bem. Não dá para desvincular, mas é possível aumentar a representatividade.

Nos últimos anos, a participação de Minas Gerais no PIB nacional tem oscilado em torno de 9%. É preciso melhorar essa relação. Passar de 9% para 10,5% ou 11%. Devemos crescer mais que o Brasil e não menos. Nosso agronegócio é muito forte, temos importantes números na produção de café, leite, grãos e floresta plantada.

E a mineração?

É preciso derrubar alguns mitos. O produto da indústria de extração mineral em Minas representa muito pouco no PBI do Estado. O minério é muito abundante e por isso tem o preço depreciado. A produção extrativa mineral em Minas é quase irrelevante.

Além do agronegócio, quais outros pontos fortes de Minas?

A cultura e as artes são muito importantes. Inhotim também é uma potencialidade de Minas. Há voos charters direto dos Estados Unidos que trazem estrangeiros para visitar esse parque botânico, considerado o melhor do mundo. Por isso, vai ser construído um hotel de luxo em Inhotim. O Grupo Corpo tem espetáculos agendados na Europa e Ásia com ingressos esgotados para os próximos seis meses.

Ele é considerado um dos melhores grupos de dança do mundo, reconhecimento feito pela crítica do jornal Financial Times (EUA). Já a Associação dos Críticos Musicais de São Paulo considera que a melhor filarmônica do Brasil está em Belo Horizonte. Esses aspectos artísticos valorizam muito o Estado.

E quanto ao cenário político?

É preciso ter bons governantes para se ter desenvolvimento. Os governos estaduais mineiros têm sido bem melhores que os últimos governos federais. Quando fui para Brasília ser ministro da Indústria e Comércio, no governo do João Figueiredo, a minha maior curiosidade era saber se o governo federal era mais eficiente que o estadual. Mas não é, porque, constantemente, há troca de pessoal. Nos últimos anos, Minas teve governadores muito bons, como Israel Pinheiro, Aureliano Chaves, Francelino Pereira, Itamar Franco, Aécio Neves e Antonio Anastasia.

E no Congresso?

Uma das piores bancadas no Congresso é a de Minas Gerais. São parlamentares completamente ausentes e que não se destacam e nem apresentam projetos. Entres os integrantes da Comissão Representativa do Congresso não há mineiros, apenas um como suplente pela Câmara. A bancada de Minas é tida como a oitava mais importante. É fundamental que se exija uma atuação maior. A vaidade e a inveja fazem com que a nossa bancada seja desunida.

Apenas um ou dois deputados são bons. Por isso, é preciso que a população mineira faça pressão sobre os deputados.

Os representantes de entidades como a Fiemg, ACMinas e Sebrae deveriam agir mais nesse sentido.

 

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