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Fotopoemagrafia

22 Maio 2018

 

A poeta mineira Ana Elisa Ribeiro acaba de lançar “Álbum”. O livro, que venceu o prêmio Manaus 2016 traz poemas inspirados em fotos, reais ou imaginárias, e suas conexões com memórias, passagens do tempo, resgates, (m)permanências, lebranças e esquecimentos.
 

Capítulos

Lançado pela Relicário Edições, “Álbum” está dividido em quatro partes. “Desenhar com Luz” trata do gesto do fotógrafo, a luz, a escolha
do momento e a preparação. “Caixa de fotos” vasculha as memórias da família a partir de fotos reais, os álbuns, as imagens dispersas, o visível e o invisível.
 
A terceira, “Desfotografias”, é metapoética, reflete sobre o tempo e o embralhamento entre real e fictício. E “Dublê de fake” atualiza as questões, remetendo à fotografia digital, a era virtual e “as fotos que já nascem esquecidas”.

Orelha

Na orelha do livro, o professor da UFMG, Luis Alberto Brandão, trata das questões que as imagens reais e imaginárias e da sedução que elas provocam. Na abertura do texto, o professor faz um convite: “Todas as fotos deste Álbum estão à espera de serem reveladas. Por você, leitora. Por você, leitor. À espera de um olhar disposto a indagar as condições do visível. De quais formas uma imagem se torna
palavra? Ou deixa de se tornar? Ou cria zonas híbridas? De quais modos palavras geram imagens? Perguntas assim se deixam generosamente suscitar neste livro ao mesmo tempo denso e leve, provocativo e terno, opaco e luminoso. “
 

Poemas

Certeira e econômica, Ana Elisa apresenta flashes luminosos, como o de PRENHEZ: “estava grávida naquela foto// o filho não chegou a nascer// a foto nos mantém à sua espera”. A poeta que já se disse perversa e cantou um anzol de pescar infernos trata, em outro poema, dos PROCESSOS: “ A fotografia é um processo./A memória não é confiável.
 
O amor é sempre um processo./A fotografia, não.//Olhar minuciosamente a fotografia//é um processo híbrido.” E conclui: “A memória é um processo que falha.”
 

Renascença

 

E já que tratamos de memória, a mesma Ana Elisa Ribeiro escreveu, ainda, sobre a região em que sempre morou e conhece bem. “Renascença” é o título de número 31 da coleção A BH de Cada Um, coordenada por José Eduardo Gonçalves e Silvia Rubião. O livro será lançado em junho, com a presença da autora, moradora da região dos bairros Renascença e Cachoeirinha desde a infância. São bairros inicialmente periféricos no projeto da cidade, mas que hoje fazem parte de uma área muito próxima do Centro. No livro, Ana Elisa narra, em linguagem bastante poética, aspectos geográficos e afetivos de morar na região, além de contar sua história familiar estreitamente relacionada ao desenvolvimento da cidade após a implantação da indústria têxtil nas décadas de 1920-30.
 

Currículo plural

Para quem não conhece, Ana Elisa Ribeiro é mineira de Belo Horizonte. Autora de Poesinha (BH, Pandora, 1997), Perversa (SP, Ciência do Acidente, 2002); Fresta por onde olhar (BH, InterDitado, 2008), Anzol de pescar infernos (SP, Patuá, 2013), Xadrez (BH, Scriptum, 2015), Marmelada (BH, Coleção Leve um Livro, com Bruno Brum, 2015), Por um triz (BH, RHJ, 2016).
 
Além desses livros de poesia, tem outros de crônica, conto e infanto-juvenis publicados por diversas editoras brasileiras. Participou de antologias, revistas e jornais no Brasil, em Portugal, na França, no México, na Colômbia e nos Estados Unidos. É doutora em Linguística Aplicada pela UFMG, professora e pesquisadora de Edição no Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG).
 

Os mineiros de careqa

O cantor e compositor Carlos Careqa traz referências mineiras em três faixas de seu disco mais recente, “Todos Nós”, que tem como tema central a fragilidade da canção. Ele mesmo explica: “A fragilidade da vida que transforma tudo em memória e canção. Esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta, como bem disse Guimarães Rosa. O fim e o começo da canção. Muitos eus dentro de todas as canções que já compus. Chegar até aqui tem sido uma prova da longevidade da canção que há em mim.”
 
Fernanda Takai, mineira honorária, participa da faixa “Karma Wall”. E a atriz e diretora Grace Passô serviu de inspiração para outra música.
 

Takai no carnaval

O carnaval surge como inspiração de “Karma Wall”. “Quando chega o carnaval, invariavelmente meu amigo Mario Manga reclama desta estação do ano”, explica o curitibano.” Numa dessas conversas, Manga disse que queria ter nascido no Japão. Então, me veio a ideia de fazer uma canção. E tem a segunda parte em inglês, versos que fiz com a correção do amigo Beto Trindade, que mora em Londres há 30 anos. Como Manga curte estas paradas de Budismo, falei sobre o Karma de ter nascido aqui e não lá. A coisa virtual. O Karma Wall (uma brincadeira com Carna Val). Chamei a querida e talentosa Fernanda Takai para cantar esta segunda parte.”
 

Dente de leão

O impacto do trabalho de GRace Passô e companhia gerou outra música, “Dente de Leão” ”Fui assistir a peça homônima do grupo Espanca de Belo Horizonte, no Sesc Ipiranga. E saí de lá impressionado com a vitalidade do texto e dos atores. Apaixonado,
escrevi esta canção. Uma referência também ao grupo The Beach Boys, referenciado pelo produtor do disco Marcio Nigro.”

Canção amiga

Parte do acervo do Museu do Clube da Esquina está disponível numa exposição interativa que está aberta ao público no Conservatório da UFMG. Em 2017 a mesma exposição ocorreu no Espaço do Conhecimento UFMG. A mostra busca localizar o visitante, segundo o texto de divulgação, em “ um contexto de importantes transformações políticas, culturais e sociais, no qual uma nova musicalidade foi criada a partir da fusão de tendências, a princípio, irreconciliáveis: bossa nova, samba, jazz, rock, os sons da América Hispânica e as tradições
do interior mineiro com fortes traços da cultura negra. Essa mistura é visível na exposição, que explora a consolidação do Clube da Esquina no cenário artístico nacional, de 1972 a 1978, período que compreende o lançamento dos discos Clube da Esquina e Clube da Esquina 2.”

 

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