Especial

Fiat Chrysler Automóveis aposta em Indústria 4.0 para seu novo ciclo de investimentos

12 Julho 2018

Líder no mercado brasileiro de automóveis comer-ciais leves entre 2001 e 2015 (exceto 2004), a Fiat Chrysler Automóveis (FCA Latam) divulgou, no último mês, seu Plano Quinquenal 2018-2022. Foi o primeiro grande anúncio realizado pelo novo presidente, Antônio Filosa, empossado em março para a América Latina. Nos próximos cinco anos, a italiana fará um aporte de R$ 14 bilhões na região. Deste montante, cerca de 90% serão direcionados para novos produtos, motores e conectividade.

Importante fatia dessa verba será aplicada em Betim, uma vez que lá está focada grande parte dos materiais necessários para a produção dos veículos do grupo. “Mais quatro modelos serão produzidos até 2020 e as linhas atuais serão modernizadas. O nosso objetivo é recuperar a liderança de vendas”, garante Filosa.

Em 42 anos de presença em território mineiro, a italiana já produziu cerca de 15,5 milhões de veículos. 

Tudo isto é reflexode sua dimensão. Com 250.000 de metros quadrados de área total, o Polo Automotivo Fiat em Betim é a maior fábrica de veículos da América Latina e uma das maiores do mundo, com capacidade para produzir 800 mil carros por ano. A planta exerce impor-tante papel para a economia da cidade e de Minas Gerais, ao atrair para seu entorno inúmeros fornecedores e consequente diversificação do parque industrial mineiro, maior geração de empregos e de tributos. 

O Polo Automotivo Fiat em Betim reúne três importantes áreas: a Planta Veículos, que compreende as unidades de Prensas, Funilaria, Pintura e Montagem Final; e a Planta Powertrain, que contém as unidades de Motores e Transmissões e o Centro de Pesquisa & De-senvolvimento Giovanni Agnelli. Ela possui todas as condições e tecnologias necessárias para criar um veículo do começo ao fim.

Na Planta Veículos, três linhas de montagem cuidam da produção dos modelos Uno, Fiorino, Doblò, Grand Siena, Weekend, Strada, Mobi e Argo. Da marca Fiat, há também o Fiat Toro, que é produzido no Polo Automotivo Jeep, em Goiana (PE). Dos mais de 100 mil veículos produzidos no Brasil e exportados pela FCA em 2017, cerca de 70% saíram do Polo Fiat, com destaque para Mobi (29 mil unidades embarcadas), Strada (22,6 mil) e Fiorino (15,7 mil unidades). 

Os principais destinos foram Argentina, México, Chile, Peru e Colômbia. A fábrica é capaz de se adaptar às variações de demanda, oferecendo resposta rápida na entrega dos produtos que os clientes desejam. Em uma única linha de produção, são montados diferentes modelos e o contrário também é possível, ou seja, um modelo ser montado em diferentes linhas, simultaneamente. A quantidade de peças manuseadas diariamente ultrapassa 2,9 milhões, abastecidas por cerca de 300 fornecedores.

“Todas essas áreas trabalham em sinergia com os outros centros de P&D da FCA na Itália, nos Estados Unidos e com o de Pernambuco. Esta harmonia é um importante fruto do nosso trabalho e é essencial na Indústria 4.0”, pontua Francesco Ciancia, diretor de Manufatura da FCA para a América Latina.

A APOSTA É NA MODERNIZAÇÃO

Nos últimos anos, o processo de modernização da fábrica de Betim vem se intensificando a partir do conceito “Indústria 4.0”. Inserida em uma cultura de inovação, a companhia, de forma transversal e consistente, adota as mesmas soluções das melhores plantas do grupo na Europa e Estados Unidos, capacitando seus colaboradores para adquirirem novas habilidades e competências.

No contexto da Quarta Revolução Industrial, portanto, novos processos surgem na FCA Brasil para aumentar a qualidade e a competitividade, todos aliados à convergência tecnológica, que surge de uma indústria automotiva ligada a sistemas como Internet das Coisas, Manufatura Aditiva, Big Data, entre outras propostas.

Se em 1976 grande parte das operações era manual, hoje, a FCA é uma indústria com utilização de métodos modernos e eficientes.“Deixamos de ser simplesmente uma fábrica automática, com ecossistemas robotizados e passamos a ser uma um companhia inteligente. É uma iniciativa de transformar a fábrica atual na fábrica do futuro”, explica Rutson Aquino, coordenador de Inovação da Engenharia de Manufatura da FCA para a América Latina.

Aquino pontua os seguintes pilares da Fiat para conectar máquinas, sistemas e pessoas na Indústria 4.0: Análise de Dados, Robótica, Simulação, Sistema de Integração, Internet das Coisas (IoT), Computação em Nuvem, Manufatura Aditiva, Realidade Aumentada e Segurança Cibernética, para proteger sistemas e informações de possíveis ameaças.

Em Betim também está instalado o Manufacturing 2020, laboratório criado no conceito “testbeds” (provas de conceito), que são plataformas dedicadas aos experimentos de novas tecnologias. O local tem o propósito de apontar as tendências mais relevantes do futuro da Indústria 4.0. “O Manufacturing 2020 promove a conexão da FCA, otimiza a cadeia produtiva e participa de projetos com importantes instituições de ensino e startups, tornando a Indústria 4.0 uma realidade com bases sólidas. Nossos parceiros vêm até aqui, entendem a nossa necessidade e trazem propostas de soluções para que, juntos, possamos desenvolver novas técnicas e produtos”, conta Aquino.

Outra inovação motivada pela Indústria 4.0 na FCA é a Sala de Realidade Virtual do Manufacturing 2020. Inaugurada em 2016, ela aplica o conceito do Digital Twin, ou seja, gêmeo digital, mostrando a representação virtual do processo físico. O ambiente utiliza o software IC.IDO, “I see, I do”, ou “eu vejo, eu faço”, do fornecedor francês ESI, para criar modelos digitais interativos e imersivos. O sugestivo nome acompanha a ideia de romper barreiras físicas para ir atrás de soluções. “Com uma linha de montagem virtual, idêntica à real, é possível validar equipamentos e mapear movimentos, postura e campo visual dos operadores na execução das atividades como, por exemplo, na montagem de uma lanterna”, destaca Eric Baier, especialista em Simulação Virtual da FCA.

De acordo com o Baier, a sala é o começo de todo o trabalho na Indústria 4.0 da FCA. “Planejamos uma nova solução, fazemos o desenho, simulamos virtualmente e, se der tudo certo, partimos para uma outra etapa do projeto, que é a validação da metodologia. Saímos daqui com uma tomada de decisão importante, seja com oportunidades de melhoria no produto, no processo ou economia de dinheiro. Para se ter uma ideia, o valor de mais de R$ 1 milhão investido foi recuperado com oito meses de funcionamento da Sala de Realidade Virtual”, destaca. Baier defende que as vantagens da tecnologia são expressivas, pois incluem a busca por resultados para melhor ergonomia e conforto dos operadores, já que são testados movimentos e deslocamentos do funcionário na linha produtiva.

Exemplo concreto do trabalho desenvolvido no Sala de Realidade Virtual foi a criação do exoesqueleto, equipamento utilizado pelos empregados que atuam na área de proteção. Ele tem a função de reduzir o esforço muscular e melhorar a condição ergonômica dos operadores da manufatura. “Leve e de fácil adaptação, o sistema acompanha os movimentos do funcionário com total sincronismo. Em situação de flexão,por exemplo, o peso do tronco é absorvido pelo exoesqueleto”, esclarece Janelle Campos, ergonomista do Polo Automotivo Fiat. O Polo Fiat foi a primeira fábrica na América Latina a implantar o recurso. São 14 conjuntos, divididos em três categorias (coluna lombar, ombros e membros inferiores), em uso nas linhas de produção.

Rodney Alves dos Santos, operador na Montagem Final do Polo Automotivo Fiat há quase cinco anos, foi pioneiro na utilização do instrumento. “Regulo mais de 400 carros por dia e, com o auxílio do exoesqueleto, fico menos cansado e não sinto fadiga muscular. O alívio na carga é considerável, pois firma as pernas e trava o peito, direcionando o peso para o equipamento”, menciona.

Hoje, após a experiência em Betim, novos conjuntos foram adquiridos para aplicação na planta de Córdoba, na Argentina, e na fábrica de motores de Campo Largo, no Paraná. 

ROBOTIZAÇÃO: UM PASSO ALÉM PARA A FORÇA DE PRODUÇÃO

Pioneira na América Latina na introdução do robô colaborativo nas linhas de produção, a fábrica de Betim, desde 2016, aplica o conceito de automação que elimina a distância entre o homem e o robô. “As máquinas interagem diretamente com os operadores, em total segurança. Ao usá-las, a FCA não tira o operador de sua função, mas o redireciona para outras atividades. Os robôs colaborativos são como um terceiro braço e geralmente são usados em operações repetitivas ou de difícil acesso”, declara Rutson Aquino, coordenador de Inovação da Engenharia de Manufatura da FCA para a América Latina.

No caso da Planta FireFly, o robô colaborativo foi a solução para o abastecimento de diferentes peças em um único ponto. “Uma embalagem com todas as peças movimenta-se ao longo das estações de trabalho, de forma sequenciada e em completa interação com o operador. A partir da inserção desses robôs no processo, observou-se a redução média de 15% do NVAA (sigla para “atividades que não agregam valor”, em português) nas operações manuais, que são os movimentos desnecessários”, esclarece Cláudio Fróes, gerente da planta Motores do Polo Automotivo Fiat.

Com o sucesso da implantação do robô colaborativo, novos usos já estão sendo testados no Manufacturing 2020, para funções como apertar parafusos, instalar borracha antivibração nas portas e aplicar cola no vidro automotivo. 

PLANTA FIREFLY

Com 22 mil metros quadrados de área construída e capacidade para fabricar 400 mil propulsores por ano, a instalação da planta de motores FireFly, inaugurada em setembro de 2016, recebeu mais de 180 robôs de alto desempenho e precisão e investimentos na ordem de R$ 1 bilhão para produzir a nova família global de motores FireFly 1.0 e 1.3 litro, de 3 e 4 cilindros. Esse processo contou com o envolvimento de cerca de 200 empresas, 80% delas brasileiras. “Em um único local, estão reunidas todas as etapas produtivas do motor, desde a usinagem do bloco, eixo virabrequim e cabeçote até as linhas de montagem. Com alta tecnologia envolvida, todo o processo é conectado a uma central de gerenciamento, no melhor exemplo de interação entre homem e máquina. A precisão do processo de fabricação permite a completa rastreabilidade de cada componente montado. Ou seja, temos o DNA de cada motor”, descreve Fróes.

Segundo Fróes, os métodos para a elaboração de novos produtos também foram remodelados, com a criação de novas estruturas de conexão entre pessoas e processos das mais diferentes áreas da FCA. São eles o Development Center, que integra em um único espaço áreas de desenvolvimento como engenharia, manufatura e qualidade, o Component Center, que faz a mensuração e testes de componentes com tolerância zero para defeitos, e Value Optimization Center (VOP), que reúne áreas estratégicas de FCA com fornecedores, para aumentar o valor do produto, por meio de qualidade, custo e time-to-market.

Outra evolução significativatrazida pelo processo de robotização será o transporte aéreo das peças para o abastecimento preciso das máquinas. “As movimentação são feitas pelos ‘robots gantries’, robôs que transitam sobre trilhos a mais de 2 metros de altura para a transferência automática dos componentes. Como resultado dessa tecnologia, o contato com as peças é limitado, dentro da diretriz ‘no-touch zone’, garantindo a confiabilidadede todo o processo. A checagem finaltambém é automática. Os motores finalizadospassam por um robô apelidado de ‘paparazzo’, com câmeras de alta resolução que tira 18 fotos de cada motor acabado. É o que chamamos de ‘delibera final’do motor, uma verificação final da qualidade do motor. Todas essas fotos são verificadasautomaticamente para identificarse todos os componentes foram montados corretamente, conforme padrão determinado”, descreve Fróes.

PARCERIA EM DIREÇÃO AO FUTURO

Uma parceria entre a FCA e a PUC Minas garantiu, em 2017, a inauguração do primeiro Centro de Simulação de Dinâmica Veicular da América Latina e o primeiro do gênero da FCA em todo o mundo. Localizado no Campus Coração Eucarístico da PUC Minas, em Belo Horizonte, o SIMCenter, como é chamado, oferece o que há de mais avançado na tecnologia mundial de simulação e tem como objetivo gerar inovações e pesquisas com foco na segurança de veículos, pessoas e sistemas viários. Com investimentos que superaram R$ 18 milhões, a iniciativa é resultado da política de incentivo do Inovar-Auto e apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

A estrutura do SIMCenter possibilita que alunos e pesquisadores, na função de motorista, tenham uma imersão total e com o máximo de realismo da sensação de dirigir. “Dentro de um Jeep Renegade ou qualquer outro veículo, o piloto pode ser ‘teletransportado’ para qualquer circuito do mundo, como o campo de provas da FCA em Balocco na Itália, em um dia de neve. Basta configuraressa realidade e já é possível ter nos computadores uma variedade de dados do comportamento do veículo e do condutor nesse ambiente”, afirma Rudinixon Bitencourt, analista de Dinâmica Veicular da FCA para a América Latina. “Uma vez definidasnas simulações, essas características tornam-se especificaçõestécnicas para a construção de peças físicas que irão compor o veículo”, explica.

A criação do Centro coloca o Brasil em posição de destaque no desenvolvimento de know-how, inovação e tecnologias automotiva de ponta que estarão no carro do futuro, sempre em interface com diversas áreas do conhecimento. “O espaço é direcionado aos projetos de iniciação científica,teses de doutorado, dissertação de mestrado, todos eles relacionados a temas que sejam de interesse para a área e, para participar de estudos no SIMCenter, é preciso participar de um processo seletivo”, explica Jánes Landre Júnior, professor e coordenador geral do SIMCenter pela PUC Minas.

O sistema será utilizado por profissionaisdo grupo FCA, alunos e pesquisadores de diferentes cursos da PUC Minas, como Engenharia, Arquitetura, Medicina, Psicologia, Ambientes Virtuais e Software de Jogos, entre outros. 

QUALIFICAÇÃO DA MÃO DE OBRA

Para as empresas que desejam melhorar sua estrutura tecnológica, a capacitação é um caminho permanente. Na FCA não é diferente. No Polo Fiat, por exemplo, as capacitações ganharam força-extra com o uso da tecnologia digital. Uma iniciativa recente é o PlantX, game desenvolvido pela FCA para capacitar seus funcionários nos pilares do World Class Manufacturing (WCM), metodologia que abrange todos os aspectos da manufatura (posto de trabalho, qualidade, manutenção e logística). 

Segundo Miguel Lorenzini, analista de Engenharia de Manufatura da FCA para a América Latina, quem joga o PlantX pode investigar os problemas e buscar soluções, com foco na melhoria contínua dos processos. “Conseguimos transformar situações extremamente técnicas do cotidiano em algo mais didático e compreensível”, relata.

GESTÃO AMBIENTAL É PREOCUPAÇÃO PERMANENTE

A preocupação da FCA com o meio ambiente não é de hoje. “Em 1976 já separávamos as tubulações em esgotos industriais, biológicos e pluviais. Sabíamos também o quanto o cuidado com a natureza seria importante no futuro. Desde então nossos processos foram contínuos e em 1990 construímos nosso Sistema de Gestão Ambiental. Sete anos depois, demos um grande passo em prol do tema sustentabilidade, quando a Fiat foi pioneira entre as fábricas de automóveis e comerciais leves do país a obter o certificadoISO 14001, de gestão ambiental”, lembra Neylor Bastos, gerente de Meio Ambiente, Saúde e Segurança do Trabalho da FCA para a América Latina.

Em 2013, o Polo Fiat conquistou a ISO 50001, de gestão de energia, como resultado de seus esforços para melhorar a eficiênci energética dos seus processos, além de substituir o uso de combustíveis fósseis por energia de fontes renováveis. “A conquista da ISO 50001 é resultado do intenso trabalho para o uso mais eficientedas fontes de energia (energia elétrica, ar comprimido, vapor, água superaquecida, gás natural, combustíveis e outros), com benefícios para reduzir os gases de efeito estufa associados ao processos industriais. Na FCA destacamos a implementação de um moderno sistema de gerenciamento de energia, expansão da substituição de luminárias fluoescentes por LED, troca de tecnologia de fornos a vapor por gás natural na Pintura, uso de motores de alto rendimento em toda a fábrica e o uso de Inversores de frequência em toda a fábrica”, enumera o gerente.

A principal estratégia para engajar os funcionários e envolvê-los com estas questões é o WCM (World Class Manufacturing), metodologia adotada por todas as empresas do Grupo FCA no mundo para melhorar a eficiênciada produção e eliminar perdas e desperdícios. “Na Funilaria, por exemplo, a substituição de lâmpadas fluoescentes pelo sistema a LED dimerizável, conjugado a sensores de presença e de luminosidade, reduziu em 47% o consumo de energia elétrica para iluminar o galpão. Outra aplicação é na reutilização de água. No Polo Fiat, 99,6% da água tratada retorna para o processo produtivo. Esse índice só foi possível após contínuos investimentos no Complexo de Tratamento de Efluentes,localizado dentro da fábrica”, exemplific Bastos.

DESTINAÇÃO DE RESÍDUOS

O cuidado com o meio ambiente não para na produção dos materiais nas plantas. Passada a fabricação, os produtos que não atendem ao padrão de qualidade da FCA vão para a Ilha Ecológica, dentro da fábrica, onde são destinados corretamente. Lá, uma equipe treinada faz a triagem e o armazenamento dos resíduos, até o envio para a reciclagem e a reutilização. “Um diferencial da Ilha Ecológica é a usina de reciclagem de isopor. A tecnologia, criada pela Fiat, reduz o volume do material 50 vezes. O isopor transforma-se em pequenos grãos de plásticos que, enviados para uma empresa de reciclagem, são matéria-prima para a fabricação de canetas e capas de CDs. Desde 2001, com essa ferramenta, deixamos de fazer mais de 7,5 mil viagens de caminhão para a destinação correta desse resíduo”, menciona Flávia Vilas Boas, coordenadora de Meio Ambiente, Saúde e Segurança do Trabalho do Polo Automotivo Fiat.

MUDANDO A VIDA DAS PESSOAS

Outro projeto reconhecido internacionalmente é o Árvore da Vida, um exemplo do compromisso da Fiat para com o desenvolvimento sustentável da comunidade. Em 14 anos, o programa beneficio mais de 22,2 mil moradores da região do Jardim Teresópolis, com ações voltadas para atividades socioeducativas, capacitação profissionale apoio ao empreendedorismo e ao desenvolvimento comunitário.

A Árvore da Vida começou como um projeto social da Fiat, criou raízes sólidas e acaba de concluir sua emancipação. Em dezembro de 2017, seguindo um percurso de amadurecimento e protagonismo, o programa se tornou Instituto Árvore da Vida (IAV), uma associação sem finslucrativos composta e gerida por membros da própria comunidade e pessoas que participaram do programa durante toda a sua história.

Apesar do Instituto contar com o apoio da FCA, hoje ele é um programa da comunidade para a comunidade. “As pessoas que assumem a gestão já foram contempladas pelo programa. Elas passam a tomar suas próprias decisões e definirsuas próprias parcerias, sejam com governos e com outras empresas, o que amplia as possibilidades de desenvolvimento da iniciativa. Essa transição é a conquista de um dos objetivos mais desafiadoes desde o início do programa: dar à comunidade o protagonismo na construção da própria cidadania”, expõe Luciana Costa, coordenadora de Sustentabilidade da FCA para a América Latina.

A atual presidente do Instituto, a psicóloga Bianca Aragão Esteves, 22 anos, é um exemplo disso.

Ela começou no programa aos 13 anos de idade, nas oficinasde canto. Aos 15 anos, foi convidada para ser monitora da Oficinade Canto Coral e foi ali que começou a construir suas primeiras experiências profissionais.“Sempre gostei muito das iniciativas, além de ter o apoio da minha família. Sem dúvida o Árvore da Vida foi umas das coisas mais importantes que me aconteceu. Participei de momentos marcantes como o show do Andrea Bocelli em 2011. Foi um marco pra mim e pra todos os que se beneficiaramdo programa nessa trajetória. Fico muito feliz de ver que a comunidade está mais próxima do projeto, se engajando e permitindo que outras pessoas possam participar no futuro”, afirma.

Em 2012, o Instituto foi eleito pelo Programa Nacional das Nações Unidas para o Desenvolvimento como uma das 50 melhores práticas brasileiras que contribuem com os Objetivos do Milênio da ONU. Desde então, ele continua gerando oportunidades de desenvolvimento humano, social e cultural da região do Jardim Teresópolis, por meio da oferta de atividades socioeducativas. 

Outro caso bem-sucedido empreendido pelo Instituto é o coral Árvore da Vida, que envolve crianças e jovens da região. “Faço um trabalho de técnica vocal, passo o repertório, que vai da música erudita ao pop. Gosto de variar os estilos, pois eles têm a chance de variar suas experiências, incluindo música internacional. Tento resgatar a humanidade dentro de cada um deles, mostrando que independente do lugar onde estão, podem ter desejos. É um trabalho árduo, mas que gera resultados. É gratificantevê-los amadurecendo e demonstrando interesse pela arte”, conta João de Souza, maestro do coro. Atualmente, o grupo têm 70 jovens, de 11 a 16 anos, divididos em dois turnos.

Souza mostra a seus alunos que a música pode ser uma profissão.“O canto e as outras áreas da vida podem se complementar muito bem. A realidade nem sempre é fácil, mas sempre saliento que os sonhos não podem morrer”, conclui. 

Prova disso é a história de João Gomes, ex-aluno do coral e que, atualmente, concilia seu trabalho como Jovem Aprendiz na Fiat com a banda em que toca. ”Desde que entrei no coral fui me apaixonando pela música e hoje vejo que é possível ter um futuro melhor através do meu trabalho na Fiat e também através da arte”, celebra. Quem tem a mesma vontade é o irmão de João, André Felipe Gomes, de 13 anos. “Desde que comecei a cantar no coral mudei muito. No início era tímido mas, com o tempo, fui fazendo amizades. Tenho muito orgulho do meu irmão e quero seguir seus passos. O apoio da minha família também conta muito”, afirma.

COOPERATIVISMO TAMBÉM É ESTIMULADO PELA EMPRESA

Destaque na parte de capacitação profissional apoio ao empreendedorismo e ao desenvolvimento comunitário, a Cooperárvore é uma cooperativa formada por mulheres da região do Jardim Teresópolis, que transformam sobras de cintos de segurança e aparas de tecido automotivo, doados pela FCA e fornecedores, em acessórios de moda, como bolsas e mochilas.

Em 12 anos, a Cooperárvore reutilizou cerca de 36 toneladas de material e produziu mais de 248 mil produtos. Os materiais saem da Ilha Ecológica, na planta de Betim, e viram matéria-prima para a Cooperárvore. Desde 2006, cerca de 33 toneladas de cinto de segurança e tecido automotivo transformaram-se em fonte de renda para a cooperativa na criação de bolsas e outros acessórios.

Iracema Pereira, artesã da Cooperárvore, diz que a cooperativa deu chances de uma vida melhor para sua família. “Há 14 anos, quando surgiu a oportunidade de montar a Cooperárvore, estava passando dificuldade financeiras,pois meu marido sofreu um AVC. Quando me convidaram para abrir uma cooperativa, logo após ter feito um curso de corte e costura, não hesitei. Comecei como cortadeira e hoje faço o controle de qualidade dos produtos. A sensação de ver esse material se transformando em bolsas maravilhosas é muito boa. São coisas que iam ser descartadas e prejudicar o meio ambiente. Aqui na Cooperárvore somos oito pessoas com garra e vontade de fazer o negócio crescer”, relata.

EDUCAÇÃO: UM SALTO PARA UM FUTURO MELHOR

Uma boa educação é fator decisivo para promoção da igualdade social e do crescimento econômico de um país. Por isso, a formação de professores é considerada o ponto-chave para implementação de escolas mais integradas às comunidades, com métodos de ensino eficazes.Esse foi um caminho escolhido pela FCA para melhorar a qualidade do ensino de escolas públicas. O programa Rota do Saber, em Betim, organizado de forma intersetorial pela FCA, o Instituto Ramacrisna e a Prefeitura de Betim, em parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDES), promove cursos de formação, oficinase seminários como ferramentas para engajar professores, diretores, pedagogos, alunos e pais, irradiando para toda a comunidade o compromisso com a qualidade do ensino.

Com início em novembro de 2017 e duração de 15 meses, o Rota do Saber abrange todas as 69 escolas municipais dos 189 bairros da cidade e cerca de 1,2 mil educadores, com ênfase nas disciplinas de Português e Matemática. No total, o programa irá impactar cerca de 30 mil alunos diretamente até o final do ciclo.

Os resultados do programa serão mensurados pelos sistemas de avaliação do Ensino Fundamental, que são: IDEB do Ministério da Educação (MEC); PROEB da Secretaria de Estado de Educação; e o Avalia Betim da Secretaria Municipal de Educação. “São várias atividades para os estudantes, como o Mala da Leitura, Festival Literário, Olimpíadas de Matemática, dentre outras iniciativas, com o objetivo de trabalhar os conteúdos de Português e Matemática com criatividade, que vão além da sala de aula”, explana a coordenadora de Sustentabilidade da FCA para a América Latina, Luciana Costa.

Solange Bottaro, vice-presidente da instituição Ramacrisna, fala sobre a importância da parceria com a Fiat Chrysler no Rota do Saber no desenvolvimento de projetos sociais para comunidades em situação de vulnerabilidade social. “É muito bom contar com a parceria de uma empresa como a Fiat, que valoriza as pessoas e a educação para crescer inserida em uma sociedade mais justa e com perspectivas de um futuro melhor. No período do programa, a partir de um amplo diagnóstico, avaliamos as principais demandas e potencialidades de ensino nas escolas do município. A partir dos resultados, traçamos uma nova metodologia, com novas possibilidades de conteúdo e abordagens. Distribuímos materiais exclusivos, elaborado a partir da realidade dos alunos, professores e escolas e acompanhamos o programa através de uma assessoria contínua, lado a lado com os educadores”, elucida Bottaro.

Vale reforçar que o esforço da Fiat Chrysler é contínuo ao acompanhar e se adaptar às mudanças de mercado, ao surgimento de novas tecnologias, sem deixar de pensar no impacto ambiental que a indústria proporciona, no desenvolvimento sustentável da comunidade na região do Polo Automotivo e no bem-estar e qualificaçãodos funcionários e suas famílias. “São princípios que abarcam a satisfação do cliente, pois é ele o motivo da existência e continuidade do nosso negócio, a valorização e respeito às pessoas, a responsabilidade social como única forma de crescer em uma sociedade mais justa e respeito ao meio ambiente para nos dar uma perspectiva do amanhã na indústria automotiva”, conclui Costa.

 

Entrevista: Antonio Filosa, presidente da FCA para a América Latina 

“Temos a melhor equipe do mundo”

Novo presidente anuncia R$ 14 bi em investimentos e valoriza profissionais da planta industrial mineira

Novo presidente da FCA - Fiat Chrysler Automóveis (FCA) para a América Latina, Antonio Filosa é um jovem engenheiro industrial de 45 anos de idade que chegou com muito entusiasmo para reposicionar o grupo no mercado continental. Considerando as unidades da Fiat e da Jeep, a FCA é líder de mercado de automóveis no país e acaba de anunciar investimentos de R$ 14 bilhões para reconquistar a primeira posição da Fiat no segmento de comerciais leves. 

Filosa tem 20 anos de FCA, morou durante oito anos em Minas e ajudou a montar a planta de Pernambuco. Trabalhou ainda na Inglaterra, EUA e Espanha. Nesta entrevista a MercadoComum, ele anunciou que a empresa irá lançar ou renovar 25 produtos, sendo 15 somente da marca Fiat, aposta no etanol como o combustível do futuro no país e garantiu que as perspectivas para o grupo são as melhores possíveis. 

MC- A Fiat liderou o mercado de comerciais leves por vários anos, mais de uma década aqui no Brasil. No ano passado, ela perdeu essa liderança de mercado. O investimento anunciado para a América Latina, de R$ 14 bilhões, tem como objetivo reconquistar essa liderança de mercado?

AF- Nós somos uma empresa global. A FCA desenvolve estratégia multimarcas. Temos uma nova configuraçãoestratégica, após uma primeira onda de investimentos que foi pautada por essa necessidade. Ou seja, produzir um brand novo com a possibilidade de ser esmagador nos segmentos onde competíamos. No segundo ciclo de investimentos, queremos consolidar Jeep e relançar Fiat. Hoje a Fiat tem a primeira e segunda picape mais vendidas no Brasil, a Strada e o Toro. Neste mês, o supercompacto Mobi foi o mais vendido do Brasil, e o novo Fiorino é o mais vendido do segmento e está crescendo com consistência. Em janeiro, a Fiat recuperou quase três pontos de participação e está brigando para subir no ranking. Com essa nova gama de produtos, a maioria produzida em Betim, a Fiat como brand cobria apenas 67% do mercado total do Brasil. Isso porque não tinha os Utilities Vehicles (UVs), que são uma categoria de veículos mais robustos e com maior espaço interno, que representam 14% a 15% do mercado total em um dos segmentos que mais cresce. Para passar de 67% de cobertura, pra mais de 90%, a gente precisava entrar nesse segmento novo. Com a marca Fiat vamos lançar três UVs até 2022. Depois vamos lançar ou renovar toda a gama de produtos na América Latina. O FCA vai lançar ou renovar 25 produtos, sendo 15 da marca Fiat.  São 14 bilhões de reais em investimentos entre 2018 e 2022 na América Latina.  A gente quer entregar não só carros novos, como veículos de altíssima qualidade, associando o nível de emprego, colocando conteúdos inovadores, com motores novos, transmissões novas, elementos de conectividade. Estamos montando esse quebra-cabeça. Claramente o mundo está indo para uma automação. Temos em Minas Gerais uma coisa muito importante: um capital humano que temos aqui desde o chão de fábrica aos escritórios de engenharia e design. É incrível. Ou seja, o mineiro é muito versátil, flexível,agrega competências e se desafiatodos os dias. Tem garra para o trabalho, trabalha em equipe. O capital humano que temos aqui é algo a ser considerado quando você defineum layout industrial. Não podemos esquecer que Minas nos tem dado muito e nós temos tentando devolver. Dessa equação tem saído a melhor equipe industrial do mundo da FCA.

MC- Quanto tempo será necessário para transformar a planta da fábrica em modelo 4.0?

AF- Nenhuma planta no mundo é 4.0. Entre as que já estão nesse processo, uma delas é Betim, que tem hoje uma planta diferente. Obviamente que a casca fico a mesma, ou seja, os galpões industriais. Também seria um desperdício econômico refazê-los. Mas o que temos lá é muita tecnologia, inovação e o melhor time industrial que poderíamos ter, além da linha automatizada. Antes o robô era em si o segredo industrial. Hoje você vai no Google e compra o robô. Não há mais segredo. O desafioé colocar as pessoas e os robôs para trabalharem juntos. O 4.0 ajuda nisso também, porque digitaliza toda a parte de fluxode informações que a linha humana e mecanizada geram segundo a segundo. Por exemplo, uma carroceria média dos carros que fazemos em Betim tem 2.800 pontos de solda. Alguns são feitos por seres humanos e outros por robôs. Vamos colocar uma série de sensores em todas as nossas linhas. O ponto de solda, por exemplo, para ser bem dado, precisa de algumas características. Se você consegue digitalizar a linha, botar sensores e ter leitura em tempo real do que está acontecendo, no primeiro ponto de solta fora da mostra, que estiver errado, você pode parar e fazer a reconfiguração. Isso já está acontecendo lá.

MC- Os fornecedores da montadora estão alinhados com os novos investimentos e tecnologias?

AF- No ano passado, a situação dos fornecedores de Minas Gerais nos preocupou um pouco, em função da queda da demanda do mercado e perda de liderança nos últimos dois anos. Com isso os fornecedores sofreram também. Mas resgatamos a maioria dos fornecedores que estavam com problemas financeios. O alinhamento deve ser técnico e tecnológico. Temos um programa com cerca de 30 fornecedores na América Latina que trabalham junto conosco nisso: investimento, layout industrial, competência, treinamento e até recrutamento. Aqui de Minas, são 25.

MC- Vocês anunciaram um investimento expressivo, de 14 bilhões de reais. Sabendo que Minas passa por situação econômica difícil e a Fiat é um grande player industrial aqui, qual é a sua avaliação sobre o nível de competitividade do Estado de Minas Gerais, até em função do momento político e troca de governo?  O que vai definirse esse investimento vai ficar aqui em Minas ou vai para Penambuco?

AF- Na verdade a competitividade é mais um exercício industrial. Para ser competitivo com a produção industrial você tem que garantir um processo muito automatizado, uma cadeia de fornecimento que não tenha desvantagem logística, ou seja, buscar fornecedores próximos, uma cadeia de fornecimento automatizada, porque muito trabalho manual acaba perdendo produtividade, embora seja e por fimcompetências instaladas. Sobre todas essas quatro coisas, ressaltando a preocupação com o emprego qualificado,nosso e dos fornecedores e ressaltando o resgate de alguns fornecedores. O diálogo com o governo é muito bom, estamos falando de uma nova época de mineirização, atração de emprego e tecnologia. Isso é competitividade. Competitividade ao finalé colocar pessoas e fornecedores qualificados,linhas produtivas, engenharia, design a serviço da indústria. Os designs de todas as nossas marcas são muito característicos, todas as nossas marcas têm um DNA muito forte. Somos campeões em escolher pessoas de grande projeção e desenvolvê-las. A competência das pessoas é o diferencial que temos. 

A planta de Betim tem quatro unidades: estamparia, funilaria, pintura e montagem. Temos uma capacidade instalada de 800 mil carros por ano, temos uma linha que fazemos Mobi e Argo que às vezes é até super saturada e temos que trabalhar alguns sábados e algumas horas extras. Mobi e Argo estão indo muito bem. Com essa capacidade vamos a 500 mil carros produzidos neste ano, o que é normal. E temos um plano para voltar a saturar a planta e chegar muito perto de 600 mil até 2022. E temos um plano também de desenvolver novos mercados. Em Pernambuco a capacidade é de 250 mil veículos por ano e em Córdoba de 215 mil.

MC- O carro hoje não é mais um sonho de consumo da grande maioria dos jovens como acontecia no passado. Qual é a estratégia comercial do futuro da empresa para voltar a atrair esse público?

AF- Esse é o carro desejado pelo jovem, só que com quatro rodas e um motor (mostra um smartphone). Nós vamos mandar exatamente isso para ele. Dentro das características que nossos lançamentos terão está a conectividade com tecnologia embutida para que os carros possam comunicar com a vida do meio jovem, adulto, com a casa. Pagar bancos, ligar para o filho,a filha,comunicar com a escola... Tudo isso deve ser o mais competitivo possível. Vamos investir em tecnologia com eficiênci energética que permitam a esse veículo ser competitivo, conectado e limpo para o meio ambiente. Junto com a ANFAVEA e outras montadoras estamos trabalhando no rota 2030. O rota 2030 é a premissa básica para os investimentos de 14 bilhões de reais. Ou seja, o plano de investimento depende da aprovação do rota 2030, porque mais do que um programa regulatório de eficiênci energética, é um programa de desenvolvimento industrial. A riqueza de conteúdo é voltado a fazer a indústria brasileira uma indústria melhor. O programa está prestes a ser aprovado. O primeiro carro que vai começar a introduzir a tecnologia que nós queremos para o cliente do presente e do futuro vai ser um carro produzido no Brasil. Depois vai chegar à produção americana e europeia. Esse carro será um LCV (Light Comercial Vehicle), como o Toro, ou seja, será um veículo usado para o trabalho. O Rota 2030 que é a premissa desse plano vai trazer investimentos brasileiros, principalmente em Betim, vai trazer design criado no Brasil. Se o Rota 2030 for aprovado do jeito que achamos que vai ser, o etanol vai ter um papel importante. O etanol é um ouro do Brasil. Ele carrega junto investimentos em pesquisa e desenvolvimento, em laboratório, na cadeia de produção, das montadoras e fornecedores. O etanol que temos no Brasil é o mais eficientedo mundo, em função da qualidade da cana-de-açúcar que temos aqui. E em equação de eficiênciaenergética permite ser complacente com as regulamentações do presente, do futuro e até europeias. Etanol é muito versátil. Você precisa de hidrogênio para movimentar o carro, que você pode tirar da água ou do etanol. A coisa mais bacana da molécula de etanol é que você precisa de menos energia para extrair hidrogênio. Menos energia e mais eficiênciado que com uma molécula de H20.  Se o rota 2030 for confirmado,vai ser bom pra todos, pois vamos poder desenvolver toda essa cadeia. Estamos preparados para isso.

MC- Para você a eficiênciaenergética passa muito mais pelo etanol do que pelos carros híbridos e elétricos?

AF- Nós temos tecnologia híbridas no mundo. Estamos investindo 9 bilhões de euros em eletrificação Teremos sempre nas gavetas todos os projetos de eletrificaçãoque queremos colocar nos nossos carros. Mas no Brasil acho que é muito interessante apostar no etanol. A matriz de transporte do futuro não vai ser só elétrica, híbrida, ou somente etanol. Vai ser uma composição.  Uma das apostas que a indústria fez há 150 anos foi jogar tudo no combustível fóssil, basicamente do derivado de petróleo. Agora estamos com problemas nas commodities mundiais. Seguramente a próxima matriz será multifonte. E o etanol vai ser parte disso também. É bom desenvolver o que temos aqui, fomentar a economia. Funciona, é limpo, tem inteligência local para fazer isso, laboratórios, produtores...

MC- Vocês acreditam que o Brasil tem um ambiente competitivo favorável para o etanol no futuro, considerando que já houve mudanças de percurso no passado, como na era do Proálcool?

AF- O nível de oportunidade que vamos criar com esse desenvolvimento vai ser tão grande que vai impulsionar a concorrência interna e equalizar o mercado.  Se a gente não tivesse competidores, estaríamos com cavalos e carroças até hoje. Ainda bem que chegaram os competidores, e por isso estamos com carros bons. Nós e eles. A concorrência costuma ser muito benéficapara a indústria.

MC- Como é a participação dos fornecedores locais na fábrica? Está prevista uma “mineirização” maior nos próximos anos?

AF- Apesar da crise, a mineirização continua. Trouxe, por exemplo, três fornecedores muito tecnológicos de Juatuba, na grande Belo Horizonte.  O nível de localização dos produtos de Betim é acima de 90%. Então 90% do valor das peças montadas na linha de Betim saem de fábricas brasileiras. Desse 90%, mais de três quartos é feita em MG.  Passar para 100% é praticamente impossível. Hoje as cadeias são globais. O que falta mesmo são os fornecedores localizar mais na casa deles. Toda a cadeia do aço é muito brasileira, assim como a do plástico. Os químicos, como as pinturas, e muitos aditivos são importados. Os produtos com tecnologia, muitos itens componentes são importados.  Minas é o segundo polo automotivo da América Latina. Nesse polo tão rico, corremos o risco nos últimos anos de uma inversão de tendências. Empresas que saiam de Minas para se globalizar em outros lugares, por competitividade. Isso que precisamos resgatar. Uma parte treinamos os novos fornecedores para aqui, sobretudo na cadeia do aço. Resgatamos outros que estavam com problema financeios e agora vamos atrair outros. Ainda hoje tenho com reunião com 120 fornecedores que vão nos falar sobre os planos de investimentos. Ou seja, já estamos começando a falar com eles.

MC- A FCA tem projetos de alta tecnologia para carros autônomos? Você acredita que esse futuro está próximo?

AF- É um presente (risos). Eu andei em carros autônomos. Um L4. Há seis níveis de autonomia. No Brasil temos um modelo L1, que é o Compass. Hoje, com o Jeep Compass estamos no nível 1 – o carro tem controle de velocidade, mantém a distância mínima pré-estabelecida do carro da frente, acelerando e desacelerando sem necessidade de comando, e se mantém dentro da faixa de rolamento. Nos Estados Unidos, a FCA estabeleceu um acordo com a Waymo – o projeto automotivo de veículos autônomos do Google – e estamos testando a minivan Chrysler Pacificapara operar no nível L4 de autonomia, no qual o veículo se desloca e toma decisões, dispensando o ocupante de manter a atenção na via ou acionar o volante. Temos algumas centenas deles em teste no trânsito, no Arizona, Texas e Califórnia. E andam mesmo, é incrível. O carro existe, mas não é econômico nos dias de hoje para produção. Para o cliente finalsai por 100 mil dólares. Não há escala, com isso os custos unitários são muito altos. A tecnologia já existe.

MC- E como estão os investimentos da Fiat para os veículos autônomos?

AF- Já foi aprovado mundialmente. Dos 45 bilhões de euros de investimento global nos próximos cinco anos, teremos 9 bilhões para novas tecnologias: eletrificaçã e direção autônoma. Para a direção autônoma estamos fazendo três parcerias: Waymo (Google), BMW e Aptiv. A tecnologia ainda está sendo criada. Nós não temos a presunção de saber qual vai ser o vetor mais rápido para chegar lá. Estamos trabalhando com todos que achamos que podem contribuir. 

MC- E os híbridos?

AF- Eu quero etanol! (risos) Depois podemos colocar um motorzinho elétrico e  dar assistência híbrida ao etanol. 

MC- O etanol tem o consumo mais alto...

AF- O gap que existe hoje entre o etanol e a gasolina é de 30%.  Nós queremos melhorar em mais de 50% essa distância. 

MC- Que tipo de convergência vocês encontraram na associação da Fiat com a Chrysler?

AF- Aprendemos novos métodos de produção e engenharia. A gente não tinha muita habilidade de fazer 4x4 e eles só fazem 4x4.  Sobre segurança veicular estamos no mesmo nível. Sobre eficiênciade consumo, eles aprenderam com a gente. Várias especializações de projetos foram usadas de forma sinérgica.

MC- Há possibilidade de fusão ou parceria com alguma empresa chinesa, como foi ventilado recentemente?

AF- Acho que não. O plano que entregamos de cinco anos foi o FCA. Prevê colaborações apenas. 

MC- Como estão as exportações?  Há planos de mudança nas vendas ao mercado externo?

AF- Vamos exportar neste ano mais de 100 mil carros para a Argentina e outros países da América Latina, assim como México. O primeiro mercado é a Argentina, seguida do Chile, Colômbia, e Peru.  No futuro queremos crescer. Importamos Cronos da Argentina. Somos mais exportadores do que importadores.  Estamos crescendo em todos os mercados. A FCA era quinta colocada na Argentina no ano passado, agora é segunda no ranking, com mais de 15% de participação. Dentro do Chile, Colômbia e Peru passamos de 2,5% para quase 3% de penetração de mercado.  Se a competitividade continuar assim, se a Rota 2030 for aprovada como pensamos, isso vai permitir pensar em ampliar a exportação. Vamos vender 750 mil carros na América Latina neste ano, sendo que 150 mil serão de exportação. 20% da produção é exportação. Exportamos todos os modelos da Fiat e da Jeep. 

MC- Quais os maiores entraves para a produção da indústria automobilística?

AF- Nenhum entrave, mas diversas oportunidades de melhoria. Estamos preocupados com a cadeia de fornecimento em MG, que passou por dificuldades mas agora está melhorando. A reindustrialização é importante, assim como a parte de infraestrutura.  Temos pouca opção de transporte de materiais e componentes, seja de produtos acabados. Temos a necessidade de desenvolver o Brasil para que a demanda cresça. Quando cresce a demanda, tudo se equaliza. Mas eu diria que a infraestrutura poderia ser melhorada, a cadeia de fornecedores... mas entraves mesmo não temos. 

MC- Qual é a expectativa de aumento de produção para o ano que vem? 

AF- Devemos vender neste ano de 650 mil a 700 mil unidades na América Latina, de veículos produzido em Betim, Córdoba e Pernambuco.  Quase 400 mil virão de Betim. Até 2022, queremos chegar a quase 600 mil. Queremos aumentar em 50% a produção em Betim. Desse número quase 200 mil são feitos em Pernambuco, onde queremos aumentar a produção também. E temos cerca de 60 mil veículos produzidos em Córdoba. 

MC- Qual foi o faturamento da empresa em 2017? Qual a previsão para 2018? 

AF- Eu vou falar de carros. Faturamento é um dado um pouco mais sensível. Neste ano vai vender 700 mil unidades. Em 2022 queremos ultrapassar a 1,1 milhão de carros vendidos ao ano.

MC- Como está a Fiat no ranking brasileiro de automóveis e comerciais leves?

AF- FCA é líder no Brasil (Fiat mais Jeep). Passou à liderança em março deste ano. Em abril e maio consolidou. Estamos hoje com 17,4% de mercado, com o FCA.  E o segundo colocado é 17%. A marca Fiat está crescendo, através do Toro, do Mobi, do Argo, do Strada. 

MC- A instabilidade política e econômica afetou de que forma os negócios da fábrica? E a greve dos transportadores?

AF- A greve dos transportadores foi um momento complicado. Na semana antes da greve o mercado estava emplacando 10 mil carros por dia, caiu a seis mil. Mas agora voltou a 10 mil. Foi um momento que precisou um pouco de atenção, mas parece que está passando. Em geral, o que afeta muito a economia é o câmbio, o preço das commodities e o consumo interno, que está crescendo. O câmbio precisamos ver até onde vai, e o preço das commodities está alto, aumentando os nossos custos. Mas nada que nos preocupe. Na verdade estamos muito otimistas para o ano.

MC- O carro era um sonho de consumo no passado. Com aplicativos de transporte, como Uber e Cabify, muitas pessoas estão deixando de ter o veículo próprio para se locomover com os motoristas desses serviços...

AF- Então é outra pessoa que está comprando o mesmo carro...  (risos). O consumo de veículos fechou em 2,1 milhões de carros no ano passado (de passeio e comerciais leves), e vai a quase 2,5 milhões neste ano. Vai crescer 15%. Eu não compartilho com essa visão. No Brasil é preciso do carro para fazer a mobilidade urbana. Eu desejo muito que todos os brasileiros possam ter um carro.

MC- A ideia da FCA é produzir veículos mais sofisticados para um cliente mais exigente

AF- Sim, sem dúvidas. Com motores melhores, transmissão melhor, equipamento de entretenimento digital disponível no veículo (Tv, vídeo, som, tela...), muita tecnologia. Essa é uma exigência do cliente final.Nossa estratégia é moldada à demanda do cliente. Teve um momento da história do automóvel que o cliente queria performance, então a gente fazia motores gigantes. Depois segurança, consumo. E agora o que o cliente quer? Tudo isso e mais conectividade. 

MC- Como oferecer um custo competitivo para esse produto?

AF- Escala e localização. Somos uma indústria, nos baseamos na escala e produtividade. 

MC- E as concessionárias? Há um trabalho para aliar com as estratégias da montadora?

AF- Estamos tendo um bate-papo sobre o futuro. Eles vão receber treinamento para isso, já estamos definindoas ações e processos para os próximos meses para que o consumidor finalseja bem atendido, com informações da venda e atendimento pós-venda. 

MC- Quais serão os principais desafiosdo grupo nos próximos anos? 

AF- Queremos a FCA líder de mercado neste ano, com crescimento de Fiat e de Jeep. Em 2020, a Fiat voltar a ser a marca líder de mercado, gerar empregos e know- how nas pessoas que fazem parte do nosso time.

 

 

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