Mercado Gastronômico

De Minas para o mundo

25 Outubro 2017

Sérgio Augusto

sergioamc@uol.com.br

No mês de agosto fizuma pesquisa pelo Facebook e no corpo a corpo por onde andei, somando as respostas para a seguinte pergunta: “Qual prato da cozinha mineira você indicaria para receber o título de patrimônio cultural imaterial da humanidade, da Unesco?”.

O resultado foi o seguinte (764 votos):

Feijão de Tropeiro – 37,12%

Frango com Quiabo – 18,56%

Tutu de Feijão – 15,47%

Goiabada Cascão com Queijo Minas – 10,31%

Pão de Queijo – 8,24%

Péla Égua (Canjiquinha com Costelinha) – 3,09%

Ora-Pro-Nóbis – 2,06%Queijo Minas – 2,06%

Vaca Atolada, Maneco com Jaleco e Cozinha Mineira – 1,03 cada.

A votação democrática e livre rendeu muita discussão e várias polêmicas. Para alguns, o Feijão (de) Tropeiro não é um prato mineiro puro, pois fazia parte da bagagem também de tropeiros que vinham de São Paulo (e do Sul do Brasil) e de Goiás. Que vinham tropas de São Paulo e de Goiás não há a menor dúvida. Mas, que carregavam feijão em suas cangalhas, disso não há registro em nenhuma publicação que alguém tenha lido.

A cultura do feijão nos Séculos XVIII e XIX não era promissora na região Sul, abaixo de São Paulo. Muito menos no centro-oeste brasileiro, onde o milho e o gado predominavam. Minas era o maior produtor do feijão preto (kumatá para os índios) e vermelho (roxinho). Na Bahia, o carioquinha predominava. 

O Feijão Tropeiro sempre foi preparado com o feijão preto, pela rusticidade que permitia conservar suas proprie-dades por mais tempo. Além disso, o sabor agradava mais ao combinar com a linguiça, farinha e o torresmo no acabamento da marmita. Era, também, o feijão predominante nos lugares onde se formavam as tropas que viajavam longe le-vando e trazendo mercadorias nos lombos das mulas.

Frango com Quiabo, segundo prato mais votado, é outra criação genial que nasceu em Minas. Uma combinação que, preparada com tudo da roça, é inigualável. De preferência, acompanhado de angu cozido com fubá de moinho.  

Durante a pesquisa, não foram poucas as pessoas que queriam votar no Frango ao Molho Pardo. Infelizmente, o molho pardo não nasceu em berço mineiro. Em Portugal, as aves cozidas em seu sangue, com cabeça, pés e miúdos, chama-se Cabidela. Sua receita é de origem africana, provavelmente de Moçambique.

Houve, também, protestos contra a pouca votação dada ao Queijo Minas - talvez por causa do seu sucesso recente no Salão Mundial do Queijo, realizado em Tours, na França. Na Capital do Queijo, os mineiros se destacaram e dois deles, da Fazenda Caxambu, em Sacramento, no Alto Paranaíba, ganharam a Medalha de Ouro e de Prata. Outros ganharam mais seis de prata e três de bronze numa disputa direta contra 700 produtores de 20 países.

Não apenas o Queijo, mas todas as outras receitas da Cozinha Mineira ficariambem com o primeiro lugar na pesquisa. Não me considero suspeito por afirmarque a comida mineira é a melhor do Brasil porque é uma realidade a alcance de qualquer pessoa que sente gosto e cheiro do que é bom. Não bastasse a qualidade, também a quantidade de pratos bate longe os outros estados.

Então, considerando todos os fatores da Pesquisa, resolvi mudar o seu resultado (pra melhorar, todo “golpe” vale!). O Feijão Tropeiro venceu, mas não vai levar. A saída mais sensata é indicar toda a cozinha mineira e seu rico acervo para fazer companhia a outras relíquias mundiais já reconhecidas pela Unesco.

Já são Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade: Pão de Gengibre, da Croácia; Kim-Chi, da Coreia do Norte; a Comida Mexicana; a Washoku, do Japão; o Café, da Turquia; Lavash, da Armênia; a Dieta Mediterrânea da Espanha, Portugal, Itália, Chipre e Grécia; a Mastiha , da Grécia; e a Cozinha Gourmet, da França. 

A Unesco tem agendada para 2018 uma reunião de seu comitê para escolher os novos Patrimônios Mundiais – Imaterial, Artístico, Criatividade, Histórico etc. Na área gastronômica há outro concorrente: o Molho Amatriciana, da região de Amatrice, pequena cidade no centro da Itália.

A missão de conseguir a aprovação da Unesco vai ficar por conta do Governo de Minas Gerais, a quem passarei o resultado da pesquisa e a decisão de indicar a Cozinha Mineira com seu conjunto de docinhos, petiscos, quitandas, bolinhos e quitutes. Tomara que dê certo. 

 

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