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Crise econômica: seus impactos na indústria de Minas Gerais

07 Novembro 2016

RESUMO
O artigo seguinte, redigido exclusivamente para esta edição de MercadoComum, trata dos seguintes temas: 1) Economistas acadêmicos de alto prestígio nos Estados Unidos apregoavam que não ocorreriam mais os ciclos econômicos destrutivos.
 
O arsenal de políticas macroeconômicas monetárias e fiscais tornou- -se capaz de impedir essas ocorrências.
 
Se alguma houvesse poderia ser extirpada com relativa facilidade.
 
2) As crises econômicas e financeiras do fim do século passado aos dias atuais denominadas de “bolhas” têm origens e trajetórias diferentes das crises econômicas clássicas.
 
Mostram-se resistentes às políticas macroeconômicas que visam combate- las. Demandam políticas complexas e controversas de regulação do sistema financeiro bancário e não bancário e de leis orçamentárias públicas e fiscais / tributárias, muitas delas ainda por serem mais bem entendidas.
 
Hyman P. Minsky1 profetizava que devido aspectos financeiros os ciclos dos negócios são inerentes ao risco das formas de financiamento do capitalismo.
 
3) Como é notório o setor industrial do País e, como corolário, o de Minas Gerais, têm sofrido fortes impactos desfavoráveis. As políticas públicas e estratégias empresariais também demandam melhor compreensão.
 
É preciso: a) Estruturar cadeias produtivas para enfrentar as cadeias regionais asiáticas que alimentam o setor industrial da China; b) Desfazer a defasagem tecnológica que resulta, por exemplo, em expressivas importações de produtos e componentes eletroeletrônicos; c) Prover financiamento adequado de longo prazo com comprometimentos bem definidos: adquirir ativos de capital implica de um modo geral em aumentar o passivo financeiro, como advertia Minsky; d) Analisar e Avaliar continuamente os PDPs (Planos de Desenvolvimento Produtivo) do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, etc.
 
1. INTRODUÇÃO
O cenário atual mostra que as crises econômicas que afetam e infelicitam vários países do mundo desde 1990 não podem ser bem explicadas pelas teorias e experiências de crises passadas como, por exemplo, a crise econômica mundial de 1930.
 
Essas teorias têm como referência, essencialmente, quer seja um excesso de produção (superprodução) sem mercado para vendas, ou uma queda brusca da demanda efetiva (queda nas vendas e formação renitente de estoques acima do previsto) por bens e serviços.
 
Nas crises econômicas atuais a ênfase recai essencialmente sobre a formação de “bolhas financeiras públicas e privadas” tanto devido a desequilíbrios fundamentais dos orçamentos governamentais e excessos de financiamentos externos que afetam drasticamente as finanças públicas e empresariais, de práticas especulativas imobiliárias como a “bolha especulativa dos subprimes” e de expansão descontrolada de créditos bancários no financiamento de bens duráveis de consumo.
 
Essas têm sido causas recorrentes nos mais variados países da Ásia, Europa, América Latina, bem como nas poderosas nações populosas e altamente industrializadas e líderes das inovações tecnológicas, como o Japão, os Estados Unidos e a China, eclodindo “ciclos econômicos” arrasadores.
 
Várias são as causas apontadas e poucas as propostas convincentes e eficazes de solução dos enormes impactos negativos dessas “bolhas”, como se pode aprender com o Prêmio Nobel de Economia de 2008, emérito economista Paul Krugman.
 
Se as causas das “bolhas econômico- -financeiras” e suas consequências sobre as organizações econômicas (não apenas para as economias de mercado capitalistas, mas também de comando centralizado) são, em geral, bem entendidas e avaliadas, não se conhece bem as medidas eficazes de combate a recessão e a temida depressão (recessão prolongada com tendência de queda contínua de preços) que desencadeiam.
 
A experiência tem demonstrado grandes dificuldades das políticas macroeconômicas para combater as recessões e profundas depressões econômicas resultantes dessas “bolhas econômico-financeiras”. O fato é que as trajetórias socioeconômicas negativas resultantes dessas “bolhas” não se resolvem com facilidade por meio das medidas de politicas macroeconômicas e monetárias conhecidas de combate das crises clássicas.
 
Aumento de gastos públicos, reduções nas taxas de juros de mercado, desvalorizações cambiais, de um lado, ou contenção de gastos orçamentários, aumento das taxas de juros e mercado livre de câmbio, por outro lado, mostram-se, em casos diversos, como no Japão, medidas ineficazes, encurraladas em “armadilhas da preferência pela liquidez” (dinheiro em caixa e créditos são esterilizados e não resultam em aumentos de gastos de consumo e investimento devido a incertezas com relação ao futuro da economia, ao desemprego e ao risco de “default”), ou blindadas por enormes déficits orçamentários, altos níveis de endividamento e de riscos de inadimplência, que resultam em renitentes incertezas quanto ao futuro.
 
Assim, os impactos negativos das “bolhas econômico-financeiras” percorrem trajetórias multicausais e contraditórias, que gradativamente se realimentam e interagem impedindo a retomada do crescimento econômico. Até mesmo a dinâmica das inovações tecnológicas não constitui abrigo seguro para evitar a ocorrência de ciclos econômicos que muitos julgavam serem passíveis de controle com relativa facilidade.
 
Vale considerar, pois, que é limitado o entendimento atual das causas fundamentais da intensidade dos impactos das crises econômicas mundiais ou nacionais sobre setores produtivos específicos e suas atividades microeconômicas. Nessas circunstâncias, para além das propostas macroeconômicas e monetárias, há um relativo desconhecimento de impactos, comportamentos e estratégias viáveis de sobrevivência dessas atividades microeconômicas, o que é também fundamental para se refrear esses impactos negativos.
 
2. A INDÚSTRIA NACIONAL
O Boston Consulting Group tem reportado alguns impactos importantes da crise econômica sobre os empreendimentos produtivos públicos e privados: 
a) os níveis salariais prevalecentes; 
b) os índices de produtividade vigente em cada país; 
c) os preços da energia, e 
d) as taxas de câmbio.
 
Esses fatores, de formas diferenciadas têm exercido forte impacto em países como o Brasil, a Rússia, a China, a Polônia e a República Checa, tornando-os relativamente baratos.
 
Segundo o BCG4 o Brasil perdeu espaço em todas essas dimensões.
 
Ou seja, a indústria brasileira foi a que mais perdeu competitividade ao longo dos últimos dez anos.
 
Em Painel realizado pela Revista Brasileira de Inovação, William Bonvillian, diretor do escritório de Washington D.C. do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), fez um diagnóstico sobre essa resistência de setores maduros em adotar tecnologias genuinamente inovadoras (baseada em novos paradigmas) em seus ambientes de inovação.
 
Para Mariano Laplane, presidente do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, ligado ao extinto Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e professor do Instituto de Economia da Unicamp, a grande diferença entre a realidade norte-americana e a brasileira “é que nós não criamos a tecnologia aqui, nós apenas produzíamos; agora, não criamos e nem produzimos”.
 
De fato, de modo diferente de outros países, no Brasil predominam as inovações de processo, e não inovações genuínas com trajetórias que causam profundas mudanças sociais, culturais, comportamentais, expandindo novos mercado de consumos e novas ondas de investimentos .
 
Considere-se o comentário e os gráficos 1 e 2, a seguir, do site da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica, ABINEE: Economia e Estatísticas e Avaliação Setorial como um caso elucidativo das expectativas dos setores produtivos industriais: “No acumulado de janeiro-julho de 2016, o déficit da balança comercial dos produtos elétricos e eletrônicos somou US$ 10,92 bilhões, 36% abaixo do apontado nos primeiros sete meses do ano passado (US$ 17,08 bilhões). É importante lembrar que, desde junho de 2014, o déficit da balança do setor, no acumulado do ano, começou a registrar resultados abaixo dos apontados nos mesmos períodos do ano anterior.
 
Este comportamento vem se repetindo a cada mês, consequência da queda das importações que também vem sendo verificada desde 2014, refletindo o baixo nível de atividade da indústria.” 
 
 
 
 
Os conteúdos das Revistas da ABINEE disponíveis no seu site são reveladores do dinamismo desse importante setor da indústria nacional. Que mesmo assim tem sido duramente atingido pela atual crise econômica e financeira. Neste sentido faz mister que os segmentos representativos da indústria nacional aprofundem as análises das causas e consequências desses impactos em um contexto de sua cadeia produtiva.de fornecedores a clientes nacionais e internacionais.
 
 
3. ASPECTOS RECENTES DOS IMPACTOS DA CRISE ECONÔMICA NA INDÚSTRIA DE MINAS GERAIS É notório que a indústria nacional e do Estado de Minas Gerais têm sido duramente afetadas pela crise econômica originada por “bolhas financeiras” geradas internamente na economia nacional e no âmbito internacional. Uma breve exposição do comportamento recente do setor industrial de Minas Gerais e de seus segmentos mais importantes em 2016 é amostra de que, apesar de uma pequena tendência de reversão, esse setor da economia do Estado ainda tem grandes desafios, embora muitos anteriormente já tenham sido superados com denodo.
 
AS CONSIDERAÇÕES A SEGUIR ESTÃO FORTEMENTE APOIADAS NESTA PESQUISA.
 
1) Observa-se no gráfico da Figura 1 que no mês de julho de 2016 em relação ao mês anterior tanto a “Média Móvel Trimestral” quanto o ”Índice de Base Física” com 2012=100 mostram uma leve tendência de aumento da produção industrial física de Minas Gerais, com ajuste sazonal, que já havia sido sinalizada desde o mês de fevereiro deste mesmo ano.
 
Várias análises de grande alcance sobre as trajetórias do desenvolvimento econômico geral e do setor industrial de Minas Gerais mostram o seu dinamismo e contínua busca de oportunidades e de inovações tecnológica emoldurada pelos recursos naturais e geográficos do Estado7.
 
2) Contudo, o gráfico da Figura 1 mostra claramente o forte impacto negativo de de médio e longo prazo sobre o setor industrail do Estado. Em comparação do mês de julho de 2016 com o mês de julho de 2015 a produção física industrial de Minas Gerais recuou 4,3%; a desconfortável vigésima oitava taxa negativa consecutiva desse indicador. Das treze atividades industriais pesquisadas sete tiveram queda de produção nessa comparação, sendo que as atividades mais afetada foram as industrias extrativas com queda de 15,1%, principalmente devido ao mal desempenho do setor de ferro em bruto ou beneficiados.
 
3) Já o acumulado de janeiro a julho de 2016 comparado a igual período do ano anterior foi de menos 8,0% (um pouco inferior aos menos 8,7% do que a observada na comparação semestre a semestre), indicando, um pequeno mas esperançoso crescimento da produção física industrial do Estado.
 
Em comparação com ano de 2013 observa-se uma expressiva queda na produção industrial física na série do ”Índice de Base Física”, com ajuste sazonal, de 100 para 85.
 
Considerando ainda o acumulado de janeiro a julho de 2016 em oito dos treze ramos pesquisados ocorreram quedas de produção física na indústria de Minas Gerais.
 
A prinicipal ocorrência negativa sobre a média global foi observada em indústrias extrativas com -15,7%, devido principalmente a queda no segmento de extração de minérios de ferro em bruto e beneficiados. Outros ramos onde ocorreram quedas de produção nesse período foram: veículos automotores, reboques e carrocerias -20,3%, metalurgia -6,9%, máquinas e equipamentos -35,2%, produtos de metal -14,2%, produtos de minerais não metálicos -9,3% e de coque, produtos derivados de petróleo e biocombustíveis -3,7% devido a menor produção de automóveis e peças e acessórios para veículos automotores.
 
Não restam dúvidas sobre o grande impacto da atual da crise econômômica sobre o setor industrial nacional e de Minas Gerais.
 
Como indica o Gráfico 2 ainda é pequeno o grau de confiança de empresários na recuperação da economia nacioanal. Mas, a questão essencial é uma interação com compromissos baseados em uma avaliação profunda da atualidade e perspectiva do setor industrial do País. Vale considerar que pelos efeitos diretos, indiretos e induzidos sobre as outras atividade produtivas como o comércio e a agricultura, o setor industrial é o pricipal indutor e condutor da trajetória de criação de empregos e desenvolvimento socioeconômico nacional e estadual geral.
 
O Quadro 1 e o Gráfico 3 mostram a evolução das exportações, das importações e o saldo ba balança comercial do Estado de Minas Gerai no período de 2011 a 2016. Nesses seis anos observa- se a queda gradativa de todos esses três componentes da balança comercial de Minas Gerais, atestando a redução das atividades produtivas do Estado no período em questão.
 
A queda contÍnua do Saldo da Balança Comercial de Minas Gerais revela tanto o impacto da queda de quantidade vendida de commodities para o exterior como o impacro da queda dos preços dessas commodities no mercado externo, como mais um indicador do encolhimento da atividade industrial no Estado, particularmente devido a crise econômica e financeira mundial e nacional.
 
Os Planos de Desenvolvimento Produtivo se sucedem a cada administração avaliando situações vigentes e estabelecem procedimentos, que de modo geral não resultam em ações de consenso e compromissadas. A partir dessas circunstâncias é que se demandam ações e medidas efetivas que retornem a produção industrial vigorosa, e se estabeleça trajetórias realizáveis com benefício para o País e em particular o retorno à manutenção e geração de empregos; isto bastante se conhece.
 
Mas o que é efetivo nessa quadra de enormes desafios para bem Brasil? Enfim, questões essenciais devem ser insistentemente avaliadas, como já enfatizado: a) Estruturar cadeias produtivas para enfrentar as cadeias regionais asiáticas que alimentam o setor industrial da China e outros países;; b) Desfazer a defasagem tecnológica que resulta, por exemplo, em expressivas importações de produtos e componentes eletroeletrônicos; c) Prover financiamento adequado de longo prazo com comprometimentos bem definidos: adquirir ativos de capital implica de um modo geral em aumentar o passivo financeiro, como advertia Minsky, etc.; d) Analisar e avaliar continuamente os PDP’s (Planos de Desenvolvimento Produtivo) do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviço; e) “O capitalismo brasileiro expõe nesse momento suas fragilidades: desarticulação entre Estado, empresas nacionais e transnacionais, limitações dos financiamentos de longo prazo, dificuldades de introdução endógena de progresso técnico e atraso institucional” . Há que se debater ou estacionar. Há que interagir ou frustrar-se. 
 
 
 
 

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