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Janeiro de 1971.

JK, atuando na direção do Banco Denasa de Investimentos, proferiu a seguinte palestra a empresários mineiros, em Belo Horizonte:

“Eu não deveria estar aqui, falando aos senhores, porque sou tão novato quanto os senhores nesse novo ramo de atividade que agora estamos enfrentando. O Brasil passou, tão subitamente, de uma posição para outra, no plano do desenvolvimento, que, cada dia, novas coisas nele se criam, mas gerando situações novas, de onde constituir outros instrumentos para a sua grandeza e para a sua prosperidade.

 E um deles é esse mercado financeiro, é esse mercado de capitais que hoje nós estamos dentro dele, procurando engrandecê-lo, e procurando aumentar a sua potencialidade. Aliás, se nós ainda estamos no início da atividade de um mercado de capitais, já devíamos, há muito mais tempo, ter penetrado nele. Razões especiais, entretanto, atrasaram muito o Brasil nesse campo. Se nós fizermos um ligeiro retrospecto sobre a história da humanidade, nós veremos que o mercado de capitais nasceu com a própria humanidade. Porque milênios antes de Cristo, na Mesopotâmia, já os homens se organizavam em sociedades, para explorar o comércio de cereais, comprando as colheitas que ainda não tinham nascido, bem barato, para vender com preços escorchantes aos consumidores, depois de havê-las colhido.

 Na Antiguidade, os homens não apreciavam muito essa atividade do comércio. A humanidade se preocupava mais com as guerras, com a nobreza; e os homens de negócio, os empresários, eram muito malvistos. E na Grécia, e mesmo em Roma, os empresários eram considerados pouco mais do que ladrões e não tinham ingresso na sociedade, e nem na conquista de posições na política. É sabido que, na Grécia, Xenofonte – o grande historiador grego, foi o primeiro homem que tentou a fundação de um banco, mais ou menos nos moldes do que é hoje um banco de depósito. Mas logo entrou em decadência. Em seguida, Solon, que era considerado um dos homens mais inteligentes da época – um grande legislador – tentou também entrar para a política, e se fez a ponte de Atenas. Mas, com o complexo de pertencer à classe dos empresários, e sabendo que esses eram muito malvistos por aqueles que lhe haviam dado o poder, os perseguiu muito. Cancelou dívidas, sequestrou bens e, afinal, acabou sendo considerado como um traidor da sua classe.

 Em Roma, que foi a pioneira da organização das grandes companhias, o mesmo sucedia. Roma fazia as suas organizações também com ações, captava capital por meio de ações, que naquela ocasião eles chamavam de partes. E os homens ricos viviam sempre pelejando, como acontece ainda um pouco – vocês podem observar, mesmo no panorama brasileiro, o homem, depois que fica muito rico, quer entrar para a política. Porque, sem dúvida, as duas forças que existem no mundo são: a força do dinheiro e a força do poder. E quando o cidadão tem a força do dinheiro, então quer, também, possuir a outra. E foi graças a isso que Marcos Crassus, o homem mais rico de Roma, com o seu dinheiro, conseguiu, pela primeira vez, fazer parte de um movimento político, figurando no Triunvirato com Pompeu e César, mas logo depois dele excluído.

 O movimento do mercado de capitais foi rolando. E, como na Antiguidade, as coisas caminhavam sempre, da Grécia para Roma, de Roma para a França, havia de vir esse movimento então para a França. E um determinado cidadão chamado John (…), que era um escocês que matou o amante da sua mulher e, por isso, foi obrigado a fugir para a França, lá chegando conquistou as graças do Duque de Orleans, que era o regente de Luiz XV e, prometendo a ele, através de um banco, melhorar consideravelmente as finanças da França, fundou, pela primeira vez – isso por volta de 1717, o primeiro banco central do mundo.

 E logo em seguida, e por força dessa organização do mercado de capitais da época, a Bolsa da França, em 1726, se constituía. E a Inglaterra, cujas rivalidades com a França eram muito grandes – países que viviam permanentemente em guerra um com o outro, também começou a organizar o seu mercado de capitais. E esse, realmente, foi um modelo para todo o mundo, e depois saltou o Atlântico e vem até hoje, nos dias de hoje, nos dar as lições que ainda prevalecem para a organização do nosso capital.

Em Londres, havia uma rua chamada Lombard Street. E nessa rua se reuniam os homens que vendiam ações. Eram os corretores da época. Mas esses corretores já haviam nascido desde a Renascença, não na Inglaterra, mas em Veneza. E como eles se reuniam sempre na rua, na (…) se tornou um dos mais famosos centros comerciais do mundo antigo, onde os corretores se encontravam para vender as ações das companhias existentes. E na Inglaterra, na Lombard Street, havia um Café chamado Jonathan Coffee Shop. Esse Café, uns vinte anos depois, os ingleses mudaram o nome dele para Stock Exchange, quer dizer, Bolsa de Valores. E daí começou realmente isso que hoje existe no mundo inteiro: a Bolsa de Valores.

Essa Bolsa de Valores logo saltou o Atlântico, para vir para os Estados Unidos. Porque, nessa época, os Estados Unidos eram uma colônia da Inglaterra, e não havia, portanto, americano, havia inglês na América. E os ingleses que vinham para os Estados Unidos, nas treze primeiras colônias – o grupo das primeiras colônias inglesas, que mais tarde se transformaram nos Estados Unidos, esses corretores foram procurar, em Nova York, uma rua que, ainda hoje, é a mais famosa do mundo. Chama-se Wall Street. Isso traduzido em português, quer dizer: “rua do muro”, porque nessa rua, o governador (…), de Nova York, construiu um muro de tábua de quinhentos metros de extensão e três metros de altura, para proteger, sobretudo, os corretores que viviam ali, passeando na rua para vender as ações, e para evitar que os porcos, cachorros e os animais viessem importunar o trabalho deles.

 E nessa rua havia um plátano (esse plátano já foi cantado em prosa e verso em todas as revistas do mundo, em fotografias) que ficava, mais ou menos, na altura do número sessenta e oito da Wall Street, e era à sombra desse plátano que eles começaram, então, a discutir os problemas da Bolsa de Nova York, que ainda não existia. Mas o inverno é muito rigoroso, e eles então procuraram se abrigar. Reuniram-se, cotizaram-se, construíram uma casa, e, em 1801, essa casa passou a ser a sede onde aqueles corretores se encontravam para a venda de ações. E essa sede também passou a ser a Bolsa de Nova York. E essa Bolsa é que deu o maior trabalho à humanidade e foi uma das responsáveis pelo grande desenvolvimento dos Estados Unidos.

Porque, logo em seguida, por volta de 1834, descobriu-se a coisa mais fabulosa dos últimos vinte séculos: foi a máquina a vapor. Porque a humanidade é curiosa: a humanidade do século I, em Roma, até a humanidade do século XVIII, em qualquer parte do mundo, era a mesma. O mesmo desenvolvimento, ou por outro, o mesmo atraso. Basta dizer, meus senhores, que no meu ramo, que era a medicina, havia em Roma, no século I, um médico chamado Galeno. E a medicina de Galeno prevaleceu no mundo até o século XVIII; no século XIX, Pasteur começou os seus grandes trabalhos e descobriu o micróbio. Só então se alterou a medicina, porque o que Galeno fazia no século I, os médicos faziam até no século XIX.

Mas a máquina a vapor então conseguiu a maior revolução dos vinte séculos da nossa civilização. E daí nasceram as grandes companhias americanas, sobretudo, companhias de estrada de ferro, porque, antes dessas companhias, as maiores eram as companhias de carvão, porque o carvão, além das utilidades todas que tinha, como combustível, tinha aquela de proteger os cidadãos contra o frio o aquecimento das casas era um conforto do qual ninguém podia se privar. De modo que, quando se descobriu a máquina a vapor, houve uma explosão no desenvolvimento americano. E então aí, eles já contavam com centenas de bancos. Era uma coisa curiosa que, em 1836, houve uma crise nos Estados Unidos, em que faliram seiscentos bancos. Nessa altura, já existia, naquele país, um mercado de capitais, ou um mercado financeiro, que permitia a falência de seiscentos bancos.

 As companhias de estrada de ferro se desenvolveram muito, e assim se deu o grande desenvolvimento da Bolsa. E começavam, então, a aparecer – não havia Banco Central nos Estados Unidos – os grandes homens de negócios. E um deles, o mais famoso, foi Morgan, cuja organização existe até hoje nos Estados Unidos, é um dos bancos mais famosos do mundo – e ele é que comandava, realmente, o movimento financeiro dos Estados Unidos, através da Bolsa de Nova York. E quando ela chocava, quando ela tinha um atrito, quando tinha qualquer coisa, Morgan reunia, em sua casa, todos os banqueiros e dizia: “O senhor vai entrar com cinco milhões de dólares, o senhor vai entrar com dois milhões de dólares”. Faziam caixas, e essas caixas é que, então, pela compra ou venda de ações, estabeleciam o equilíbrio e evitavam crises muito sérias na Bolsa.

Quando houve a Guerra da Secessão nos Estados Unidos, em 1865 – terminou em 1870 –, houve mais de um milhão de mortos. Foi uma guerra devastadora, terrível, para a independência, para a eliminação dos escravos. E, logo em seguida a isso, a nação parece que, com o sangue derramado, ela se levantou vigorosamente, e foi graças à Bolsa, ao trabalho do mercado financeiro, o mercado de capitais, que em 1900 – nesse espaço de trinta anos, de 1870 a 1900 –, ela adquiriu uma projeção extraordinária e fez a estrutura sobre a qual, neste século, os Estados Unidos apoiaram o grande desenvolvimento que fez dos Estados Unidos, com quatro milhões de habitantes (…)

(…) com um rei, um imperador, que embora nos tenha dado de presente a independência do nosso país, não estava ainda, ele não era educado para esses movimentos de desenvolvimento. E, mais tarde, sucedido por Dom Pedro II, que incontestavelmente foi uma das figuras mais respeitáveis da história do Brasil, mas que também não tinha a bossa do desenvolvimento. Dom Pedro II era um homem que ia assistir, no Rio de Janeiro, a todos os concursos no Colégio Pedro II. Perdia um tempo enorme com isso, para assistir a concursos de colégios, dava muita força, mas o assunto de desenvolvimento, nada. Só houve, naquele período do Segundo Império, um homem que tentou fazer alguma coisa, foi Mauá. Mas foi superado pelas dificuldades da época, entrou em falência, e o Governo, dentro daquele liberalismo absurdo da filosofia dominante na época no Brasil, deixou que ele se arrebentasse, sem lhe estender a mão, nem lhe dar o menor auxílio. Coisa que mais de um século atrás, nos Estados Unidos, já não era possível (…) foi o grande coordenador do movimento financeiro dos Estados Unidos, e que morreu num duelo, estupidamente, em 1803, já organizava a estrutura americana, defendendo, com unhas e dentes, o mercado americano contra o domínio inglês da época.

 Mas, logo, nós tivemos a proclamação da República, já com um país com quatorze milhões de habitantes, mas sem nenhuma preocupação com esse assunto. E os trinta primeiros anos da República não foram mais nada do que o desdobramento do Império. Os primeiros presidentes eram outras figuras de Pedro II, todos de sobrecasaca, o mesmo estilo, as mesmas preocupações, e nada de desenvolvimento. Finalmente, em 1930, houve um grande movimento, o início do movimento do despertar do Brasil. E aí, o Brasil começou a tomar consciência, em primeiro lugar, do seu atraso; em segundo lugar, da massa imensa de trabalhadores que vivia no país, mais ou menos como escravos, e que mal tinham recebido os benefícios da Lei Áurea, de 1888. Mas os acontecimentos foram marchando e o Brasil foi abrindo os olhos.

 Em 1955 – nós estamos fazendo um pouco de história retrospectiva, eu não posso deixar de referir, também, ao meu período, porque esse faz parte, também, de tudo isso que está ficando para trás –, mas, em 1955, quando a minha candidatura foi lançada, eu olhei o panorama brasileiro e vi que não tínhamos nem sequer condições, no Brasil, para organizar uma equipe de técnicos, de homens com sabedoria, com know-how, para traçar programas para o Brasil. Os poucos homens que eu encontrei e que me ajudaram muito, a eles eu disse: “Nós vamos organizar umas metas que devem ser realizadas para restaurar no espírito do brasileiro a confiança nesse país. E, como nós não temos, ainda, equipes capazes de fazer esse trabalho, vamos estudar os estrangulamentos da economia brasileira e procurar uma terapêutica contra esses estrangulamentos, que eu farei o Brasil marchar cinquenta anos em cinco anos.

E é muito fácil eu lhes dizer, eu mesmo conheço esses estrangulamentos. Eu sei que não há energia elétrica no Brasil, porque no Rio e São Paulo os elevadores estão racionados, quer dizer, você não podia construir um prédio no Rio e nem em São Paulo, porque não havia energia elétrica para elevador, quanto mais para fazer indústria… Nós não temos estradas. As estradas que existiam, todas de terra, péssimas, eu encontrei apenas oitocentos quilômetros de estradas asfaltadas neste país. Hoje, elas já andam por cerca de cinquenta mil quilômetros. Nós não tínhamos cimento, nós não tínhamos navio, nós não tínhamos automóveis. Enumerando, aí, seriam trinta metas. E foi com essas trinta metas que eu saí, então, para minha campanha.

E na minha campanha, que eu iniciei em Jataí, no Estado de Goiás, eu fiz uma exposição ao povo, contando isso que estou falando aqui com os senhores naturalmente, numa campanha política, dando mais retórica, dando mais beleza no que eu estava dizendo, e no fim, eu disse: “Agora, eu pergunto a vocês: o que vocês acham que eu devo fazer? Porque eu não compreendo que uma Nação possa viver apenas de fazer estradas e pontes. Porque há uma coisa sutil, superior, espiritual, que se chama garantias, a liberdade, todos esses assuntos, que eu pretendo zelar, respeitar, como uma coisa sagrada para o Brasil. E só posso fazer isso, respeitando integralmente a Constituição, que é a Lei que nos rege”.

Um cidadão, lá da multidão, vira-se pra mim e diz: “Mas, se o senhor está declarando que vai respeitar integralmente a Constituição, há um dispositivo na Constituição que manda construir a nova capital do país. O que é que o senhor diz a respeito disso?” Aí, eu raciocinei um segundo e disse: “O senhor me pegou nessa, porque, realmente, eu não tinha pensado nisso e nem nenhum dos meus assessores que trabalharam comigo”. Desde criança, eu via no mapa o retângulo, sede do futuro Distrito Federal. E, acostumando com aquele retangulozinho ali no mapa, ninguém mais dava importância, nem acreditava naquilo. “Mas o senhor tem razão. O Artigo 4º das Disposições Transitórias da Constituição de 1946 estabelece, realmente, a construção da nova capital, e eu vou construir a nova capital”.

Dali, eu fui para Anápolis, à noite, havia muita chuva – eu me lembro que foi um comício, todo ele de guarda-chuva – e a primeira pergunta já foi esta, do povo: “O senhor vai fazer a nova capital?” Falei: “Vou fazer”. Dali, fui pro norte de Goiás, para Belém, Manaus. Quando cheguei ao Rio, já toda a imprensa me perguntando: “Mas o senhor vai fazer a nova capital?” – “Vou fazer a nova capital”. E ficou, então, consagrado e eu já fiquei com o compromisso.

 Bem, quando eu tomei posse – e todos sabem as dificuldades que eu enfrentei para isso, na ocasião, logo em seguida, eu tive o movimento revolucionário. E, receoso de que esse movimento pudesse acarretar, inclusive, a queda do meu governo, eu preparei a mensagem e fiquei com ela prontinha para mandar para o Congresso. Falei: “Se houver qualquer briga, eu mando para o Congresso, e, ao menos, verão que, da minha parte, eu fiz aquilo que devia ter feito, cumpri a minha palavra”. Dominado o movimento, dias depois, eu sigo para a Amazônia, para ver lá o petróleo. Mas, então, viajando para a Amazônia – eu ia assinar, em Goiânia, a mensagem, sobrevoei Goiânia, e havia uma nuvem sobre o campo. Não foi possível descer em Goiânia, então fui para Anápolis, e lá é que assinei a mensagem e mandei para o Congresso. E começamos, então, o trabalho.

 Mas não havia, nessa ocasião, nada, a não ser os bancos: bancos comerciais, bancos de depósito; não havia nada no mercado financeiro, nem o mercado de capitais. E eu comecei a me preocupar, porque uma das primeiras metas do meu governo foi resolver o problema da indústria automobilística. E eu sabia que no meu governo ainda, eu conseguiria fabricar, pelo menos, cinquenta mil veículos por ano, mas que isso iria num crescendo, como realmente foi – esse ano passado, nós já fabricamos mais de seiscentos mil carros. Então, quer dizer, mas como é que se vai comprar esses carros? Porque ninguém tem dinheiro para comprar de uma vez um carro. Então precisa haver uma maneira de financiar esses carros. E daí nasceu, então, a ideia das financeiras. Criamos as financeiras.

 Em 1958 – em novembro de 1958, a Portaria da SUMOC criou as financeiras. E quando eu deixei o Governo, já havia no Brasil sessenta financeiras, que começaram a financiar a compra de automóveis. À medida, porém, que o assunto prosseguia, essas financeiras foram se desenvolvendo, e nós chegamos a ter, no Brasil, trezentas e tantas financeiras. Com a política atual do governo, de reduzir o seu número, juntando várias em uma só, mais forte, mais poderosa, hoje elas devem andar por volta de cento e oitenta a duzentas financeiras. Ao mesmo tempo, em 1965, o fenômeno foi se agravando, porque eu mesmo me transformei em corretor do Brasil. Aí, eu sou colega dos senhores, e vou dizer o seguinte, vou citar só uns dois exemplos, para os senhores verem como eu trabalhei como corretor neste país.

 A primeira coisa que eu criei aqui em Minas, quando entrei para o governo do Estado, foi a Cemig. Nós não tínhamos energia elétrica para coisa nenhuma, a não ser umas pequenas usinas de dez cavalos, vinte cavalos, para iluminar, como eu dizia, a miséria das cidades do interior. Então, nós precisávamos construir as centrais elétricas, destinadas a impulsionar um parque industrial para Minas, e daí nasceu a ideia da Cemig. Mas para fazer a Cemig (era uma companhia mista), o Estado entrava com uma parte do capital e os particulares com outra parte; naquele tempo, as duas companhias maiores que havia aqui eram a Belgo-Mineira e a St. John Del Rey Mining situada em Morro Velho. Eu chamei, lá no Palácio, o superintendente da Belgo-Mineira, e expliquei a ele todo o meu plano: “Nós temos que fazer aqui uma companhia mista, é uma novidade, mas pretendemos realizar, realmente, uma obra de importância para o Estado”.

E ele foi muito franco e me disse: “Mas nós não acreditamos na capacidade do Estado para realizar essas coisas”. E eu disse: “Vocês têm toda razão. Não é só para realizar essas coisas não, é para realizar qualquer coisa – essa que é a verdade”. Porque o Estado ficava olhando o povo lutar na sua miséria, sem intervir para criar uma estrutura que melhorasse as condições econômicas do Estado. “É, mas o senhor faça uma experiência, e vai ver se eu vou ou não realizar esse assunto”.

O superintendente da Belgo-Mineira, a título de experiência, assinou a primeira cota. Foram dez mil contos; era pouco, mas muito mais do que representa hoje, é claro, não é? Porque hoje, daquela época para cá, houve uma desvalorização do cruzeiro de milhares de vezes. O outro que eu procurei foi o superintendente da Mina de Morro Velho, Sr. W. Russel. É por isso que, às vezes, eu compreendo muito as dificuldades dos corretores, sabe? Eu mandei telefonar para ele, dizendo que “o governador quer falar com ele”. Ele mandou responder “que estava almoçando e não podia atender”. Então eu falei: “Mas ele ficou sabendo que é o governador, mesmo, que quer falar com ele, e está almoçando? Eu já levanto do almoço para atender qualquer chofer, não digo já uma pessoa de grande projeção, mas qualquer pessoa modesta, eu me levanto, então ele não pode atender o governador do Estado?”

Então mandei chamar o cônsul britânico aqui, que era meu amigo, contei o fato e falei com ele: “De agora pra diante, você poderá ir à minha casa, que eu o receberei com muito prazer, mas aqui no Palácio você não entra mais. Nem mais um inglês entra aqui neste Palácio, sabe?” Ele ficou incomodadíssimo com a história, e foi atrás do superintendente Sr. W. Russel, foi para a Morro Velho. E daí a pouco voltou dizendo “o homem não tinha entendido, que não compreendia bem o português, que pedia desculpas e tal”. Respondi: “Está bem. Eu não estou aqui para brigar, não. Você já se desculpou, mas traz ele aqui, que eu tenho uma intimação para fazer”. Então veio, e ele assinou sete mil e quinhentos contos. Foi o que custou a ele a grosseria. E foi assim que começou a Cemig.

Bem, como governador, uma outra, também, grande corretagem que eu fiz foi com a Mannesman. E essa Mannesman foi feita, aí, com o dólar a dezoito cruzeiros, com isenção para importar esse material todo (…). Ela está aí, agora, já está fazendo o seu programa para produzir quinhentas mil toneladas – ela começou com uma produção de cem mil toneladas, e agora produz quinhentas mil. Mas os senhores viram que, aí, foi o meu trabalho de corretagem – como governador, eu podia citar inúmeros outros exemplos, mas esses três já mostram aos senhores.

Depois, como presidente, eu fiz uma viagem ao exterior – presidente eleito. Cheguei na Europa, na Alemanha, já tinha mandado um telegrama para o embaixador, pedindo a ele que reunisse, lá no hotel onde eu ia me hospedar, lá em Dusseldorf, todos os industriais que fosse possível. Cheguei lá e estava marcada uma reunião com uns trezentos industriais alemães. E eu levava todas as minhas metas e sabia quais aquelas que podiam ser realizadas pelos alemães. Porque, naquele tempo, meu amigo, não havia nenhuma poupança nacional, não havia mercado de capitais, não havia condições para você fazer mercado de capitais no Brasil. Então, você tinha que arranjar, ou empréstimos que o Brasil, naquela ocasião, atolado de dívidas, não tinha condições de ampliar, ou então, tinha que ficar esperando que Deus viesse nos ajudar, ou então, trazer de fora o dinheiro. Foi a decisão que eu tomei.

E, naquela época, com alguma dificuldade, porque havia um movimento político muito grande, havia um nacionalismo um pouco exacerbado, um nacionalismo incompreendido, porque diziam: “Não devemos trazer capital”. Como? O capital estrangeiro chega aqui, fixa, se fixa aqui, entendeu? E mais nunca sai: passa a ficar a serviço do Brasil. De modo que o seguinte: todo o capital que pudesse trazer… não havia nenhum perigo. Nessa reunião com os alemães – eram trezentos industriais, mais ou menos, eu disse: “Eu vou fazer o que preciso fazer: fábrica de automóvel, fábrica de navio, fábrica de cimento, fábrica de alumínio… e fui por aí citando. E aqui, eu sei de pelo menos dez industriais aqui da Alemanha que têm que se encarregar de realizar isso. Porque isso importa em centenas de milhões de dólares, e digo, o Brasil não tem esse dinheiro, mas os senhores vão pra lá e vão encontrar uma atmosfera propícia a esses investimentos”.

 Ao término, falei: “Agora eu quero ouvir francamente a opinião dos senhores”.  Disseram-me eles – um deles falou em nome de todos. Disse: “Nós não queremos mais trabalhar na América Latina, especialmente no Brasil. Porque os outros países são pequenos (…) mas o Brasil, que é um país grande, nos tem atraído, e nós vamos lá, vamos a um ministério, chegamos ao ministério, passamos uma semana pelejando para falar com o ministro. Chega lá, o ministro não entende coisa nenhuma, não tem nada organizado, nos manda para outro ministério e, no fim de um mês, nós já percorremos quatro ou cinco ministérios, e sem nenhum resultado do nosso esforço e do nosso trabalho. De modo que é necessário… nós desistirmos, tiramos isso da nossa preocupação. Hoje nós estamos aqui preocupados, aqui dentro. Estamos começando o Mercado Comum Europeu, vamos ter, aqui na Europa, mercado entre nós mesmos, estamos preocupados em fazer investimentos dentro da Europa mesmo”.

 Eu disse: “Não, então vamos fazer o seguinte: eu peço aos senhores que destaquem os dez que podem fazer estas indústrias (…) Os senhores estão convidados para ir ao Brasil” – isso foi no mês de janeiro de 56 –, “eu vou tomar posse daqui a vinte dias. Os senhores estão convidados para ir ao Brasil. O senhor irá no dia dez de fevereiro, o senhor no dia quinze de fevereiro, o senhor no dia trinta e tal. “Não, nós temos que estudar primeiro e tal…”. “Não (…) de modo que os senhores serão recebidos, os senhores não vão ter trabalho de espécie alguma, receberão a passagem no endereço que os senhores determinarem, e eu os espero no Brasil”. E tomei nota.

 Cada dia que chegava um ao Brasil, já estava lá um ajudante de ordens meu, para recebê-lo. Já saía dali – chegava às seis e meia, sete horas da manhã, já ia diretamente para o Palácio (…) “O presidente está esperando o senhor”. “A esta hora me esperando? Mas eu ainda não fiz a barba e não sei o quê”. “Não, está esperando”. O sujeito chegava lá, eu dizia: “O senhor vem tomar café comigo, não é? Vamos tomar um café porque estão aqui já os estudos todos do assunto que o senhor vai resolver. Às duas horas da tarde, o senhor vai ao Conselho Nacional de Desenvolvimento, que já estarão lá à sua espera, e amanhã o senhor vai almoçar comigo. Os senhores vão ver que já mudou aquele quadro que os senhores falaram comigo lá na Alemanha, de que não se encontra ninguém para discutir assuntos por aqui”. Bem, o fato era o seguinte: o sujeito ia para casa, descansava um pouco, às duas horas já estava aí a turma toda muito afiada…

 No dia seguinte, hora do almoço, já estava lá para almoçar comigo. Falei: “Como é que está?” Diziam: “Ah, agora mudou, realmente, inteiramente, nós estamos surpreendidos. Falei: “Pois bem, agora o senhor organize aí e estabeleça o seu plano”. “Está bom, mas isso eu tenho que ir à Alemanha primeiro”. Falei: “Ah, não, o senhor não sai daqui. O senhor tem telefone, o senhor tem telégrafo, o senhor tem tudo o que o senhor quiser para se entender lá com o seu país e, agora, o senhor é meu prisioneiro. Fique aqui no hotel, é meu hóspede; vou tratar o senhor muito bem, vem almoçar todo dia comigo, mas é meu prisioneiro, não sai daqui mais sem resolver esse assunto”. Olha, todos os dez ficaram com os assuntos resolvidos – imagina que importância de assuntos que era, a construção de automóveis Mercedes Benz, era aquela big fábrica da Krupp, lá em Sorocaba. Era tudo desse volume. Basta dizer que, só naqueles dias, eles tiveram que aplicar no Brasil trezentos milhões de dólares – é dinheiro toda vida. Pois bem, foi graças a essa corretagem, é que eu pude realizar e conquistar o dinheiro que, na ocasião, não existia no Brasil, e que eu consegui trazer para cá.

 Mas agora, à medida que o Brasil cresceu, as necessidades foram crescendo, e o atual ministro da Fazenda, que é realmente um economista que conhece bem o que está fazendo, e tem auxiliares muito bons, o Presidente do Banco Central, o Galveas, é também um elemento sério, um homem que estuda bem os problemas, o gerente do mercado de capitais, o (…) é outro rapaz muito moço, mas também de muito valor, conhece bem esses problemas, de modo que eles estão codificando bem esse mercado. E graças a isso, a coisa vai se desenvolvendo, e é só graças a isso que nós vamos ter, daqui em diante, o desenvolvimento do Brasil. E eu vou explicar por quê: porque nos Estados Unidos, todas as indústrias (lá, o governo não interveio de maneira nenhuma na formação de indústria; o governo americano, nem indústria de guerra, nem essa indústria de ir à lua, nada disso é feito pelo governo), tudo lá é iniciativa privada. Mas, aqui no Brasil, o governo teve que entrar muito no campo da realização de indústrias, pela falta de capitais particulares para fazer isso.

Então, eu mesmo me indagava muito: por que os Estados Unidos, tendo mais ou menos a mesma idade física que nós temos, a mesma idade histórica, sendo uma nação que, durante algum tempo, andou mais ou menos paralelamente conosco em população (o Brasil já esteve até à frente dos Estados Unidos); por que, subitamente, os Estados Unidos tomaram essa dianteira formidável, deixando o Brasil para trás, como está hoje, um século atrás dos Estados Unidos em desenvolvimento – e isso é comprovado por todas as estatísticas? Eu sempre chamei a atenção disso, desde que era presidente, porque é preciso que o brasileiro saiba disso, para ele despertar o seu brio e lutar contra essa diferença, esse fosso, que separa o desenvolvimento do Brasil e dos Estados Unidos. Mas os Estados Unidos – eu mesmo me perguntava, por que os Estados Unidos deram esse golpe formidável na nossa frente? E a razão era essa, não tenha dúvida: é que, em 1801, já estava montada nos Estados Unidos, em Nova York, a Bolsa de Valores.

 Essa Bolsa lançava já as ações para todas as grandes companhias que se formaram: a princípio, as companhias de carvão, seguidas das companhias de estradas de ferro. Em 1863, inaugurou-se, nos Estados Unidos, ligando Nova York a São Francisco, ou seja, de costa a costa, do Pacífico ao Atlântico, a primeira estrada de ferro. Nós, só em 1960, foi possível atravessar esse Brasil de norte a sul, durante o meu governo quando se inaugurou Brasília, que nós fizemos aquela grande, eu considero uma das maiores festas do Brasil – foi aquela de vir automóveis de Belém até Brasília, e outros de Porto Alegre até Brasília, pra se encontrarem no mesmo dia e na mesma hora. Pela primeira vez, se varou o Brasil de norte a sul e de leste a oeste. Um século depois.

 Mas foi graças a esse mercado de capitais, quer dizer, à captação da poupança particular. Porque hoje você vê: mesmo os empregados da gente, modestos, que têm pouco conhecimento ainda, já têm a preocupação de saber “como é que eu posso empregar essa economiazinha minha de quinhentos cruzeiros, mil cruzeiros, quer dizer, comprando letras de câmbio, fazendo um depósito fixo”. Isso tudo, vai somando, vai somando, isso vira bilhões. E com esses bilhões é que se fazem os lançamentos das novas indústrias para o Brasil.

 No ano passado, foram lançadas, na Bolsa, dezenas e dezenas de indústrias, e agora estão lá, no Banco Central. No ano passado, até o fim do ano passado, devia ter, mais ou menos, quatrocentos novos projetos de indústria para serem lançados. E esses projetos são todos hoje a captação que se faz e todas essas indústrias estão sendo feitas à custa da corretagem, das companhias de financiamento, das companhias de corretagem e, sobretudo, dos bancos de desenvolvimento”.

 *(Textos extraídos da Coletânea de 3 volumes da obra “Juscelino Kubitschek – Profeta do Desenvolvimento – Exemplos e Lições ao Brasil do Século XXI”, de autoria de Carlos Alberto Teixeira de Oliveira).

JUSCELINO KUBITSCHEK Profeta do Desenvolvimento:

em 3 volumes e 2.336 páginas

 Juscelino Kubitschek nasceu em Diamantina, em 12 de setembro de 1902. Da pequena cidade mineira saiu para se tornar deputado federal (1934-1937), prefeito de Belo Horizonte (1940-1945), governador de Minas Gerais (1950-1954) e presidente da República (1956-1961), com o slogan “Cinquenta Anos de Progresso em Cinco Anos de Governo”.

 Toda esta expressiva trajetória, que marcou o desenvolvimento econômico e social do Brasil, encontra-se relatada nas páginas de “Juscelino Kubitschek – Profeta do Desenvolvimento – Exemplos e Lições ao Brasil do Século XXI”, obra composta por três volumes que acaba de ser lançada pelo economista Carlos Alberto Teixeira de Oliveira, Presidente/Editor Geral de MercadoComum – Publicação Nacional de Economia, Finanças e Negócios e Presidente da ASSEMG – Associação dos Economistas de Minas Gerais e que agora já pode ser adquirida.

A obra está à venda e pode ser entregue em todo o país. Os valores são R$ 175,00 para entregas em Belo Horizonte e interior de Minas Gerais; e R$ 199,00, para outras capitais e municípios já considerando-se o frete incluso.

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 Material inédito

 Para a realização desta nova edição foram várias as colaborações recebidas ao longo de vários anos e, diversas delas, incorporadas, enriquecendo o resultado final. “Cada colaboração fluiu como num passe de mágica, trazendo sempre novos e fascinantes detalhes e informações, sobre a trajetória de JK, seu caráter de homem público, sua obsessão pelo Brasil e, principalmente, sua obra que marcou época na História do País e o alçou à condição de maior Presidente do Brasil em todos os tempos”, destaca o autor.

Neste novo estudo sobre o Presidente JK foram incorporados cerca de 400 discursos proferidos por ele, quase todos quando no exercício da Presidência da República – e, dos quais, 250 deles publicados na sua íntegra. “Muitos, ainda desconhecidos, podem ser considerados verdadeiras obras-primas sobre a política e a economia nacional. Desses discursos, também foram selecionados vários textos e frases, ora publicados nesta nova edição”, completa Teixeira de Oliveira.

 De acordo com o autor, quando se fala, comenta ou analisa o desenvolvimento, esta relevante expressão não poderá ser considerada, nem compreendida e muito menos imaginada, desconectada e separada de outras duas: o econômico e o social. Deve ser, ainda, compreendida em sua acepção mais ampla, nas abrangências e nas contextualizações da cultura, da política e do direito.

Pontos de vista heterogêneos e opiniões diversificadas, além de um grande número de fatos e episódios até então desconhecidos, transformam esta nova obra em uma das mais completas e fascinantes publicações já levadas a efeito no País sobre a vida política e a obra do ex-Presidente JK.

Um verdadeiro compêndio sobre as realizações e a trajetória política de Juscelino Kubitschek, o Presidente da República que, pela sua obstinação, pela sua extraordinária capacidade de planejar e executar, conseguiu fazer o País crescer 50 anos em cinco. “Mais do que uma obra biográfica, este livro busca resgatar o debate sobre o Desenvolvimento Nacional para que o Brasil possa se reconciliar com o crescimento econômico vigoroso, consistente, contínuo e sustentável”, finaliza o autor.

A coletânea de 3 livros sobre JK

Os livros foram editados por MercadoComum – Publicação Nacional de Economia, Finanças e Negócios que circula há 27 anos, sendo desenvolvida e escrita pelo economista    Carlos Alberto Teixeira de Oliveira, e têm apresentação dos renomados economistas Paulo Rabello de Castro e Luis Paulo Rosenberg.

Juscelino Kubitschek – Profeta do Desenvolvimento – Exemplos e Lições ao Brasil do Século XXI retrata, de forma inédita, um dos personagens mais importantes da política nacional brasileira, em uma obra que resgata de forma definitiva a trajetória histórica daquele que foi considerado um dos mais notórios nomes que presidiram o país.

São três volumes, que somam 2.336 páginas: Profeta do Desenvolvimento (Volume I); O Desenvolvimento em 1º Lugar – A Construção de uma Nação Próspera e Justa (Volume II); e Mensageiro da Esperança – Exemplos e Lições ao Brasil do Século XXI (Volume III). Sobre este trabalho, o autor e idealizador da publicação afirma: “Não se trata de uma obra biográfica, nem de um documento de natureza acadêmica, porque é muito mais do que simples relato e análise de sua vida”, explica o economista Carlos Alberto Teixeira de Oliveira.