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Pronunciamento realizado no Rio de Janeiro, em 6 de setembro de 1956 pelo Presidente Juscelino Kubitschek, aos estudantes concentrados no pátio do edifício do Ministério da Educação, em celebração do dia da independência do Brasil.

“Nas comemorações da Semana da Pátria, estes dois últimos dias, o de hoje e o de amanhã são os pontos altos e culminantes.

Hoje, com a mocidade estudantil, juventude que se prepara para as grandes obras culturais e científicas de utilidade geral, concentrada em hinos e cantos às portas do seu Ministério da Educação; amanhã, com a mocidade dos quartéis a marchar nas ruas, no garbo das suas atitudes de soldados e na firmeza de suas disposições de garantias armadas da unidade, da independência e da soberania da Pátria. Hoje, o dia da mocidade, da juventude, dos estudantes dos colégios, que a este local acorrem e que agora contemplo na paisagem artística deste original edifício de tão significativo valor arquitetônico e de tão evidente espírito brasileiro. E diante de vós, jovens estudantes, a constituírem esta Festa da Mocidade na véspera do Dia da Pátria, como numa cerimônia de antecipação e vigília, o que ocorre fixar em primeiro lugar, como significado de vossa presença, é que sois uma realidade nova num horizonte largo de esperanças e expectativas felizes; o futuro de um país, que não está murchando dentro do passado e que encontra em si mesmo, com a colaboração leal e pacífica de outros povos, as forças e os recursos suficientes para se transformar numa das nações mais ricas e mais poderosas do mundo, colocada na vanguarda da situação internacional. Contemplo-vos e falo-vos, meus jovens amigos e patrícios, com sentimentos de esperança quanto à mentalidade que representareis no futuro e com sentimentos de confiança no vosso trabalho, ação, capacidade e patriotismo.

Amanhã, num espetáculo de outra natureza, é também a mocidade brasileira que estará nas ruas por ocasião da tradicional, famosa e bela parada militar de Sete de Setembro. Muitos de vós, quando em serviço militar, estareis lá formados, nessa confraternização que tanto contribui para o entrelaçamento de civis e militares. E muitos daqueles que vereis amanhã a desfilar pela cidade, se apenas convocados para o serviço militar, e não especializados nos institutos militares ou consagrados à vida nos quartéis, serão em breve vossos companheiros na vida civil, sempre iguais em seus propósitos, pois não há, em nossa civilização, fronteiras ou separações entre o soldado e o cidadão, que ambos formam o patriota, o homem brasileiro, sempre disposto, quando bem formado e bem-intencionado, a colocar o interesse nacional e a riqueza da sua pátria acima de tudo. E à frente dos soldados, a comandá-los, vereis chefes militares e oficiais que devereis aprender a estimar e valorizar pelo que eles representaram outrora para a independência política do Brasil e, em todos os tempos, para a segurança coletiva e a estabilidade da nossa Pátria em suas fronteiras soberanas.

E, neste momento, vereis nas Forças Armadas, como estamos vendo, uma consciência vigilante e uma compreensão perfeita de que a independência política de um povo, sendo uma etapa de sua evolução, acabará por transformar-se em mera sombra e ridícula ficção, se não for completada com a emancipação econômica e a dignificação social desse mesmo povo.

Na verdade — e estas palavras desejo dirigir aos jovens ainda mais como advertência do que como lição — o direito da liberdade individual é um bem sagrado e a democracia política é um conceito de valor insubstituível, mas não vos esqueçais de que tanto a liberdade individual como a democracia política só podem subsistir nos dias de hoje — e queremos que subsistam e se fortaleçam — desde que tenhamos a coragem e a decisão de a uma e a outra ajuntar a grandeza nova, mas já consagrada, de um programa social.

Por outro lado, um programa social, para beneficiar ao mesmo tempo a nossa gente e a nossa terra, deve concentrar-se na obra de libertação econômica e financeira do Brasil, com o aproveitamento e a utilização das nossas riquezas de solo e subsolo. E por isso é que me empenhei no meu programa de candidato à presidência da República, e por isso é que me empenho hoje, como chefe do governo e chefe do Estado, na causa da libertação econômica e social do Brasil, tanto dentro das nossas fronteiras como no ambiente internacional. Sinto-me cada vez mais fortalecido neste propósito e neste ideal, pela solidariedade e colaboração de todos os meus auxiliares como do povo brasileiro. E esta é a tarefa, a causa, a campanha nacional da nossa geração e do nosso século. Ao século XVIII, coube a afirmação do espírito de autonomia local; o século XIX, a realização e consumação da independência política; a nós, homens deste governo e neste século XX, tocou-nos o destino privilegiado, se soubermos ser dignos dele, de conquistarmos para o Brasil a emancipação econômica como etapa final do movimento da independência que se iniciou — e com que emoção o relembro — nas terras de Minas Gerais e se exprimiu, depois, vitoriosamente no episódio de 7 de setembro de 1822. Espero ficar à altura desse destino. Espero e estou certo de que todos — e sobretudo a juventude — ficarão igualmente à altura desse destino nacionalista e patriótico.

Temos a convicção de que só por intermédio de uma política de interesse nacional poderemos tornar o nosso povo mais feliz e os nossos homens mais livres, tanto social como economicamente. Mas o puro e nobre e inteligente nacionalismo não se confunde com xenofobia. Da mesma maneira que a independência política de uma nação não significa isolamento dentro das próprias fronteiras ou hostilidade aos demais povos — assim também o nacionalismo não significa animosidade contra os estrangeiros, nem a recusa aos intercâmbios econômicos ou relações financeiras com os países mais ricos em dinheiro ou mais favorecidos em valores econômicos.

Desejamos, ao contrário, a colaboração de todos os povos, principalmente os do nosso hemisfério; acolhemos e estimulamos sempre a entrada de capitais estrangeiros em nossa pátria. Todos os estrangeiros que vierem para cá sem propósitos de subordinação ou inferiorização do nosso povo, todos os estrangeiros que vierem colaborar conosco e valorizar a nossa terra em harmonia com a sua — estes serão bem-vindos e bem recebidos, sem reservas ou agressividade, antes com afeto e cordialidade. Não somos isolacionistas, não somos xenófobos, não somos prisioneiros de nenhuma atitude mesquinha de inveja e de nenhum sentimento estreito de temor ou rancor ante os outros povos, ante qualquer outro povo. Mas somos, isto sim, defensores dos interesses do Brasil, numa orientação patriótica que está bem de acordo, aliás, com o espírito e as tendências da nossa época.

E pergunto nesta altura: só da nossa época? Lembro-me, a propósito, dos pródromos da nossa Independência. Debruço-me na História para evocar e rever o movimento idealista da Inconfidência Mineira. É um privilégio para mim — sendo um presidente da República e um homem de Minas Gerais, e sendo vós estudantes — poder evocar hoje aquelas figuras de universitários, em sua maioria mineiros, que sonhavam na Europa, cursando escolas francesas, com a independência do Brasil, como autênticos e juvenis precursores, bem antes do desfecho de 1822, e antes mesmo da Inconfidência em Vila Rica.

Todos tinham os olhos voltados para a recente e já tão vigorosa e próspera república norte-americana. Por isso, um desses admiráveis estudantes brasileiros decidiu-se, certa vez, a procurar Thomas Jefferson, então todo-poderoso embaixador dos Estados Unidos da América na França, a fim de pedir o apoio e o auxílio dos norte-americanos para a nossa independência. Estava Jefferson em condições de falar em nome de sua pátria, pois era um dos construtores da estrutura política e jurídica dos Estados Unidos da América, como doutrinário e líder de um dos seus grandes partidos. Pareceu evasiva a sua resposta, mas na verdade foi uma palavra prudente, justa e realista aquela que o embaixador norte-americano dirigiu ao nosso jovem estudante: — “Os Estados Unidos da América não podem nem devem intervir em assuntos internos e particulares do Brasil. Mas, se os brasileiros empreenderem um movimento pela independência de sua pátria, contarão com a simpatia dos Estados Unidos da América e, se realizarem a sua independência, contarão com o nosso apoio e a nossa colaboração”.

E assim aconteceu. Fizemos por nós mesmos a nossa independência política, e contamos em seguida com a compreensão dos outros povos do ocidente, principalmente dos Estados Unidos da América e da Inglaterra. Agora, o que desejamos e queremos é ampliar, aprofundar e engrandecer o movimento daquela heroica e histórica Independência que estamos comemorando. Por certo, a palavra de Jefferson continua viva e presente na política atual dos Estados Unidos da América. É do interesse do nosso continente e da civilização ocidental que se processem o progresso e a emancipação de todos os povos americanos — garantias em cada país daquela paz e daquela ordem tão necessárias à defesa do nosso hemisfério e à segurança das democracias ocidentais, em cuja vanguarda se encontram os governos e os povos do nosso continente, todos unidos num sistema de compreensão e de colaboração. Na verdade, esse é o conteúdo do pan-americanismo, conforme ficou demonstrado ainda recentemente, na Conferência do Panamá, quando todos os povos americanos participaram mais uma vez de uma magnífica confraternização continental, partindo do princípio da igualdade e da soberania de todos os nossos países.

E, entre nós, ainda e muito oportunamente, lembro-vos o exemplo de José Bonifácio de Andrade e Silva, conselheiro do príncipe Dom Pedro e patriarca da nossa Independência: o seu nacionalismo não se chocava com o universalismo de sua cultura de homem formado e vivido na Europa; o seu patriotismo parecia até encontrar seiva e força em sua capacidade de comunicar-se com o estrangeiro e aceitar, e até procurar, a comunicação com outros povos. Exemplo do Império, que se completa, na República, com o do Barão do Rio Branco, patriota flamante e nacionalista intransigente, estabilizador do mapa geográfico do Brasil, sempre voltado e sempre a defender a soberania brasileira, tanto nas fronteiras físicas como nas questões políticas ou econômicas, sendo ao mesmo tempo um chanceler que estabeleceu, como nunca, laços de fraternidade, compreensão, intercâmbio e comércio entre o Brasil e os outros povos.

E se vos lembrei e evoquei esses exemplos históricos — estudantes realizadores e componentes desta Festa da Mocidade — é que sei quanto sois sensíveis ao fascínio e às sugestões da História — hoje, como ontem, a grande “mestra da vida”, na clássica definição de Cícero. Atentai bem: o que ela nos ensina em nossos dias é que as nações só valem e só contam pela sua soberania, e soberania não apenas como fórmula jurídica, mas como realidade política, econômica e social.

Quanto a mim, meus jovens patrícios, foi isto principalmente o que jurei defender: a independência, a soberania, os interesses nacionais do Brasil. E a essa causa estou dedicado inteiramente, esquecido de mim mesmo e de tudo que haja em mim de pessoal.

Neste dia consagrado à comemoração da Pátria numa Festa da Mocidade — é com emoção que vos recordo este voto que fiz de dedicar-me à grandeza do meu país e doar a minha pessoa ao serviço do meu povo. É que julgo o nosso povo, principalmente a mocidade, capaz de compreender o significado desse voto patriótico, porque o idealismo é o seu estado de espírito, e o amor ao Brasil é a tônica dos seus sentimentos altos, nobres e generosos”.

*(Texto extraído da Coletânea de 3 volumes da obra “Juscelino Kubitschek – Profeta do Desenvolvimento – Exemplos e Lições ao Brasil do Século XXI”, de autoria de Carlos Alberto Teixeira de Oliveira).

JUSCELINO KUBITSCHEK Profeta do Desenvolvimento:em 3 volumes e 2.336 páginas

 Juscelino Kubitschek nasceu em Diamantina, em 12 de setembro de 1902. Da pequena cidade mineira saiu para se tornar deputado federal (1934-1937), prefeito de Belo Horizonte (1940-1945), governador de Minas Gerais (1950-1954) e presidente da República (1956-1961), com o slogan “Cinquenta Anos de Progresso em Cinco Anos de Governo”.

 Toda esta expressiva trajetória, que marcou o desenvolvimento econômico e social do Brasil, encontra-se relatada nas páginas de “Juscelino Kubitschek – Profeta do Desenvolvimento – Exemplos e Lições ao Brasil do Século XXI”, obra composta por três volumes que acaba de ser lançada pelo economista Carlos Alberto Teixeira de Oliveira, Presidente/Editor Geral de MercadoComum – Publicação Nacional de Economia, Finanças e Negócios e Presidente da ASSEMG – Associação dos Economistas de Minas Gerais e que agora já pode ser adquirida.

A obra está à venda e pode ser entregue em todo o país. Os valores são R$ 175,00 para entregas em Belo Horizonte e interior de Minas Gerais; e R$ 199,00, para outras capitais e municípios já considerando-se o frete incluso.

 Há desconto de 10% para compras de mais de um conjunto, aceitando-se todos os cartões de crédito. A aquisição pode ser feita diretamente na sede de MercadoComum em Belo Horizonte (Rua Padre Odorico, 128 – Sobreloja – Bairro São Pedro), pelo telefone (31) 3281-6474 ou revistamc@uol.com.br.

Os pagamentos devem ser feitos diretamente à conta:
MercadoComum – Comunicação e Public. Ltda.  –  CNPJ: 10.712.481/0001-11
Conta: 
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O comprovante de pagamento deve ser enviado para revistamc@uol.com.br, juntamente como os seus dados para o encaminhamento dos livros via postal.

Material inédito

 Para a realização desta nova edição foram várias as colaborações recebidas ao longo de vários anos e, diversas delas, incorporadas, enriquecendo o resultado final. “Cada colaboração fluiu como num passe de mágica, trazendo sempre novos e fascinantes detalhes e informações, sobre a trajetória de JK, seu caráter de homem público, sua obsessão pelo Brasil e, principalmente, sua obra que marcou época na História do País e o alçou à condição de maior Presidente do Brasil em todos os tempos”, destaca o autor.

Neste novo estudo sobre o Presidente JK foram incorporados cerca de 400 discursos proferidos por ele, quase todos quando no exercício da Presidência da República – e, dos quais, 250 deles publicados na sua íntegra. “Muitos, ainda desconhecidos, podem ser considerados verdadeiras obras-primas sobre a política e a economia nacional. Desses discursos, também foram selecionados vários textos e frases, ora publicados nesta nova edição”, completa Teixeira de Oliveira.

 De acordo com o autor, quando se fala, comenta ou analisa o desenvolvimento, esta relevante expressão não poderá ser considerada, nem compreendida e muito menos imaginada, desconectada e separada de outras duas: o econômico e o social. Deve ser, ainda, compreendida em sua acepção mais ampla, nas abrangências e nas contextualizações da cultura, da política e do direito.

Pontos de vista heterogêneos e opiniões diversificadas, além de um grande número de fatos e episódios até então desconhecidos, transformam esta nova obra em uma das mais completas e fascinantes publicações já levadas a efeito no País sobre a vida política e a obra do ex-Presidente JK.

Um verdadeiro compêndio sobre as realizações e a trajetória política de Juscelino Kubitschek, o Presidente da República que, pela sua obstinação, pela sua extraordinária capacidade de planejar e executar, conseguiu fazer o País crescer 50 anos em cinco. “Mais do que uma obra biográfica, este livro busca resgatar o debate sobre o Desenvolvimento Nacional para que o Brasil possa se reconciliar com o crescimento econômico vigoroso, consistente, contínuo e sustentável”, finaliza o autor.

A coletânea de 3 livros sobre JK

Os livros foram editados por MercadoComum – Publicação Nacional de Economia, Finanças e Negócios que circula há 27 anos, sendo desenvolvida e escrita pelo economista    Carlos Alberto Teixeira de Oliveira, e têm apresentação dos renomados economistas Paulo Rabello de Castro e Luis Paulo Rosenberg.

Juscelino Kubitschek – Profeta do Desenvolvimento – Exemplos e Lições ao Brasil do Século XXIretrata, de forma inédita, um dos personagens mais importantes da política nacional brasileira, em uma obra que resgata de forma definitiva a trajetória histórica daquele que foi considerado um dos mais notórios nomes que presidiram o país.

São três volumes, que somam 2.336 páginas: Profeta do Desenvolvimento (Volume I); O Desenvolvimento em 1º Lugar – A Construção de uma Nação Próspera e Justa (Volume II); e Mensageiro da Esperança – Exemplos e Lições ao Brasil do Século XXI (Volume III). Sobre este trabalho, o autor e idealizador da publicação afirma: “Não se trata de uma obra biográfica, nem de um documento de natureza acadêmica, porque é muito mais do que simples relato e análise de sua vida”, explica o economista Carlos Alberto Teixeira de Oliveira.