*

Jayme Vita Roso (vitaroso@vitaroso.com.br)

Somos protagonistas involuntários de um drama que nós não teríamos querido interpretar

(Blog Academia Alfonsiana [disponível em: https://www.alfonsiana.org/blog/])

Quando e por que os pobres são lembrados?

Dentro das pesquisas e leituras que os momentos de reclusão/hibernação que estou vivendo, as publicações com que me debruço vem oferecendo tantas interpretações sobre causas e consequências do isolamento, com as flagrantes repercussões sociais do lockdown, que sou obrigado, por dever de probidade intelectual, a não me deixar levar por quaisquer fakenews.

Dentre as pesquisas, embora sempre com espírito crítico e seletivo, a revista Science tem merecido atenção, porque oferece no campo científico diversas opções de escolhas do que me é acessível culturalmente.

Pois muito bem, do Editorial da Science (Science, vol. 368, nº 6488, de 17 de abril de 2020), tomei, apropriando-me de seu excelente conteúdo, para intitular esse escrito. E o fiz porque a qualidade dos três autores do texto – qualidade sim, “propriedade moral ou espiritual, que caracteriza uma pessoa e permite de lhe fazer um juízo” (primeira metade do séc. XII construiu este conceito [Vocábulo “quale”, em Dicionário Etimológico da Língua Italiana. Bologna: Zanichelli, 2008]). – me permite acolher o texto, em língua inglesa, de Joachim Von Bran, Stefano Zamagi e Marcelo Sánchez Sorondo (Joachim Von Bran é presidente da Academia Pontifica de Ciências, na Cidade do Vaticano e é professor de Economia e Mudanças Tecnológicas na Universidade de Bonn Center, em Bonn, Alemanha; Stefano Zamagni é presidente da Academia Pontifica de Ciências Sociais, na Cidade do Vaticano e é professor de Economia na John Hopkins University School of International Studies, em Bolonha, Itália; Marcelo Sánchez Sorondo é Bispo Chanceler na Academia Pontifica de Ciências e Ciências Sociais, na Cidade do Vaticano)

Com o notável saber dos três cientistas, eis como sintetizo seu pensamento sobre o pobre, a pobreza, as desigualdades que assolam, cruelmente, as populações. Portanto, opto pelo texto, procurando dar sequência ao raciocínio:

3.1.1. “A doença causada pela pandemia de coronavírus (COVID-19) trouxe à luz as desigualdades que colocou a pessoas pobres – tanto em nações menos abastadas como em países ricos – sob o grande risco do sofrimento. Papa Francisco, recentemente, apontou para isto em uma entrevista: ‘este é o momento de olharmos os pobres’”.

3.1.2. “Ainda, onde o distanciamento social é bem factível para pessoas ricas, os pobres que se amontoam em favelas, ou mesmo campos de refugiados, não têm esta opção, faltando-lhes inclusive máscaras faciais e equipamento de higiene básica. Para adereçarmos o risco, cidades populosas em países em desenvolvimento, nós devemos apoiar prevenção por teste, provendo acesso à equipamentos de proteção, e iniciando um grande esforço em construir hospitais de campanha para isolar pessoas infectadas.”

3.1.3. “A desigualdade na distribuição de tecnologias e recursos online significa que informações cruciais sobre a COVID-19, especialmente avisos sobre os primeiros estágios da doença e recomendações de higienes diárias, podem não estar sendo recebidas por grande parte das comunidades de baixa renda.

Sem acesso à informação responsável e transparente, uma cacofonia de suposições pode tomar conta e se espalhar por estas comunidades.”

3.1.4. “A COVID-19 está afetando economias nacionais e está destruindo os pequenos comércios. As consequências devastadoras ao comércio de alimentos, afeta as camadas mais pobres, que gasta a maior parte de sua renda em comida. Isto está aumento a fome e exacerbando o tratamento de saúde pública na pandemia.”

3.1.5. “COVID-19 também expôs a fragilidade da interconexão global. A interação global em larga escala abriu o mundo à fruição transfronteiriças de bens e serviços, dinheiro, ideias e pessoas, permitindo que muitos saíssem da situação de pobreza. Contudo, refrear a rápida expansão dos problemas respiratórios da síndrome-coronavírus (SARS-CoV-2) requer fechar essas fronteiras em pontos de contágio. Esses fechamentos devem ser temporários e não devem afetar a cooperação entre as nações durante a pandemia.”

3.1.6. “Agora é a hora para o mundo desenvolvido comprometer-se em melhorar esta situação. Se a descrença na capacidade da ciência continuar a crescer, o interesse das nações ricas vai se tornar mais limitado e, consequentemente, aumentará o fardo das doenças aos mais pobres.”

3.1.7. “Uma precisa depuração das visões de mundo, estilos de vida, e de problemas econômicos de curto-paro, deve ser feita. Uma mais responsável, mais compartilhada, mais inclusiva, mais justa sociedade é imprescindível se queremos sobreviver na Antropoceno.”

II

O dia da Comunicação da Terra: 50 anos

 “Otávio responde, triste! ‘Meu tio um dia me disse que a precaução excessiva pode ser tão fatal quanto a imprudência’

(John Williams, Augustus, p. 31. Editora Radio Londres, R.S., 2019.)

E não é que a Terra também se comemora (e ela agradece), mormente quando se promovem legislações como se promulgaram nos Estados Unidos: Clean Air Act, Clean Water Act.

E, em sequência ao Editorial, na mesma edição da Science, James Morton Turner e Andrew C. Isenberg (James Morton Turner é professor associado de estudos de meio-ambiente em Wellesley College, em Wellesley, Massachusetts, EUA; Andrew C. Isenberg é professor de História Americana na Universidade de Kansas, em Lawrence, Kansas, EUA), publicaram o artigo de fundo Earth Day at 50, do qual destaco:

“A primavera de 2020 será lembrada pelo coronavírus. Mas, neste mesmo momento, é importante lembrar que, há 50 anos, os Estados Unidos enfrentada uma crise. Naquele mês de abril, milhões de americanos participavam do Earth Day.”

“Essas leis elevaram a ciência acima da economia ou das políticas de interesse-especiais em informar o público. Elas especificaram o papel da ciência em avaliar impactos ambientais, determinar poluição atmosférica e decidir quando uma espécie precisa de proteção. O cientista político, Roger Pielke, denominou isto de “tornado político”, pois como as pessoas observam os avisos dos meteorologistas para saber se devem ou não se abrigar, americanos observam a ciência para saber sobre políticas de proteção à saúde e ao meio-ambiente.”

“O Clean Water Act é responsável por declínios substanciais em substâncias que contaminam a água. Cientistas estimam que o Endangered Species Act tenha prevenido a extinção de 291 espécies e ajudado 39 espécies a se recuperarem.”

“Que valores são estes? No meio-ambiente, os conservadores têm, consistentemente, apontado três temas: a crença na excepcionalidade Americana; uma inabalável crença no mercado e na abundância de recursos naturais; na descrença na ciência. Quando o Estados Unidos saiu do Acordo de Paris, em junho de 2017, Trump e seu Administrador da Agência de Proteção Ambiental (Enviromental Protection Agency Administrator), Scott Pruitt, enfatizaram que as demandas do acordo não eram justas ao Estados Unidos e que eles deveriam ter fé na habilidade Americana de resolver os desafios climáticos sem a intervenção do governo. Nenhum deles comentou sobre ciência climática.”

“O que a pandemia de coronavírus mostra, hoje, é o grave custo no atraso e na inação em face dos avisos das urgências científicas. Em janeiro de 1970, Richard Nixon explicou que era “agora ou nunca” para o meio-ambiente. Aquele aviso nunca foi mais verdadeiro que hoje em dia. Encontrar desafios como o do coronavírus e o da mudança climática requer ações políticas que coadunem com as práticas científicas, baseadas no rigor de 1970.”

Eureka! Descobriram a América, quando os autores cruzarem a mudança climática, quase inexorável, com a pandemia do Coronavírus.

É verdade, porque a ciência tem sido apartada por segmentos importantes da classe política e de seus construtivos debates para se configurar um grotesco debate ideológico.

Não é novidade que o sistema capitalista tem acumulado erros catastróficos, equilibrando o fanatismo do livre-mercado sobre as urgentes demandas da ciência e o lucro das grandes empresas multinacionais acima da mínima qualidade de vida requisitada pelas camadas mais pobres. Todavia, se ele for controlado, com eficácia e com eficiência, sem burocracia e regulamentação tecnocrática, como bem sustentou o professor Spencer Weber Weller, em seu alentado ensaio Antitrust and Democracy (Harry First; Spencer Weber Waller. Antitrust’s Democracy Deficit, 81 Fordham L. Rev. 2543, 2013), precedido de notável epígrafe:

Nossa solução dos problemas antimonopólio deve ser em termos de nossos ideais – os ideais da democracia política e econômica. Não queremos nenhuma ditadura econômica ou política imposta a nós, nem pelos governos nem pelas grandes empresas. Não queremos um sistema de regulamentação detalhada de preços pelo governo nem fixação de preços por interesse privado. Não queremos burocracia ou regimento de nenhum tipo, mas preferimos burocracia e regimento governamental a privada, se tivermos que fazer essa escolha. Não podemos permitir que empresas privadas sejam governos privados. Devemos manter nosso sistema econômico sob o controle das pessoas que vivem por ele e sob ele (Robert H. Jackson. Should the Antitrust Laws be Revised?, 71 U.S. L. REV. 575, 582, 1937.)

E como foi bem recordado este texto octogenário.

(Os artigos e comentários não representam, necessariamente, a opinião desta publicação; a responsabilidade é do autor da mensagem)


Esse artigo não reflete necessariamente a opinião de MercadoComum