1 – A DEFESA DA UNIDADE DA PÁTRIA

Texto extraído do discurso proferido pelo Presidente Juscelino Kubistchek durante o almoço oferecido pelas Forças Armadas ao Presidente Giovanni Gronchi, no Palácio da Guerra – no Rio de Janeiro – DF, 7 de setembro de 1958:

“As Forças Armadas do Brasil tiveram sempre um sentido e um significado que contribuíram, de maneira decisiva, para a paz, a tranquilidade e o amadurecimento da Nação brasileira. Às Forças Armadas do meu país coube, desde o início da formação da nossa nacionalidade, a alta missão de defender a unidade de nossa Pátria, mantendo unido e coeso este imenso território que tem as características de um verdadeiro continente.

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Por toda a parte desta Nação que Vossa Excelência visitar irá encontrar o mesmo pensamento, a mesma linha, a mesma civilização, a mesma religião e uma cultura que, amadurecidos, através desses anos de experiência, nos dão hoje a certeza de que o Brasil já conquistou, no conceito das nações do mundo, a posição a que tinha direito, pelo trabalho e pelo esforço dos seus filhos. Mas, além desse trabalho de preservação da unidade nacional, as Forças Armadas do meu país foram artífices da conquista da própria terra.

As nossas fronteiras, quase desconhecidas, pela posição em que se encontravam, situadas em verdadeiros desertos ignotos; essas fronteiras foram demarcadas, conservadas e vigiadas pelo patriotismo e pela cultura das nossas Forças Armadas.

Foram elas também que conseguiram dominar todos os nossos rios, penetrando do estuário à nascente, fazendo com que todas as regiões ainda virgens e misteriosas do país fossem reveladas ao conhecimento dos brasileiros. E, mais recentemente ainda, quando a aviação passou a dominar os ares do mundo, foram as Forças Aéreas do meu país que conseguiram revelar à própria nação regiões imensas e abandonadas, cujo mistério enchia as nossas imaginações de todas as fantasias, pelo desconhecimento que tínhamos da própria natureza e do solo do Brasil. De modo que Vossa Excelência está diante de três forças — o Exército, a Marinha e a Aeronáutica — que tiveram, realmente, na formação da unidade do Brasil, na constituição da cultura do país, no descobrimento e no desbravamento de todos os desertos deste imenso continente, uma ação decisiva e patriótica.

Mas não apenas nesse setor nós, como povos da América Latina, procurando sempre buscar nas fontes mais puras da cultura latina, que é o país de Vossa Excelência, a Itália, as lições e os ensinamentos para modelarmos a nossa cultura política, conseguimos dar a esta nação uma democracia, que é realmente hoje uma expressão da liberdade das aspirações populares.

Temos, através da vida já bissecular, civicamente vivida pelo Brasil, uma história que ilustra admiravelmente o civismo das suas Forças Armadas. Ao contrário de tantas outras regiões do mundo, nunca sofreu o Brasil uma ditadura militar, apesar da força e do prestígio dos componentes das suas forças militares.

Isso demonstra o espirito, o amor à liberdade que têm as Forças Armadas do Brasil, e desse amor elas têm dado constante exemplo, lutando e batalhando em qualquer região do mundo de onde parta um apelo para que se mantenha a independência e a liberdade dos povos.

No país de Vossa Excelência, debaixo do maravilhoso céu da Toscana, temos nós centenas de mortos, brasileiros que foram à Europa se bater pela liberdade do homem, nisto seguindo o exemplo admirável de inúmeros homens de seu país, à frente dos quais Vossa Excelência, que, durante tantos anos, afrontando perigos e arriscando a própria vida, nunca se intimidaram diante da batalha e da luta pela manutenção da liberdade e da democracia. Esse sentimento, Senhor Presidente, é o inspirador do papel admirável das Forças Armadas do meu país. E é isso que, neste instante, elas vêm, por intermédio do seu Comandante-Geral, dizer a Vossa Excelência que a sua personalidade, tão conhecida em nosso meio, é mais louvada e mais admirada exatamente pelo que constitui de exemplo na defesa desses princípios básicos, sem os quais as nações jamais amadurecem”