Fernando Soares Rodrigues*

Remuneração nominal em queda

Aumentou no final do primeiro semestre de 2020, a insatisfação dos investidores com a rentabilidade nominal cada vez menor das cadernetas de poupança e demais ativos de renda fixa, entre os quais os fundos de investimentos financeiros, Certificados de Depósitos Bancários {CDBs} e títulos públicos do Tesouro Direto.

E cresce também o risco da busca por aplicações em outros ativos hipoteticamente mais rentáveis como as ações, fundos de ações, multimercados e cambiais, dólar em espécie e ouro negociado como ativo financeiro, além das moedas virtuais.

É crescente igualmente o risco da pessoa física tomar prejuízos com todo tipo de pirâmide financeira e aplicações criativas, inclusive de instituições financeiras, que prometem rentabilidade bem maior do que as dos ativos convencionais.

A insatisfação dos investidores ficou maior desde o dia 17 de junho passado, quando o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu 0,75 ponto percentual na taxa Selic (os juros básicos da economia) de 3% ao ano para 2,25% ao ano, e ainda sinalizou que novos cortes podem ocorrer até o final do ano.

A Selic baliza imediatamente a remuneração dos principais ativos de renda fixa tendo-se em vista que os Certificados de Depósitos Interfinanceiros (CDIs) acompanham o seu percentual. E os bancos reduzem os juros dos empréstimos numa iniciativa de marketing. Mas, na realidade, os bancos brasileiros continuam praticando os juros mais elevados do mundo, principalmente agora, em tempos de pandemia, em que a inadimplência cresce obrigando-os ao aumentar as reservas para cobrir perdas potenciais.

Muitos se esquecem de que a Selic caiu, mas que estamos diante de previsão de inflação de 1,60% para este ano. Em maio passado, os sinais da queda generalizada dos preços foram claros. O IPCA (índice oficial de inflação) terminou maio com deflação de 0,38% e a inflação anualizada recuou para 1,88%.

Com os juros básicos da economia no menor patamar histórico, o juro real (taxa Selic menos projeção da inflação para os próximos doze meses), aproximou-se de zero por cento.

Poupança é atrativa

O reflexo imediato se fez sentir na rentabilidade da caderneta de poupança nova (desde 2012) que recuou para 0,13% ao mês ou 1,58% ao ano. Os depósitos nas cadernetas antigas (antes de 2012) continuam rendendo 0,5% ao mês ou 6,17% ao ano, a melhor rentabilidade sem risco do mercado.

Nove entre dez analistas financeiros e jornalistas de economia defendem a diversificação na aplicação dos recursos. Ou a troca do dinheiro aplicado na poupança por títulos do Tesouro Direto, fundos de investimentos financeiros e outras opções. Só não enfatizam que os fundos de investimentos financeiros podem até não render nada ou dar prejuízo se o gestor cobrar taxa de administração da ordem de 1% ao ano,  que os títulos públicos sofrem variações diárias, e os CDBs só são competitivos com as cadernetas se pagarem 85% da taxa dos CDIs.  Além disso, essas aplicações estão sujeitas a pesadas alíquotas de Imposto de Renda nas aplicações por prazos inferiores a dois anos.

Nos fundos multimercados e cambiais é possível vencer a inflação mensal e a rentabilidade das cadernetas, mas sempre correndo risco de perdas. O grama do ouro negociado como ativo financeiro na BM&F/Bovespa, atual B3, acumulava valorização anual de 41% até o último dia 17 de junho, ao fechar cotado a R$ 291,31. Sobre esta rentabilidade incidem taxa de custódia e IR. O grama do ouro acompanha as oscilações do dólar e o preço o metal em Nova York. Depois de altas e baixas frente ao real, o dólar acumulou alta de 36% ao final de maio passado.

Para controlar as oscilações do dólar, o Banco Central (BC) queimou parte das reservas cambiais brasileiras que fecharam em US$ 334 bilhões ao final de maio passado frente a US$ 378 bilhões ao final do primeiro semestre do ano passado.

A situação cambial do Brasil está, no entanto, relativamente tranquila diante do comportamento das economias nacional e internacional e dos embates do Executivo com os outros poderes e setores da sociedade e da mídia. O boletim Focus do úlltimo dia 15 de junho apontava a previsão do alcance de superávit comercial de US$ 52,5 bilhões e o ingresso de investimentos externos diretos de US$ 60 bilhões neste ano, mais que suficientes para cobrir o déficit de US$ 13,5 bilhões nas contas correntes ou todo o movimento financeiro do País com o exterior no mesmo período. A mesma pesquisa do BC junto às principais instituições financeiras aponta que o dólar comercial pode terminar o ano no patamar de R$ 5,20,

Economia versus bolsa

O fraco desempenho da economia diante da pandemia do vírus chinês reduz as importações do País e pressiona menos a balança comercial. O mesmo boletim Focus prevê uma retração do Produto Interno Bruto (PIB) de 6,5% neste ano. Esta previsão de recuo do PIB diante da paralisação da economia pode subir porque ainda é impossível prever-se o tombo da produção e serviços. Existem bancos e analistas que preveem queda muito maior do PIB neste ano, da ordem de 9% a 10% ou mais.

Nas contas internas, o pior vai se configurando. O ministro Paulo Guedes, da Economia, admitiu crescimento de R$ 1 trilhão ou de cerca de 25% na dívida mobiliária interna com os auxílios emergenciais e demais gastos com a pandemia.

Já o secretário demissionário do Tesouro, Mansueto Almeida afirmou que será preciso um tempo longo para continuar acertando as contas internas – até o final deste governo e mais uma gestão. Muitos acham que ele é otimista. Vai ser preciso um tempo maior para equilibrar as contas do País – receita menos despesas e com déficit em queda.

Este cenário de retração econômica associado ao percentual baixo de investimentos em relação ao PIB – da ordem de 15%- não são favoráveis ao desempenho das empresas e das companhias, as que tem ações em bolsa de valores. Pode-se ganhar ou perder dinheiro com ações diante das grandes oscilações do Ibovespa, mas no médio e longo prazo é difícil visualizar-se a valorização do mercado. Muitos corretores apostam na alta da B3, que poderia atingir os 120 mil pontos. Mas, trata-se mais de um desejo do que uma estimativa confiável.

*Jornalista especializado em economia e mercado financeiro

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