David Travesso Neto*

Sem entrar na questão política ou julgamento sobre as ações de governo, sem dúvida absolutamente necessárias, penso que é consenso na sociedade que esse governo não será protagonista da recuperação da economia.

Apesar do ditado de que na crise há sempre muitas oportunidades, poucos poderão aproveita-las e a absoluta maioria passará por dificuldades e sofrimento pessoal, profissional e empresarial.

Mas, ao invés de olharmos para a crise, podemos contribuir pensando nos possíveis caminhos de recuperação e superação. Como o que assistimos nunca foi visto, deveremos descobrir novas e inéditas formas de reconstrução da sociedade e das empresas.

Apesar de todas as incertezas, penso estar claro que soluções isoladas e individuais serão pouco efetivas, mas tampouco as soluções que tratam todos da mesma forma funcionarão, e poderão fazer com  que  a  construção  da  ―nova  realidade‖  demore  muito  além  do  necessário  para  obtermos  o ambiente econômico e social que precisamos.

Precisaremos de novo modelo mental e social que permita o engajamento dos indivíduos e das organizações em ações de compartilhamento de inteligência, competências, recursos, esforços, que obrigue compromissos coletivos e que possibilite a recuperação dos mais frágeis.

Um modelo copiado da evolução do homem seria adotarmos o conceito de ―Tribos Setoriais‖. Em palavras  de  Yuval  Hahari,  ―It  takes  a  tribe  to  raise  a  human‖.  Em  definição  livre,  ―tribo  é  um conjunto de pessoas que ocupam um território (geográfico ou temporal) definido, dirigidos por líderes de força e confiança dos membros e que asseguram condições de sobrevivência para garantir a perpetuação do grupo‖.

Nessa tese, um bom caminho para superar a crise passa por soluções que considerem a manutenção de todos os elos importantes de uma determinada cadeia de valor para preservar a sobrevivência dos seus membros e criar condições de retomada com aqueles que são essenciais para cada grupo de empresas/organizações.

Obviamente, como cada segmento tem suas próprias características, não há uma solução única, mas entendemos que o conceito é comum a todos os setores da economia, e nesse caso, a existência de uma  organização  forte  no  grupo  ajudará  a  reorganização,  uma  vez  que  a  escolha  do  ―líder‖  será natural e mais fácil. Ao contrário do processo histórico, onde os grupos escolhiam seus líderes, para que surja uma ―tribo‖ haverá necessidade de que uma empresa/organização assuma a liderança e traga os componentes do grupo.

A ―tribo setorial‖ poderá ser formada por uma empresa líder e por empresas da sua cadeia de valor a montante e a jusante. Quanto maior o número de componentes, mais complexa a solução, mas melhor para a reconstrução da economia do país.

A motivação principal da empresa líder é garantir a sua sobrevivência e para isto precisa assegurar que todos os membros da ―tribo‖ adquiram condições para superar suas dificuldades e façam parte do novo futuro. Cada elo terá fragilidades e dificuldades diferentes, mas independente do seu tamanho e para garantir a sobrevivência de todos, terá o suporte do grupo.

Detalhes do processo de construção da ideia poderão ser desenhados pelos potenciais líderes de cada segmento que têm qualificação para encontrar os caminhos e definir os papéis.

Além do protagonismo principal, a empresa líder terá papel fundamental na governança da tribo, definindo quem participa do grupo, quais as condições de entrada e saída, direitos e deveres, papéis e responsabilidades, prioridades e regras de operacionalização.

Dentre os vários benefícios, poderemos contar com facilitação da reorganização das relações negociais e principalmente com a possibilidade de estruturação de operações financeiras através de mecanismos compartilhados para assegurar a viabilização de garantias de financiamentos e acesso a fontes de recursos inacessíveis para os elos mais fracos das cadeias. Fundos setoriais liderados pelo líder poderão ser considerados e viabilizados com mecanismos do mercado de capitais.

Por  maior  que  seja  o  conhecimento  acumulado,  a  capacidade  de  traçar  cenários,  o  poder  das tecnologias disponíveis ou o tamanho da imaginação, ninguém nesse momento é capaz de pensar sobre  como  será  a  nossa  nova  realidade  pós-covid19.  Talvez  um  olhar  sobre  os  caminhos  da evolução   do   homem   possa   nos   ajudar   mais   uma   vez   a   construirmos   o   futuro   assumindo (temporariamente)  a  visão  estreita  e  egoísta  (mas  eficiente  para  o  momento)  da  preservação  do grupo.

*Sócio da FIR Capital e Presidente do CSEM Brasil

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